A Professora e o Artista de Rua
Capítulo 8 — O Sabor do Ciúme e a Harmonia dos Sons
por Amanda Nunes
Capítulo 8 — O Sabor do Ciúme e a Harmonia dos Sons
A melodia suave de um violão ecoava pelas ruas de São Paulo, um som familiar que costumava embalar as noites de Clara em seu apartamento silencioso. Mas agora, a melodia era diferente. Ela vinha do outro lado da praça, onde Léo, com os olhos fechados e um sorriso sereno, dedilhava as cordas de seu instrumento. Clara o observava de longe, sentada em um banco, tentando se concentrar no livro que segurava, mas seus olhos teimavam em desviar para ele.
Desde a noite em que se beijaram, e a conversa que se seguiu, algo havia mudado. Uma cumplicidade silenciosa se instalara entre eles, uma teia tênue, mas forte, de emoções compartilhadas. Léo a convidara para passear pela praça, e ela, para sua própria surpresa, aceitara. Agora, ele se apresentava em seu "palco" habitual, e Clara se sentia estranhamente deslocada.
Ela se lembrava das palavras dele sobre a vida sem cores, sobre a felicidade que ela tanto almejava. E ali estava ele, espalhando sua arte, atraindo olhares de admiração, sorrisos de encanto. Clara sentiu uma pontada estranha no peito, um desconforto que ela não sabia nomear.
De repente, uma figura feminina se aproximou de Léo, seus cabelos coloridos e um sorriso expansivo. Ela parecia conhecer Léo muito bem, pois o abraçou com intimidade antes de se sentar ao seu lado, começando a cantarolar junto com a melodia do violão. Clara sentiu um aperto no estômago. Quem era aquela mulher? Por que ela parecia tão à vontade com Léo?
O livro em suas mãos tornou-se um peso inútil. Clara observava, cada vez mais tensa, a interação entre Léo e a mulher. Eles riam, trocavam olhares cúmplices, e a melodia do violão parecia ganhar ainda mais vida em sua presença. Uma palavra, que Clara raramente usava em sua vida regrada, ecoou em sua mente: ciúme. Era isso que ela estava sentindo? Ciúmes de uma desconhecida que parecia ter um lugar reservado na vida do artista de rua?
Léo, alheio à tempestade que se formava no coração de Clara, sorria enquanto cantava. De vez em quando, seus olhos varriam a multidão, e Clara sentiu um misto de alívio e decepção quando percebeu que ele não a via. Seria melhor assim? Que ele não a visse ali, sentada como uma espectadora curiosa, observando uma vida que ela ainda não sabia se pertencia a ela?
O concerto improvisado terminou, e a multidão aplaudiu. A mulher colorida deu um beijo rápido na bochecha de Léo e se afastou. Léo recolheu seu violão, e foi nesse momento que seus olhos encontraram os de Clara. Um sorriso de surpresa e alegria se espalhou por seu rosto. Ele acenou, convidando-a com um gesto a se aproximar.
Hesitante, Clara se levantou e caminhou em sua direção. Aquele aperto no peito ainda estava ali, mas a curiosidade e a saudade do beijo anterior a impulsionavam.
"Clara! Que surpresa agradável", Léo disse, a voz vibrante de felicidade. "Não sabia que você apreciava música de rua."
"Eu… eu gosto de música", Clara respondeu, tentando soar casual. Ela evitou olhar para o lugar onde a outra mulher estivera sentada. "É uma melodia muito bonita."
"Essa é a Luna", Léo explicou, percebendo o olhar dela vagando. "Uma amiga de longa data. Ela tem um talento incrível para harmonizar com qualquer som."
Clara assentiu, um nó se formando em sua garganta. Amiga de longa data. A palavra soou como uma sentença.
"E você", Léo continuou, seus olhos escuros fixos nos dela, "você tem um talento incrível para me deixar sem palavras." Ele sorriu, um sorriso que desarmou as defesas de Clara. "Fiquei feliz em te ver aqui. Significou muito para mim."
"Eu… eu não queria incomodar", Clara gaguejou, sentindo-se inadequada em sua roupa formal e em sua postura reservada.
"Incomodar? Clara, você ilumina qualquer lugar em que pisa", Léo disse, o tom de sua voz mudando para algo mais íntimo. Ele se aproximou, seu olhar varrendo o rosto dela. "Você parece um pouco… distante. Tudo bem?"
A preocupação genuína em sua voz a tocou. Clara respirou fundo, decidida a não mentir. "Eu… eu vi você com a Luna. Ela parecia… muito próxima de você."
Léo riu, um som leve e descontraído que a fez relaxar um pouco. "Luna é como uma irmã para mim. A conheço desde criança. Ela sempre esteve lá, celebrando minhas vitórias, me consolando nas derrotas. Mas ela não tem nada a ver com o que eu sinto por você, Clara."
Ele segurou sua mão, a palma quente contra a dela. Clara sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Era um toque diferente do beijo, mais calmo, mais seguro, mas igualmente intenso.
"Você é a única que me faz querer pintar a tela em branco, Clara", ele disse, seus olhos transmitindo uma sinceridade que a fez acreditar. "Luna é uma parte da minha história, mas você… você é o começo de um novo capítulo. Um capítulo que eu quero escrever com você."
Clara olhou para ele, para a paixão que transbordava de seus olhos, para a arte que ele criava com suas mãos. A música do violão de Léo, que antes parecia distante e pertencente a outro mundo, agora soava como um convite. Era a harmonia de seus sons que a atraía, a melodia de sua alma que a encantava. O ciúme, aquela emoção estranha e avassaladora, começava a ceder lugar a uma confiança recém-descoberta.
"Eu… eu estou aprendendo a ver as cores, Léo", ela confessou, um leve sorriso brincando em seus lábios. "E você está me mostrando como usá-las."
Léo apertou sua mão. "Então vamos pintar um quadro que ninguém mais pode ver, Clara. Um quadro feito de risadas, de conversas até o amanhecer, de beijos que deixam marcas na alma."
Ele a guiou para um pequeno café ali perto, suas mãos entrelaçadas. Clara sentiu um calor que ia além do toque. Era a sensação de pertencimento, de descoberta. A praça, que antes parecia um palco de admiração alheia, agora se tornara um cenário de um amor que começava a florescer, um amor que trazia consigo a harmonia dos sons e a coragem de um coração que, finalmente, ousava sentir. O ciúme, aquela sombra passageira, havia apenas servido para reafirmar a intensidade do que ela sentia por Léo, e a certeza de que, ao lado dele, sua vida jamais seria cinza novamente.