A Rosa de Pernambuco
Capítulo 4 — A Fuga Sob a Lua de Sangue
por Vitor Monteiro
Capítulo 4 — A Fuga Sob a Lua de Sangue
A ousadia de Isabel reverberou pelo Engenho de Boa Esperança como um trovão. A ameaça de punição a Jonas, e sua declaração de protegê-lo, criaram um impasse sem precedentes. Afonso, furioso e humilhado diante de seus subordinados e do sogro, não podia ceder. O Coronel Ramiro, por sua vez, sentiu a honra de sua linhagem manchada pela insubordinação da filha.
"Você cruzou uma linha, Isabel", disse o Coronel Ramiro, sua voz fria como o gelo. "Você desonrou a mim e a seu futuro marido. Por sua desobediência, ficará reclusa em seus aposentos até que aprenda a se comportar como uma dama de sua posição."
Afonso, com um sorriso de escárnio, acrescentou: "E quanto ao escravo Jonas, sua pena será exemplar. Jeremias, certifique-se de que sirva de lição para todos os outros."
Isabel sentiu o chão sumir sob seus pés. Reclusa. Punição para Jonas. A injustiça era demais para suportar. Ela olhou para Afonso, para seu pai, e viu apenas a dureza de seus corações. Mas em meio ao desespero, uma pequena chama de esperança se acendeu. A rosa de prata. A mensagem enviada a Frei Domingos. Ela não estava totalmente sozinha.
Naquela noite, enquanto a lua cheia tingia o céu com um brilho pálido e fantasmagórico, Isabel estava em seus aposentos, o coração batendo descompassado. Gertrudes, sua leal confidente, trazia notícias.
"Dona Isabel", sussurrou Gertrudes, entrando no quarto com passos furtivos, "Frei Domingos enviou uma resposta. Ele disse que a rosa foi recebida e que o sinal foi compreendido. Ele a espera amanhã, ao amanhecer, perto do velho moinho abandonado, na divisa com o Engenho das Almas."
Um misto de alívio e apreensão invadiu Isabel. Frei Domingos estava agindo. Mas ir ao encontro dele significava escapar de seus aposentos, e talvez da vigilância de Afonso e Jeremias.
"E Jonas?", perguntou Isabel, a voz trêmula.
"Jeremias o fez açoitar severamente. Ele está na senzala dos castigados, Dona. Mas eu consegui falar com alguns homens de confiança. Eles não o abandonaram. Estão planejando tirá-lo de lá."
A determinação de Isabel se fortaleceu. Ela não podia deixar Jonas entregue à crueldade de Jeremias. "Gertrudes, preciso de sua ajuda. Tenho que sair daqui. E tenho que ir ao encontro de Frei Domingos. E preciso levar Jonas comigo."
Gertrudes, embora assustada, concordou. Ela sabia que sua senhora estava prestes a fazer algo perigoso, mas também algo necessário.
Na madrugada, antes que os primeiros raios de sol tocassem o horizonte, Isabel, vestida com roupas simples e escuras, escapou de seus aposentos com a ajuda de Gertrudes. O engenho, adormecido, parecia um gigante adormecido, mas os sons distantes de vigias e cães de guarda a mantinham em alerta constante.
Com Gertrudes guiando-a pelos caminhos secretos, elas se dirigiram à senzala dos castigados. Lá, encontraram alguns dos homens que haviam prometido ajuda a Jonas. O jovem escravo estava ferido, mas consciente, sua determinação intacta.
"Dona Isabel", murmurou Jonas, a voz fraca, mas firme. "O que está fazendo aqui?"
"Eu não podia deixá-lo a mercê de Jeremias", respondeu Isabel, ajudando-o a se levantar. "Vamos. Temos que sair daqui."
A fuga foi tensa. Cada sombra parecia esconder um perigo, cada som um alerta. Eles se moveram furtivamente pelos campos de cana, o cheiro doce do melaço misturando-se ao cheiro de suor e medo. A lua, em seu zênite, lançava uma luz prateada que, em alguns momentos, os delatava.
Ao se aproximarem do velho moinho abandonado, um vulto emergiu das sombras. Era Frei Domingos, um homem de semblante sereno, mas com olhos que transbordavam compaixão e sabedoria.
"Sejam bem-vindos", disse ele, sua voz calma. "Sei que o caminho foi árduo."
Isabel sentiu um alívio imenso. "Frei Domingos, eu trouxe Jonas. Ele foi cruelmente castigado por minha causa."
O padre examinou Jonas com um olhar preocupado. "Vejo isso. Ele precisará de cuidados. Mas o mais importante é que ele está seguro agora. E você, Dona Isabel, tomou uma decisão corajosa. Seu ato de desafio não passará despercebido."
"Eu não podia mais tolerar a injustiça", disse Isabel, a voz embargada. "Eu preciso ajudar. Preciso ser parte da mudança."
Frei Domingos assentiu. "Eu sei. E é por isso que a coragem de sua alma é tão importante. O Visconde de Valença está ciente de sua situação. Ele preparou um refúgio para você em Olinda, em uma casa segura. E Elias, ele também está em Olinda, trabalhando em um dos armazéns que o Visconde administra. Ele saberá como se comunicar com você."
Ele entregou a Isabel um pequeno pedaço de pergaminho, dobrado e selado. "Este é o endereço da casa em Olinda. E aqui, um código para que você possa enviar uma mensagem a Elias. Use-o apenas em caso de extrema necessidade. O caminho será perigoso."
Isabel pegou o pergaminho, sentindo a importância daquele momento. Ela estava deixando para trás sua vida anterior, sua prisão dourada, para abraçar um futuro incerto, mas cheio de propósito.
"E o que será de mim?", perguntou ela, com uma ponta de apreensão.
"Você terá um papel a desempenhar", disse Frei Domingos. "A resistência não é feita apenas de bravura em combate, mas também de inteligência, de estratégia, de esperança. Você trará uma perspectiva única, Dona Isabel. E, com Elias, poderá ser uma voz poderosa para aqueles que não têm voz."
Enquanto o sol começava a romper o horizonte, tingindo o céu com tons de rosa e laranja, Isabel, Jonas e Gertrudes se despediram de Frei Domingos. Eles partiram em direção a Olinda, um grupo improvável unido pela causa da liberdade e pela esperança de um futuro mais justo.
De volta ao Engenho de Boa Esperança, o caos se instalara. A fuga de Isabel e Jonas havia sido descoberta. Afonso e o Coronel Ramiro estavam furiosos. Jeremias, temendo a ira de seus superiores, intensificou a busca, espalhando seus homens por todos os caminhos.
"Encontrem-na! Eu a farei se arrepender de cada palavra que disse!", gritava Afonso, o rosto contorcido de raiva.
No entanto, Isabel já estava longe. A lua de sangue, que marcara sua fuga, parecia um prenúncio de tempos turbulentos, mas também de uma nova aurora que se aproximava. Em seu coração, a rosa de prata pulsava, um lembrete de sua coragem e da esperança que a impulsionava para o desconhecido. Ela sabia que a jornada seria longa e perigosa, mas pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que estava verdadeiramente viva, lutando por algo maior que si mesma.
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