Herdeira da Capitania

Capítulo 15 — A Fuga para a Liberdade e o Juramento no Fim da Noite

por Henrique Pinto

Capítulo 15 — A Fuga para a Liberdade e o Juramento no Fim da Noite

O ar da noite era denso e úmido, carregado com o cheiro de terra molhada e folhas em decomposição. Helena e Pedro corriam pela mata fechada, seus corpos arranhados por galhos e espinhos, seus pulmões ardendo pela corrida desesperada. A luz fraca da lua, filtrada pelas copas das árvores, criava um labirinto de sombras e clareiras fugazes, tornando cada passo uma aposta incerta.

"Pedro, para!", ofegou Helena, parando abruptamente. Ela se apoiou em uma árvore, tentando recuperar o fôlego. "Precisamos ter certeza de que não estamos sendo seguidos."

Pedro, com o rosto suado e os olhos arregalados de apreensão, também parou. Ele olhou para trás, para a escuridão de onde vieram, e escutou atentamente. Os sons da luta na capela haviam se dissipado, substituídos apenas pelo murmúrio do vento e pelos sons da natureza.

"Acho que conseguimos despistá-los", disse ele, a voz baixa. "O Capitão Mor e seus homens nos deram tempo. E os homens de Gaspar estão mais preocupados em contê-lo."

Helena sentiu um arrepio ao pensar no Capitão Mor. Ele se sacrificara para lhes dar uma chance. A gratidão e a preocupação se misturaram em seu peito. Ela sabia que ele era um homem de honra, e esperava que ele estivesse bem.

Ela apertou a bolsa de couro contra si, sentindo o volume dos papéis que eram sua única esperança. Eram a prova da desonestidade de Gaspar, o legado de seu pai, a chance de reconquistar o que lhe fora roubado. Mas, naquele momento, eram também um fardo perigoso. Se fossem pegos, tudo estaria perdido.

"Precisamos ir para o porto", disse Helena, a voz recuperando um pouco de sua firmeza. "Precisamos encontrar um navio que nos leve para longe daqui. Para um lugar onde Gaspar não possa nos alcançar."

Pedro assentiu. Ele conhecia os caminhos para o porto, embora nunca tivesse pensado que os percorreria em uma fuga. A cidade parecia um lugar perigoso, um ninho de cobras onde Gaspar tinha seus aliados. O porto, com sua constante movimentação de marinheiros e mercadores, oferecia uma chance de se misturar, de desaparecer.

Eles continuaram a jornada, movendo-se com cautela pela mata, evitando os caminhos mais abertos. O silêncio da noite, que antes parecia ameaçador, agora era um aliado, disfarçando seus passos e sua presença. Helena, com o coração ainda acelerado, sentia uma estranha calma se instalar em meio ao caos. Era a calma de quem tomou uma decisão, de quem escolheu lutar mesmo diante do perigo iminente.

Ao amanhecer, eles finalmente avistaram as luzes da cidade. O porto estava agitado, com navios de diferentes tamanhos ancorados, marinheiros carregando mercadorias e o cheiro salgado do mar pairando no ar. Era um mundo diferente do engenho e do solar, um mundo de oportunidades e perigos.

Helena e Pedro se misturaram à multidão, tentando parecer o mais natural possível. Helena, com seus trajes simples, parecia uma moça de família humilde, acompanhada de um capataz. Pedro, com seu semblante sério e sua constituição forte, passava por um trabalhador braçal.

Eles procuraram um capitão de navio que pudesse levá-los para longe. A tarefa não era fácil. Muitos olhavam para eles com desconfiança, outros com interesse, mas poucos com a discrição que precisavam. Finalmente, em um dos cais mais afastados, eles encontraram um capitão de um pequeno brigue, um homem de rosto marcado pelo sol e pelo mar, chamado Capitão Matias.

"Senhor", disse Helena, aproximando-se com cautela. "Precisamos de passagem. Para a Bahia. E precisamos partir o mais rápido possível."

O Capitão Matias a examinou com um olhar perspicaz. Ele viu a urgência em seus olhos, a determinação em sua postura, e a bolsa que Helena segurava com firmeza. Ele também viu Pedro, vigilante e pronto para defender sua senhora.

"Para a Bahia, diz?", perguntou ele, a voz grave. "É uma viagem longa e cheia de perigos. E o que vocês têm a oferecer em troca?"

Helena hesitou por um momento. Eles não tinham muito dinheiro. A maior parte do que eles precisavam era de discrição e rapidez. Foi então que Pedro interveio.

"Capitão", disse ele, tirando um pequeno saco de moedas de seu cinto. "Temos o suficiente para a passagem. E prometemos não causar problemas. Apenas nos leve para longe daqui."

O Capitão Matias ponderou. Ele viu que não era uma situação comum. Havia algo naquela jovem e em seu companheiro que o intrigava. Ele também sabia que as autoridades da capitania, como o Capitão Mor, eram frequentemente os que menos queriam problemas com os que buscavam fugir.

"Muito bem", disse ele, finalmente. "Vocês têm uma hora para estar a bordo. Mas não quero confusão. E se as autoridades aparecerem, vocês estarão por sua conta."

Helena sentiu um alívio imenso. "Muito obrigada, Capitão. Não o decepcionaremos."

Eles embarcaram no brigue, escondendo-se no porão, o cheiro de sal e madeira impregnado em seus narizes. A espera foi tensa. Cada ruído, cada movimento no cais os deixava em alerta. Eles temiam que Gaspar tivesse enviado seus homens para encontrá-los.

Mas o tempo passou, e o brigue finalmente levantou âncora, afastando-se lentamente do porto. Helena e Pedro se espremeram contra a borda do porão, observando a terra de Pernambuco diminuir à distância. Helena sentiu uma pontada de tristeza ao deixar para trás o lugar onde crescera, mas essa tristeza era rapidamente substituída por uma determinação renovada.

"Acabou, Pedro", sussurrou Helena, a voz embargada de emoção. "Nós escapamos."

Pedro olhou para ela, um sorriso cansado mas genuíno iluminando seu rosto. "Escapamos, Dona Helena. E agora, vamos começar de novo. Em outro lugar."

Enquanto o brigue navegava em direção ao horizonte, a noite já se desfazia em um novo amanhecer. Helena abriu a bolsa e tirou os papéis que provavam a fraude de Gaspar. Ela os olhou com uma mistura de dor e força. A batalha ainda não estava vencida, mas ela havia dado o primeiro passo crucial. Ela tinha as provas, tinha a liberdade, e tinha a esperança de um futuro onde poderia usar essas informações para restaurar a honra de sua família e punir os culpados.

Naquele amanhecer, no vasto oceano que os separava de Pernambuco, Helena fez um juramento silencioso. Jurou que lutaria até o fim para que a justiça fosse feita. Jurou que honraria a memória de seus pais, vivendo uma vida de dignidade e coragem. E jurou que, um dia, retornaria para reclamar o que era seu por direito. O fim da noite trazia consigo não apenas a fuga, mas o nascimento de um novo propósito, um juramento selado pelo sal do mar e pela promessa de liberdade.

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