O Juramento do Bandeirante

O Juramento do Bandeirante

por Caio Borges

O Juramento do Bandeirante

Capítulo 1 — A Sombra da Mata Atlântica

O ar era denso, carregado com o perfume úmido da terra revolvida e o aroma adocicado e pungente das flores que se abriam à sua revelia na escuridão da mata. Cada passo de Matias era um combate silencioso contra as raízes traiçoeiras que se estendiam como garras pela trilha mal definida, contra os cipós que se enroscavam em seus ombros como abraços indesejados. O sol, quando conseguia furar o denso dossel de folhas centenárias, pintava o chão em manchas douradas, fugidias, que dançavam com o balanço das árvores. Era um cenário de beleza selvagem, deslumbrante e aterrador, o coração pulsante da terra que os portugueses ousavam chamar de sua.

Matias suspirou, o som perdido no murmúrio incessante dos pássaros e no zumbido invisível dos insetos. Não era a beleza que o prendia ali, nem a promessa de ouro ou prata que acendia em seus olhos a chama da ambição que guiava muitos de seus companheiros. Era algo mais profundo, uma força ancestral que emanava daquele solo, uma promessa de algo que ele ainda não conseguia nomear, mas que sentia pulsar em suas veias a cada batida do coração.

Ele era o segundo filho de um lavrador humilde da província do Minho, mandado para esta terra distante com a esperança de forjar um destino melhor, longe da sombra do irmão mais velho, o herdeiro da modesta propriedade familiar. A viagem em si já fora um tormento, dias e noites confinados em um porão apertado e fétido, o cheiro de sal e suor impregnado em cada pedaço de sua roupa, o medo e a esperança lutando no estômago. Chegar ao litoral brasileiro, a vastidão verde se estendendo até onde a vista alcançava, fora um choque, uma promessa de tudo e de nada ao mesmo tempo.

Agora, ele era um homem de vinte e poucos anos, com a pele curtida pelo sol e o corpo forte, moldado pelo trabalho duro e pela vida ao relento. Vestia a típica roupa de um homem do sertão: calças de brim grossa, uma camisa de linho desbotada e um chapéu de abas largas que mal conseguia afastar o calor sufocante. Uma faca de mato estava presa à cintura, ao lado de um cantil de couro e um pequeno saco de onde pendiam algumas ervas medicinais que aprendeu a reconhecer com os índios.

A expedição, liderada pelo temido capitão Diogo Aranha, um homem cuja fama de crueldade e persistência antecedia sua chegada, avançava lentamente. O objetivo, como sempre, era a busca por riquezas, por pedras preciosas, por ouro que pudesse saciar a sede insaciável da Coroa Portuguesa e a ganância dos aventureiros. Mas Matias sentia, em seus ossos, que havia mais naquela terra do que aquilo que os olhos ambiciosos buscavam. Havia segredos, histórias ancestrais escritas nas próprias rochas e no murmúrio das cachoeiras.

O silêncio, que por vezes parecia quebrar com o grito repentino de um macaco ou o estrondo de um trovão distante, era, na verdade, uma tapeçaria sonora complexa. O bater das asas de uma arara azul atravessou o dossel, um flash de cor em meio à predominância verde. Matias parou, erguendo a mão, sinalizando para que os homens atrás dele fizessem o mesmo. Seu guia, um jovem tapuia chamado Ibiraci, com quem Matias desenvolvera um laço de respeito mútuo, também parou, os olhos escuros e profundos fixos na direção do som.

"Arara-açu", Ibiraci sussurrou, a voz baixa e rouca, quase um sopro. "Não traz boa sorte em dias de chuva."

Matias assentiu. Ele aprendera a valorizar as palavras de Ibiraci, o garoto que, apesar da pouca idade, carregava a sabedoria ancestral de seu povo. Aos poucos, a comunicação entre eles evoluíra de gestos e palavras isoladas para frases mais complexas, um idioma novo surgindo da necessidade e do respeito. Matias, ao contrário de muitos de seus companheiros, não via os indígenas como meros selvagens a serem dominados ou explorados, mas como guardiões de um conhecimento profundo sobre aquela terra.

O capitão Aranha, um homem corpulento com uma barba grisalha desgrenhada e olhos que pareciam perfurar a alma, bufou atrás deles. "O que esperam? Uma procissão de boas-vindas? Sigam em frente! O sol não espera por araras tristes!"

Matias se endireitou, o olhar encontrando o de Aranha por um breve instante. Havia uma rivalidade silenciosa entre eles, uma tensão que pairava no ar como o calor. Matias desprezava a brutalidade desnecessária de Aranha, a forma como ele tratava os homens e, principalmente, os índios. Mas Aranha era o líder, o detentor do poder naquela expedição, e Matias, por mais que quisesse, ainda não tinha a força nem a influência para desafiá-lo abertamente.

Eles continuaram a marcha. A cada dia, a mata parecia se fechar ainda mais, os caminhos se tornarem mais obscuros, os perigos mais palpáveis. Um rio caudaloso surgiu em seu caminho, suas águas escuras e turbulentas cortando a paisagem como uma cicatriz. Montar uma balsa improvisada foi uma tarefa árdua, exigindo a força de todos e a habilidade de alguns, que sabiam como lidar com as madeiras e cipós da região.

Foi durante a travessia que o primeiro incidente grave ocorreu. Um dos homens, um sujeito corpulento e barulhento chamado Jeremias, que ostentava uma grande cruz de prata no pescoço e falava mais em riqueza do que em trabalho, escorregou. No instante em que perdeu o equilíbrio, sua arma, um bacamarte pesado, caiu na água barrenta. Ele gritou, um som estridente de desespero, não pela arma em si, mas pelo valor que ela representava.

Antes que alguém pudesse reagir, um movimento rápido e silencioso surgiu da água. Uma forma esguia e escura deslizou em direção à arma caída. Era Ibiraci. Com uma agilidade impressionante, ele mergulhou, desaparecendo por alguns segundos sob a superfície agitada. Todos prenderam a respiração. O capitão Aranha, irritado, começou a gritar ordens, mas elas foram abafadas pelo barulho da correnteza.

Em seguida, Ibiraci emergiu, ofegante, segurando o bacamarte de Jeremias. A água escorria de seus cabelos negros e compridos, seu rosto jovem transfigurado pela tensão e pelo esforço. Ele nadou até a margem e entregou a arma, encharcada e pesada, a Jeremias.

Jeremias pegou a arma com as duas mãos, o rosto ainda pálido. "Graças a Deus! Ou melhor, graças a você, moleque. Quase perdi meu tesouro." Ele deu um tapinha descuidado nas costas de Ibiraci, que cambaleou com o impacto.

Matias observou a cena com um misto de admiração e repulsa. Admirava a coragem e a habilidade de Ibiraci, a forma como ele se arriscou por um objeto material de outro homem. Repudiava a insensibilidade de Jeremias, sua falta de gratidão genuína.

"Um gesto de bravura, Ibiraci", disse Matias, aproximando-se do jovem tapuia. "Você salvou a arma dele."

Ibiraci deu um leve sorriso, que não alcançou seus olhos. "Era o dever. Jeremias é um homem rico. Ele precisa de sua arma para proteger sua riqueza." Havia um tom de sarcasmo na voz do índio que Matias notou, mas que Jeremias, em sua cegueira, não percebeu.

Naquela noite, enquanto o fogo crepitava e os homens se reuniam em torno dele para compartilhar a pouca comida e o pouco calor que a floresta permitia, Matias sentou-se um pouco afastado, observando as estrelas que teimavam em aparecer entre as frestas das árvores. Ele pensava em Ibiraci, em sua agilidade, em sua sabedoria silenciosa. Pensava na terra que os cercava, em seus mistérios, em suas promessas.

O capitão Aranha, sentado em um tronco à beira do fogo, chamou sua atenção. "Matias! Venha cá. Preciso falar com você."

Matias levantou-se e aproximou-se, sentindo o olhar de todos os homens sobre si. Aranha, com um sorriso que não chegava aos olhos, ofereceu-lhe um pedaço de carne assada.

"Você é um bom homem, Matias. Forte, corajoso. E, mais importante, você sabe falar com esses selvagens. Não como eu, que só entendo de aço e pólvora. Mas você, você parece... entender o que eles dizem." Aranha falava de forma calculista, suas palavras cuidadosamente escolhidas. "Tenho ouvido rumores. Rumores de um lugar. Um lugar onde os rios de ouro correm. Os índios chamam de 'Terra dos Orixás'. Você já ouviu falar?"

Matias franziu a testa. "Terra dos Orixás? Não, capitão. Nunca ouvi tal nome."

Aranha riu, um som seco e sem alegria. "Eles são evasivos, esses tapuias. Mas sei que você tem uma comunicação melhor com eles. Preciso que você descubra. Preciso que você nos leve até lá. Há ouro, Matias. Muito ouro. O suficiente para nos tornar homens ricos. Para você também."

O olhar de Aranha era intenso, uma mistura de promessa e ameaça. Matias sentiu um arrepio. A "Terra dos Orixás". A menção daquele nome, mesmo que fugaz, despertou algo dentro dele. Uma intuição, uma sensação de que aquele lugar, se existisse, guardava mais do que ouro. Guardava o segredo daquela terra, a alma da mata que ele começava a sentir pulsar em seu próprio peito.

"Eu farei o meu melhor, capitão", respondeu Matias, a voz firme, embora por dentro uma tempestade de pensamentos e sentimentos se agitasse. Ele não sabia se o que buscava era ouro, mas sabia que, de alguma forma, aquele juramento silencioso que ele sentia nascer em seu coração o levaria mais fundo naquela selva, em busca de algo que transcendia a riqueza material. Ele sentia o chamado da terra, e não poderia mais ignorá-lo.

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