Herdeira da Capitania

Capítulo 22 — O Encontro no Engenho e as Palavras Cruéis

por Henrique Pinto

Capítulo 22 — O Encontro no Engenho e as Palavras Cruéis

A brisa morna da tarde acariciava o rosto de Cecília enquanto ela percorria o caminho que a levava ao Engenho da Boa Vista, a morada de Elias. Cada passo dado nas estradas de terra batida parecia pesar mais do que o anterior, carregado pela angústia das revelações do diário de seu pai e a crescente dúvida que se instalara em seu coração. As palavras de Manuel e D. Leonor ressoavam em sua mente, pintando um quadro sombrio da possível ligação entre seu pai, Elias Viana, e o Elias que ela amava.

Ela temia o confronto, temia a resposta que ele poderia lhe dar. Amava Elias com a intensidade de uma paixão que a consumia, mas a sombra da desconfiança era um veneno que se espalhava lentamente, manchando a pureza de seus sentimentos. Seria possível que o Elias de olhar profundo e sorriso sincero tivesse se envolvido nos negócios escusos de seu pai, mesmo que por lealdade? A lealdade, afinal, podia ser um fardo cruel.

Ao avistar as chaminés do engenho, que soltavam fumaça preguiçosamente no céu azul, Cecília sentiu um aperto no peito. Elias estava ali, em seu mundo de cana-de-açúcar e trabalho árduo, alheio à tempestade que se formava em sua vida. Manuel a acompanhava em silêncio, seu olhar observador e protetor.

Elias a recebeu com o mesmo sorriso acolhedor que sempre a fazia suspirar, mas a expressão de Cecília era tensa, carregada de um peso que ele logo notou. Ele a conduziu para o alpendre da casa grande, onde a sombra das mangueiras antigas oferecia um refúgio do sol escaldante.

"Cecília! Que surpresa agradável! O que a traz ao meu humilde engenho?", ele disse, tentando disfarçar a surpresa em sua voz. Ele a observava com atenção, percebendo a palidez e o brilho de preocupação em seus olhos.

Cecília hesitou por um momento, reunindo coragem. "Elias, preciso falar com você. De algo muito sério."

Ele a convidou a sentar-se em uma das cadeiras de balanço, e ele se sentou em frente a ela, o olhar fixo em seu rosto. "O que aflige você, meu amor? Fale-me, por favor."

Respirando fundo, Cecília tirou de sua bolsa o pequeno diário de couro. "Encontrei isto. O diário de meu pai."

O rosto de Elias se contraiu levemente ao ver o objeto. Ele parecia reconhecê-lo. "Seu pai... Don Rodrigo. Sempre pensei que ele guardasse seus segredos a sete chaves."

"E ele guardava. Mas aqui", Cecília abriu o diário em uma página específica, "ele menciona o seu nome. E também o nome de Elias Viana."

Ao ouvir o nome Elias Viana, o semblante de Elias mudou drasticamente. A serenidade deu lugar a uma sombra de desagrado, um misto de cautela e um profundo desânimo. Ele olhou para a página, seus olhos percorrendo as palavras de seu pai.

"Elias Viana...", ele murmurou, a voz quase inaudível. "Um nome que eu jamais quis ouvir novamente."

"Pai?", Cecília perguntou, a voz tremendo.

Elias fechou os olhos por um instante, como se reunisse forças para as palavras que viriam. Quando os abriu, o olhar que pousou em Cecília não era o mesmo de antes. Havia uma dor profunda, um ressentimento antigo que parecia vir à tona.

"Ele era meu pai, Cecília", disse Elias, a voz carregada de um pesar que cortou o coração de Cecília. "Elias Viana, o homem que, em vida, me atormentou com suas dívidas, sua crueldade e sua ambição desmedida. Um homem que nunca me considerou um filho digno, sempre me comparando aos seus 'sucessos' nos negócios, que na verdade eram roubos disfarçados."

Cecília ficou chocada. A revelação a pegou de surpresa, jogando por terra todas as suas suposições. Ela esperava uma confissão sobre alguma ligação forçada, não uma revelação de que aquele homem era o pai dele, e um pai tão detestável.

"Seu pai... era meu pai", repetiu Elias, a voz embargada. "E aquele Elias Viana que seu pai menciona nas páginas de seu diário... é o mesmo homem. Um homem que me cobrava, me humilhava, e me obrigava a fazer coisas que me davam nojo para saldar dívidas que ele mesmo criara com gente perigosa."

Ele fez uma pausa, como se a lembrança fosse demais para suportar. "Quando soube que seu pai, Don Rodrigo, estava me pressionando para 'colaborar' com seus esquemas, para me envolver em negócios ilegais com Elias Viana, eu recusei. Recusei com todas as minhas forças. A ideia de me aliar a meu próprio pai, de me tornar igual a ele, me repugnava. Eu não queria o dinheiro sujo dele. Eu queria construir algo honesto com minhas próprias mãos."

"Mas seu pai não desistiu. Ele me ameaçou. Disse que se eu não fizesse o que ele queria, ele se voltaria contra você, que espalharia mentiras, que destruiria sua reputação, sua família. Que arruinaria você como ele arruinou a mim." Elias falou com uma fúria contida, o corpo tenso. "Eu não podia permitir isso, Cecília. Eu não podia deixar que meu pai usasse você como moeda de troca para seus planos sombrios."

Cecília sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. A verdade era mais dolorosa e mais complexa do que ela imaginara. Elias não havia se envolvido nos planos de seu pai por ganância, mas sim para protegê-la.

"Então, o que você fez?", ela perguntou, a voz embargada pelas lágrimas.

Elias olhou para ela, o rosto marcado por uma tristeza profunda. "Eu fiz o que ele queria. Por você. Eu me envolvi em alguns negócios com Elias Viana, sob as ordens de seu pai. Trouxe algumas mercadorias para ele, fiz algumas transações... coisas que me deixaram com a alma pesada. Fiz tudo isso para que ele deixasse você em paz."

O alívio que Cecília sentiu por saber que Elias a protegera se misturou à dor de vê-lo carregando o peso dessas ações. "Mas... por que não me contou?", ela sussurrou.

"Como eu poderia, Cecília? Como eu poderia te contar que seu pai, o homem que você admirava, era capaz de tamanha crueldade? Que eu, por minha vez, estava me sujando para protegê-la dele? Eu não queria que você visse seu pai da forma que eu o via. Eu não queria que você perdesse a fé nele." Elias esfregou as têmporas. "E eu não queria que você me olhasse com desconfiança, pensando que eu era igual a ele."

Ele a encarou, os olhos marejados. "Eu fingi ser um homem ambicioso, um homem que buscava o poder, para afastar você de mim. Para que você se sentisse segura longe de um homem com um pai como Elias Viana. Aquele Elias Viana que eu vi em você... era apenas a persona que eu criei para me proteger e para protegê-la."

A confissão de Elias foi como um soco no estômago de Cecília. A imagem que ela construíra dele, a do homem gentil e sonhador, se desfez em pedaços, para ser substituída pela de um homem atormentado, forçado a agir contra sua própria natureza. Ela o olhou, vendo pela primeira vez a profundidade de sua luta, o sacrifício que ele fizera.

"Você... você fez tudo isso por mim?", ela perguntou, a voz rouca.

"Tudo", ele confirmou, o olhar fixo no dela. "Para que você pudesse continuar sendo a luz que ilumina esta Capitania. Para que você pudesse ter um futuro. Eu não queria que o legado de Elias Viana manchasse o seu."

Cecília levantou-se, andando em círculos, o coração em conflito. Ela amava esse homem, amava a sua bravura, o seu sacrifício. Mas a mentira, mesmo que com boas intenções, doía. Doía saber que ele a afastara, que a fizera duvidar de seus sentimentos.

"Elias...", ela começou, a voz embargada, "eu te amo. Amo você mais do que tudo. Mas você me fez duvidar. Você me fez acreditar que talvez você fosse como seu pai. Que talvez você tivesse se envolvido com meu pai por interesse."

Elias se levantou também, os olhos cheios de dor e desespero. "Eu sei, Cecília. E me arrependo a cada segundo. Eu vi o medo em seus olhos quando você olhava para mim nos últimos dias, e isso me consumia. Mas eu não sabia mais o que fazer. Eu estava preso entre o meu amor por você e o ódio pelo meu pai."

Ele deu um passo em sua direção, estendendo as mãos. "Por favor, Cecília. Não me julgue. Eu não sou meu pai. Nunca serei. Apenas me dê uma chance para provar isso. Para que possamos construir um futuro juntos, sem as sombras do passado."

Cecília olhou para as mãos estendidas de Elias, para seus olhos suplicantes. A verdade era complexa, cheia de dor e mal-entendidos. O amor que ela sentia era inegável, mas a ferida da desconfiança ainda precisava ser curada. Ela sabia que a jornada para reconstruir a confiança seria longa, mas o amor que os unia era uma força poderosa. Talvez, apenas talvez, eles pudessem superar as sombras e encontrar um novo amanhecer.

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