Herdeira da Capitania
Capítulo 13 — O Segredo Revelado no Engenho e a Fuga de um Coração Aflito
por Henrique Pinto
Capítulo 13 — O Segredo Revelado no Engenho e a Fuga de um Coração Aflito
A brisa noturna, que antes trazia o doce aroma das flores e a promessa de um descanso merecido, agora carregava consigo o cheiro amargo do melaço e o peso de segredos ancestrais. No Engenho dos Ventos, sob o olhar atento das estrelas, Amaro, o escravo ancião, e Pedro, o capataz, trabalhavam em silêncio. A missão era clara: encontrar as provas que Helena tanto buscava.
Amaro guiou Pedro por caminhos pouco frequentados, longe dos olhares curiosos dos capatazes de Gaspar. Eles se dirigiram a um velho barracão, esquecido nos fundos da propriedade, onde o mofo e a poeira reinavam. O lugar cheirava a umidade e a tempo, e em seu interior, escondidos sob tábuas soltas do piso, havia um pequeno baú de madeira, corroído pelo tempo.
"Aqui", disse Amaro, com a voz rouca, apontando para o baú. "O antigo senhor… ele me pediu para guardar isto. Disse que eram coisas importantes, para o futuro. Para o futuro da família."
Pedro abriu o baú com cuidado. Dentro, não havia ouro nem joias, mas sim um monte de papéis. Eram cartas antigas, diários encadernados em couro gasto, e alguns documentos que pareciam ser escrituras de terras e contratos. O coração de Pedro disparou. Aquilo era o que Helena precisava.
Eles passaram horas ali, na penumbra do barracão, folheando os papéis. Amaro, com sua memória prodigiosa, ia reconhecendo o conteúdo das cartas, lembrando-se de conversas e eventos que o antigo senhor havia compartilhado com ele. E foi assim que descobriram a verdade sobre a dívida que Gaspar usava para justificar a tomada das terras.
"Olhe aqui, Pedro", disse Amaro, apontando para um documento. "Este é o contrato original. O empréstimo que o senhor fez para comprar novas sementes e equipamentos. Mas veja a data. E veja os juros que Gaspar diz que foram acumulados. São quase o dobro do que o contrato estipula!"
Pedro examinou os papéis com atenção. Era claro que Gaspar havia manipulado os valores, falsificando aditivos e juros exorbitantes para criar uma dívida impagável. Havia também cartas em que o pai de Helena, antes de adoecer, tentava negociar com Gaspar, propondo prazos maiores e condições mais justas. As respostas de Gaspar, contidas em outras cartas, eram frias e ameaçadoras, indicando que ele não tinha intenção de ser flexível.
"Ele planejou isso desde o início", sussurrou Pedro, a raiva crescendo em seu peito. "Ele sabia que o senhor ficaria doente, que a moça seria vulnerável."
Amaro concordou com a cabeça, seus olhos escuros refletindo a tristeza e a indignação. "Ele é um homem sem alma, capataz. Um predador. Ele viu uma presa fraca e atacou."
Entre os documentos, havia também um pequeno diário escrito pela mãe de Helena, Dona Ana. As páginas revelavam sua preocupação com o estado de saúde do marido, mas também seu amor e sua fé na filha. Ela falava de seus receios em relação a Gaspar, de sua desconfiança em relação às suas intenções. Havia uma carta, especialmente, escrita para Helena, que parecia uma despedida antecipada, cheia de conselhos e de amor incondicional.
"Ela sabia", disse Pedro, com a voz embargada, ao ler as palavras de Dona Ana. "Ela sabia o que estava por vir."
Amaro colocou uma mão em seu ombro. "Ela deixou um legado para você, capataz. Um legado de força. E agora, você tem a missão de entregá-lo à moça."
Com os documentos em mãos, Pedro sabia que não podia mais esperar. Helena precisava dessas provas o quanto antes. A incerteza e a demora poderiam ser fatais. Ele sentiu um aperto no coração ao pensar em deixá-la sozinha, mas sabia que era necessário agir rápido. Ele precisava levar essas informações até a cidade, até alguém que pudesse ajudá-la a agir.
"Eu preciso ir até a cidade, Amaro", disse Pedro. "Preciso entregar isso para Dona Helena. E preciso avisá-la que Gaspar está se movendo. Que ele pretende formalizar a posse das terras em breve."
Amaro assentiu. "Vá, então. Mas vá com cuidado. As estradas não são seguras. E os homens de Gaspar estão em toda parte."
Naquela noite, sob o manto escuro da lua, Pedro se despediu de Amaro e partiu. Montado em um cavalo emprestado, ele galopou pela noite, o vento chicoteando seu rosto, o baú com os segredos do Engenho dos Ventos firmemente preso à sela. A imagem de Helena, de sua força contida e sua inteligência viva, o impulsionava. Ele sentiu que estava carregando não apenas documentos, mas a esperança de uma família e a chance de justiça para muitos.
Ao chegar à cidade ao amanhecer, a primeira coisa que Pedro fez foi procurar um lugar seguro para se abrigar. Ele sabia que não podia simplesmente aparecer no Solar dos Silvas. Gaspar teria espiões por toda parte. Ele precisava ser discreto. Ele se dirigiu a uma pequena taverna nos arredores da cidade, um lugar frequentado por viajantes e comerciantes, onde a movimentação era constante e a chance de ser notado menor.
Ele pediu uma mesa isolada e, com o baú escondido sob o manto, esperou a oportunidade certa. Ele observava as pessoas que entravam e saíam, ouvindo fragmentos de conversas. Seu coração batia acelerado, uma mistura de ansiedade e determinação. Ele precisava encontrar um meio seguro de contatar Helena.
Foi então que ele a viu. Ela estava acompanhada de uma de suas antigas aias, uma mulher de rosto bondoso e olhar preocupado. Helena parecia mais magra, seus olhos, embora ainda determinados, carregavam uma sombra de cansaço. Ela estava comprando alguns tecidos em uma loja próxima à taverna.
Pedro esperou que ela se afastasse da multidão. Quando ela se dirigiu para uma rua mais deserta, ele se levantou e a seguiu, mantendo uma distância segura. Quando ele viu que ela estava sozinha por um momento, ele se aproximou rapidamente.
"Dona Helena!", ele sussurrou, a voz firme.
Helena se virou, assustada. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer Pedro. O capataz do engenho, um rosto familiar e confiável em meio a tantos outros que a ameaçavam.
"Pedro! O que faz aqui? E como me encontrou?"
"Não há tempo para explicações, Dona Helena. Eu trago algo muito importante. Algo que prova a desonestidade de Gaspar." Ele gesticulou para o baú. "E eu preciso que a senhora veja isso o mais rápido possível. Ele pretende tomar posse de tudo em breve."
O rosto de Helena empalideceu. A urgência na voz de Pedro, o desespero em seus olhos, tudo confirmava seus piores medos. Ela sabia que não podia mais adiar o confronto.
"Onde podemos nos encontrar em segurança?", perguntou Helena, a voz baixa, mas firme.
"Eu pensei em um lugar", disse Pedro. "Uma pequena capela abandonada, nos arredores da cidade. Ninguém vai até lá. Podemos nos encontrar lá ao anoitecer."
Helena assentiu. A ideia de um local isolado e seguro era perfeita. Ela sentiu um misto de alívio e apreensão. Pela primeira vez, ela sentia que podia ter uma chance real de lutar. Mas o perigo era imenso. A fuga de seu coração aflito para encontrar Pedro e as provas que ele trazia era um ato de coragem desesperada, um passo ousado em direção a um futuro incerto, mas um futuro onde ela não se renderia sem lutar.