O Juramento do Bandeirante

Capítulo 10 — A Sombra da Inquisição e a Escolha de um Caminho

por Caio Borges

Capítulo 10 — A Sombra da Inquisição e a Escolha de um Caminho

O amanhecer encontrou Helena e seus poucos companheiros remanescentes nas margens do Rio da Fuga, um reflexo sombrio da noite de perigo que haviam enfrentado. A mata, antes um campo de batalha, agora respirava um silêncio tenso, pontuado pelo murmúrio constante da água. Helena sentia o cansaço em seus ossos, mas o fogo em seu espírito ardia mais forte do que nunca. A repulsa do ataque e a demonstração do poder ancestral que emanava da pedra em seu pescoço haviam solidificado sua determinação. Ela não era mais a mulher frágil que Bartolomeu deixara para trás; era uma guardiã, uma portadora de um conhecimento que transcendia o tempo e o espaço.

"Precisamos de um lugar seguro, Helena", disse Mateus, sua voz rouca pela fumaça e pela exaustão. "Onde possamos entender o que essa pedra nos mostra, e o que Bartolomeu realmente buscava."

Helena assentiu, pegando o mapa de Bartolomeu. O "X" que marcara o local das cachoeiras agora parecia apenas o ponto de partida. A projeção celestial que ela vira na caverna era um enigma complexo, uma linguagem de estrelas e ciclos que ela mal começava a decifrar.

"Bartolomeu mencionou um antigo eremita, um sábio que vivia isolado nas montanhas do norte", disse Helena, lembrando-se de uma passagem no diário de Bartolomeu. "Ele dizia que o eremita guardava o conhecimento para interpretar os segredos celestes. Talvez seja para lá que devamos ir."

O caminho para as montanhas era longo e traiçoeiro. A notícia do ataque e da derrota dos homens da Coroa, espalhada como fogo em palha seca, criaria um rastro de perseguição implacável. Helena sabia que não podia mais confiar na discrição do Rio da Fuga.

Enquanto planejavam sua rota, um som de cascos de cavalo ecoou pela mata. Não era o som furtivo dos perseguidores que haviam enfrentado, mas um som mais organizado, mais oficial. Uma tropa se aproximava. Mas não era uma tropa qualquer. As vestes escuras, os brasões dourados e a presença imponente de homens com cruzes ornamentadas em seus mantos denunciavam sua identidade: a Santa Inquisição.

"Inquisição?", sussurrou Mateus, perplexo. "O que eles fariam aqui, tão longe das cidades?"

Helena sentiu um arrepio de medo gelar sua espinha. A Inquisição era temida por todos, um instrumento de medo e controle que punia com mão de ferro qualquer desvio da fé estabelecida. Acreditava-se que Bartolomeu, com suas ideias progressistas e sua busca por conhecimento fora dos dogmas da Igreja, pudesse ter atraído a atenção deles.

Um homem, com um semblante severo e olhos penetrantes, adiantou-se à tropa. Seu hábito negro, adornado com a cruz da Inquisição, denotava sua alta posição. Era o Padre Doutor Ambrosio, conhecido por sua ferocidade na caça a hereges e feiticeiros.

"Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Madre Igreja, eu, Padre Doutor Ambrosio, vos ordeno que parem!", bradou o padre, sua voz ecoando com autoridade divina. "Fomos informados de atividades suspeitas nesta região. E de um tal Bartolomeu, um homem que propagava ideias heréticas e mantinha contatos com… pagãos."

As palavras "pagãos" e "heréticas" atingiram Helena como golpes. Ela sabia que Bartolomeu, com sua busca por sabedoria em fontes diversas, havia sido rotulado assim. E agora, a Inquisição estava em seu rastro.

"Nós não fizemos nada de errado, padre", disse Helena, tentando manter a calma. "Somos apenas viajantes que buscam refúgio."

O Padre Doutor Ambrosio a encarou com desconfiança, seus olhos fixos no pingente que ela trazia no pescoço. "Esse objeto em seu pescoço… que marcas são essas? São símbolos pagãos?"

Helena sentiu seu sangue gelar. Ela tentou cobrir o pingente com a mão, mas era tarde demais.

"Não é nada, padre", disse ela, sua voz embargada. "É uma lembrança de meu falecido marido."

"Seu marido, Bartolomeu?", perguntou o padre, um sorriso sombrio brincando em seus lábios. "Achávamos que ele havia desaparecido. Parece que a Providência Divina nos trouxe até vocês. Ele se envolveu com o Xamã, não é mesmo? Aquele que pratica rituais profanos."

Helena não respondeu. A menção de Açu, e a forma como a Inquisição o via, a fez perceber a gravidade da situação. A busca por conhecimento de Bartolomeu, que ela julgava ser um legado de sabedoria, poderia ser interpretada como heresia pela Igreja.

"O conhecimento que Bartolomeu buscava não é herético, padre", disse Helena, defendendo o marido que amara. "Ele buscava entender o mundo, a natureza… o plano de Deus."

"O plano de Deus está revelado nas Sagradas Escrituras e nos ensinamentos da Igreja!", retrucou o padre, sua voz elevando-se em indignação. "Qualquer outra busca é uma ofensa ao divino. Dizem que Bartolomeu encontrou um tesouro. Um tesouro que pertence à Igreja. Onde ele está?"

Helena sabia que não podia revelar a verdade. O tesouro de Bartolomeu era a sabedoria das estrelas, um conhecimento que a Inquisição certamente distorceria ou destruiria.

"Não há tesouro, padre", mentiu Helena, sentindo o peso da mentira em sua alma. "Bartolomeu era apenas um homem simples que buscava um lugar para viver em paz."

O Padre Doutor Ambrosio a encarou por um longo momento, seus olhos avaliando cada detalhe de seu rosto. Ele parecia sentir a hesitação dela, a verdade oculta em sua voz.

"Vocês serão levados à Inquisição para interrogatório", declarou o padre, sua decisão final. "Para que a verdade seja revelada. E a justiça divina seja feita."

Helena sentiu um desespero avassalador. Ser levada à Inquisição significava tortura, confissão forçada e, provavelmente, a morte. Ela olhou para Mateus e os outros, viu o medo em seus olhos.

No fundo de sua mente, as imagens das estrelas, do mapa celeste, da pedra brilhante… tudo se misturou com o semblante severo do Padre Doutor Ambrosio. A busca por conhecimento de Bartolomeu a colocara em um conflito direto com a instituição que ele tanto criticava.

De repente, um som familiar ecoou novamente pela mata. Era o rugido da onça-pintada. Desta vez, não era um ataque, mas um sinal. A onça surgiu das sombras, seus olhos verdes fixos em Helena. Ao seu lado, emergindo de uma trilha escondida, estava Açu.

"Helena!", gritou Açu, correndo em sua direção. "Você precisa ir! Agora!"

O Padre Doutor Ambrosio observou a cena com horror e fúria. "O Xamã! O feiticeiro! Prendam-no!"

Açu entregou a Helena um pequeno embrulho de couro. "Leve isto. É o que Bartolomeu confiou a mim. A chave para decifrar o mapa das estrelas. Vá! E não olhe para trás!"

Helena pegou o embrulho, sentindo a energia que emanava dele. Ela sabia que era sua única chance. Olhou para Açu, para a bravura em seus olhos, e sentiu uma profunda gratidão. Ele estava arriscando sua vida para salvá-la.

"Obrigada, Açu", disse Helena, sua voz embargada. "Nunca esquecerei."

Açu sorriu, um sorriso triste e determinado. "Vá! A mata a protegerá."

Enquanto os homens da Inquisição se voltavam para prender Açu e a onça, Helena e seus companheiros correram para a mata, seguindo o chamado silencioso da natureza. O som da batalha se intensificou atrás deles, mas Helena se concentrou no caminho à frente, no conhecimento que precisava desvendar, e na memória de Bartolomeu, cujo juramento a impulsionava a lutar por um futuro livre da escuridão da ignorância e da opressão. A escolha era clara: abraçar o desconhecido e a liberdade, ou sucumbir ao dogma e à condenação. Ela escolheu a primeira, a caminho das montanhas, para onde o conhecimento e a esperança a guiavam.

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