O Juramento do Bandeirante
O Juramento do Bandeirante
por Caio Borges
O Juramento do Bandeirante
Autor: Caio Borges
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Capítulo 11 — O Despertar na Mata Fechada
O ar úmido da mata beijava o rosto de Mariana, um toque frio que a fez estremecer e abrir os olhos lentamente. A última coisa que lembrava era o som estrondoso do trovão, a luz ofuscante do relâmpago que iluminou o rosto apavorado de Sebastião, e depois, a escuridão. Estava deitada sobre uma cama improvisada de folhas macias, o cheiro terroso e adocicado da floresta invadindo suas narinas. Um nó apertado em sua garganta a fez engolir em seco. Onde estava? E Sebastião?
Tentou se erguer, mas uma dor latejante no ombro a fez gemer. Olhou para o braço enfaixado com cuidado, os panos tingidos de vermelho em alguns pontos. A lembrança veio como um arrepio: a emboscada. Os vultos sombrios, as flechas silvando, o grito de Sebastião… A preocupação a dominou, uma onda avassaladora que a fez quase perder os sentidos novamente.
“Mariana?”
A voz rouca e familiar a fez virar a cabeça com dificuldade. Ali, sentado a poucos passos de distância, estava ele. Sebastião. Seus olhos, antes cheios de desespero, agora mostravam um cansaço profundo, mas também um alívio imenso. A barba por fazer emoldurava um rosto marcado pela tensão, mas a visão dele, vivo e respirando, era um bálsamo para a alma de Mariana.
“Sebastião!” A voz dela saiu embargada, um misto de alívio e medo. Ela estendeu a mão livre, trêmula.
Ele se aproximou com cuidado, ajoelhando-se ao lado dela. Suas mãos grandes e calejadas hesitaram por um instante, como se temesse machucá-la, antes de gentilmente segurarem as dela. Seus olhos se encontraram, e naquele olhar, a compreensão, o perdão e um amor que transcendia a própria vida floresceram.
“Eu pensei que te perderia, Mariana”, ele sussurrou, a voz embargada. “Quando você caiu… o mundo parou.”
As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Mariana, não mais de dor ou medo, mas de gratidão. “E eu pensei que você tivesse ido para sempre. Aquele relâmpago… eu vi…”
“Eu te puxei. Puxei você para dentro da caverna. Estávamos tão perto daquela cachoeira quando os homens de Fernão apareceram. A tempestade… foi um milagre. Nos escondeu.” Ele olhou em volta, para a densa vegetação que os cercava. “Acordei antes de você. Achei um riacho ali perto, limpei suas feridas. Tive que fazer um curativo no seu ombro.”
Mariana sentiu um rubor subir pelo pescoço ao pensar em Sebastião tocando seu corpo, cuidando dela em um momento de tanta vulnerabilidade. Mas o calor que irradiava dele, a preocupação genuína em seus olhos, dissiparam qualquer constrangimento. Ela apertou a mão dele com mais força.
“O que aconteceu depois? Com os homens de Fernão?”
Sebastião suspirou, o peso do que havia acontecido se refletindo em seu semblante. “Eles nos procuraram na entrada da caverna. Mas a fúria da natureza os impediu de entrar. A chuva, os raios… eles não ousaram. Quando a tempestade amainou, eles se dispersaram. Acreditam que caímos no rio e fomos levados pela correnteza. Foi o que fiz parecer. Deixei algumas de minhas coisas perto da margem, para confirmar a história.”
“Você nos salvou, Sebastião. Mais uma vez.” Mariana olhou para ele com admiração. A coragem dele, a frieza sob pressão, a astúcia… Ele era um homem de muitas facetas, complexo e cativante.
“Não fui eu. Foi o destino, Mariana. Ou os espíritos ancestrais que habitam esta terra. Eles nos guiaram para a caverna.” Ele indicou com o queixo uma abertura estreita e escura entre as rochas, parcialmente escondida por cipós pendentes. “Encontramos um pequeno abrigo lá dentro, protegido da tempestade. E encontramos… mais coisas.”
Mariana ergueu uma sobrancelha. “O que você quer dizer com ‘mais coisas’?”
Sebastião hesitou por um momento, como se ponderasse as palavras. “Símbolos. Pinturas nas paredes da caverna. E no fundo, havia um pequeno espaço, quase uma fenda. Lá dentro, encontrei algo que… que mudou tudo.”
Ele se levantou com cuidado, ainda segurando a mão dela, e a ajudou a se sentar em uma pedra lisa e fria. Depois, ele foi até uma pequena trouxa de couro que estava ao lado de seu cavalo, um animal que ela não havia notado até então, escondido entre as árvores. Ele abriu a trouxa e tirou um objeto envolto em um pedaço de pano. Ao desembrulhar, Mariana prendeu a respiração.
Era um mapa. Mas não um mapa comum. Feito de um couro curtido e escuro, com linhas que pareciam riscadas a carvão e pigmentos naturais, ele exibia traços de rios, montanhas e símbolos que ela não reconhecia. No centro, um intrincado desenho de um sol com raios se estendendo para todas as direções.
“O que é isso?”, ela perguntou, a voz um sussurro maravilhado.
“É um mapa, Mariana. Um mapa antigo. Encontrei escondido em uma pequena caixa de madeira, junto com um amuleto. As pinturas na caverna… elas contam uma história. Uma história de povos que viveram aqui muito antes de nós, antes mesmo dos portugueses. E esses símbolos no mapa… eles correspondem a alguns dos desenhos na parede. Acredito que este mapa leva a um lugar sagrado. Um lugar de poder.”
Mariana tocou o mapa com a ponta dos dedos, sentindo a textura áspera e antiga. Uma onda de mistério e excitação a percorreu. Essa terra, que ela pensava conhecer, de repente se revelava como um véu espesso de segredos e histórias esquecidas.
“E o amuleto?”, ela perguntou, seus olhos fixos no mapa.
Sebastião tirou do bolso um pequeno objeto de pedra polida, com um furo no topo, pendurado em um cordão de fibra vegetal. O amuleto era escuro, com um relevo sutil de um animal que ela não conseguia identificar. Parecia emanar uma energia própria.
“Este amuleto estava com o mapa. Talvez seja a chave para decifrá-lo. As pinturas na caverna mostram pessoas usando amuletos semelhantes. Elas pareciam reverenciar a terra, o sol, as estrelas.” Ele olhou para Mariana, seus olhos brilhando com uma intensidade renovada. “Mariana, o que vimos em Vila Rica, o que Fernão quer… tudo isso é corrupção. Busca por ouro e poder. Mas esta terra… ela tem mais. Tem história, tem sabedoria, tem um segredo que está esperando para ser descoberto.”
Mariana sentiu uma conexão profunda com as palavras dele. Ela também sentia que havia algo mais, algo que a atraía para o coração selvagem do Brasil. Aquela busca por ouro parecia cada vez mais vazia e destrutiva.
“E o que faremos com isso, Sebastião?”, ela perguntou, olhando para o mapa em suas mãos.
“Não podemos voltar. Fernão e seus homens nos caçarão. E com o que descobrimos… não podemos entregar isso a eles. Precisamos entender. Precisamos seguir este mapa.” Ele fez uma pausa, seu olhar firme e decidido. “Precisamos encontrar esse lugar sagrado.”
Um arrepio percorreu a espinha de Mariana. A ideia era audaciosa, perigosa. Mas, ao olhar para Sebastião, para a paixão em seus olhos, para a determinação em sua voz, ela soube que não havia outro caminho.
“E como faremos isso? O mapa está em uma língua que não conhecemos, os símbolos são estranhos…”
“Eu estava estudando as pinturas na caverna. Há um padrão. Uma repetição de símbolos que parecem indicar direções, marcos. E o amuleto… eu sinto que ele tem um propósito. Talvez ele reaja a algo, talvez ele nos guie de alguma forma. Precisamos aprender a lê-lo, Mariana. Precisamos nos conectar com essa terra e com o que ela nos revela.”
Sebastião estendeu o mapa para Mariana. Seus dedos se tocaram novamente, e uma corrente elétrica pareceu passar entre eles. Ali, no meio da mata fechada, rodeados pelo sussurro dos pássaros e pelo aroma da terra molhada, um novo juramento estava sendo forjado. Um juramento não de ouro, mas de descoberta, de respeito, de um destino que se entrelaçava com os segredos mais profundos do Brasil. A sombra de Fernão ainda pairava, mas agora, uma luz diferente, a luz de um mistério ancestral, guiava seus passos. A jornada apenas começava.