O Juramento do Bandeirante
Capítulo 12 — O Canto da Matinta e a Sede de Vingança
por Caio Borges
Capítulo 12 — O Canto da Matinta e a Sede de Vingança
Os dias que se seguiram foram um aprendizado árduo e fascinante. Sebastião, com sua intuição aguçada e uma memória prodigiosa, passava horas observando o mapa, comparando-o com as paisagens que os cercavam, tentando decifrar os enigmas impressos no couro antigo. Mariana, com seu conhecimento da natureza e sua sensibilidade aguçada, começou a notar padrões sutis na flora, nos sons dos animais, nas formações rochosas que pareciam ecoar os símbolos do mapa.
Eles se moviam com cautela, evitando trilhas conhecidas, preferindo a densidade impenetrável da mata que os protegia. A comida era escassa, consistindo em frutas silvestres, raízes que Mariana identificava como comestíveis e, ocasionalmente, um pequeno animal que Sebastião conseguia caçar com sua habilidade de atirador. A noite, acampavam em clareiras isoladas, o fogo baixo para não atrair atenção, os olhares fixos nas estrelas, buscando nos céus a mesma orientação que buscavam no mapa.
Uma noite, enquanto o luar prateava as folhas das árvores, um canto melancólico e etéreo ecoou pela floresta. Era um som agudo, quase um lamento, que parecia vir de todos os lados e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Mariana sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
“O que é isso?”, ela perguntou, apertando o braço de Sebastião.
Ele levantou a cabeça, os olhos fixos na escuridão. “É um canto de… ave? Ou algo mais? Nunca ouvi nada assim.”
O canto continuou, hipnotizante e perturbador. Parecia contar histórias de dor, de saudade, de algo perdido. Mariana fechou os olhos, tentando absorver a melodia, a energia que emanava dela. De repente, uma imagem surgiu em sua mente: uma mulher, com longos cabelos escuros, os olhos profundos e tristes, dançando sob a luz da lua.
“Eu vejo… uma mulher”, ela sussurrou. “Ela está triste. Ela está… chamando.”
Sebastião a olhou com espanto. “O que você quer dizer?”
“É como se o canto fosse a voz dela. Uma voz que ecoa através do tempo.” Mariana se concentrou mais, tentando desvendar a mensagem por trás daquele som. “Há algo sobre… injustiça. Sobre algo que foi tirado dela.”
O canto cessou tão abruptamente quanto começou, deixando um silêncio pesado no ar. Mariana abriu os olhos, o coração batendo forte.
“Acho que ouvi uma Matinta Perera”, disse Sebastião, com uma voz pensativa. “Dizem que elas cantam para atrair ou para alertar. Dizem que são espíritos de mulheres que foram maltratadas ou que buscaram vingança.”
“Vingança?”, Mariana repetiu, o eco da palavra ressoando em sua mente. Ela pensou na injustiça que havia presenciado em Vila Rica, na crueldade de Fernão.
Naquela noite, ambos dormiram pouco, perturbados pelo canto misterioso e pelas visões que ele evocara. No dia seguinte, enquanto caminhavam por uma trilha mais aberta, a floresta pareceu ganhar vida de uma maneira nova. As árvores pareciam mais imponentes, as sombras mais profundas, e o ar carregado de uma energia palpável.
De repente, Sebastião parou bruscamente, os olhos fixos à frente. Mariana seguiu seu olhar e viu, a alguns metros de distância, um grupo de homens emergindo da mata. Suas roupas eram de couro surrado, mas seus rostos eram familiares. Eram capangas de Fernão.
Um frio percorreu a espinha de Mariana. Eles os haviam encontrado.
“Merda!”, Sebastião praguejou baixinho, puxando Mariana para trás de uma densa moita de samambaias. “Não pode ser. Achei que tivéssemos despistado eles.”
Os homens pararam, olhando em volta, como se estivessem perdidos. Um deles, com uma cicatriz que lhe atravessava o supercílio, apontou para um ponto no chão.
“Aqui! Rastros frescos! Eles passaram por aqui não faz muito tempo.”
O coração de Mariana disparou. Ela olhou para Sebastião, o medo estampado em seu rosto. A promessa de um novo caminho, de descoberta, parecia prestes a ser brutalmente interrompida.
“Não podemos lutar contra todos eles, Sebastião”, ela sussurrou.
“Não vamos”, ele respondeu, a voz tensa. “Vamos nos esconder. Eles não nos viram. Precisamos nos mover na direção oposta, voltar para a mata mais fechada.”
Mas enquanto se preparavam para recuar, um grito ecoou, seguido pelo som de um galho se quebrando. Um dos capangas, mais à frente, os havia avistado.
“Ali! Eu os vi! São eles!”
Os homens se voltaram na direção deles, sacando suas espadas e mosquetes. Sebastião, com um movimento rápido, puxou Mariana de seu esconderijo.
“Corra, Mariana! Para a direita! Onde as árvores são mais densas!”
Ele empurrou um dos capangas que tentava detê-la, fazendo-o tropeçar. Então, voltou-se para enfrentar o grupo, empunhando sua própria espada, a lâmina reluzindo sob a luz fraca do sol filtrada pelas copas das árvores.
“Vão, Mariana! Eu os seguro!”
“Não!”, ela gritou, recusando-se a deixá-lo. A imagem da mulher triste do canto da Matinta Perera pairava em sua mente. A vingança. A injustiça. Ela não queria que Sebastião fosse mais uma vítima.
Enquanto Sebastião lutava bravamente contra os homens de Fernão, desviando de golpes e contra-atacando com precisão, Mariana percebeu algo. O amuleto que Sebastião carregava preso ao pescoço começou a emitir um leve calor. Ela olhou para ele, e então para os símbolos no mapa, que ela levava escondido em sua bolsa.
Um dos capangas, mais perspicaz que os outros, conseguiu se aproximar de Sebastião e desferir um golpe forte que o fez cambalear. A espada caiu de sua mão.
Nesse instante, um rugido ensurdecedor ecoou pela mata. Um animal enorme, com pelos escuros e olhos selvagens, surgiu de repente entre as árvores, lançando-se contra os homens de Fernão. Era um jaguar, uma pantera negra, um predador majestoso e aterrorizador.
Os capangas gritaram de pavor, alguns tentando sacar suas armas, outros fugindo em pânico. O jaguar, com agilidade sobrenatural, atacou um deles, e em seguida, outro, com garras e dentes afiados. A cena era brutal e rápida.
Sebastião, recuperado do golpe, observou a cena com um misto de admiração e cautela. Ele sabia que aquele animal não era um ataque aleatório. Havia algo mais.
Mariana, paralisada por um instante, sentiu o calor do amuleto aumentar. Ela olhou para a direção para onde o jaguar havia desaparecido após o ataque, e viu um aglomerado de pedras antigas, cobertas de musgo, que ela não havia notado antes. Os símbolos gravados nas pedras pareciam… familiares.
Enquanto os capangas restantes fugiam em desespero, gritando sobre a fera demoníaca, Sebastião correu até Mariana.
“Você está bem?”
Ela assentiu, ainda sem fôlego. “Sim. Mas… o que foi aquilo?”
“Não sei. Uma coincidência? Ou… o amuleto?” Ele tocou o amuleto em seu pescoço. “Sinto que algo nos protegeu.”
Mariana apontou para as pedras. “Sebastião, olhe ali. Aqueles símbolos… eu os vi no mapa. E no amuleto. E o canto da Matinta Perera… acho que tudo isso está conectado.”
Sebastião seguiu seu olhar. A fúria da natureza parecia ter aberto um caminho para eles. Aquele ataque de jaguar, tão oportuno, havia dispersado os perseguidores e revelado um local que antes estava oculto.
“Os espíritos desta terra… eles não querem que sejamos encontrados por Fernão”, ele disse, com uma reverência que Mariana nunca tinha visto nele. “Eles nos guiam. Eles nos protegem.”
Ele pegou o mapa da bolsa de Mariana e o comparou com os símbolos nas pedras. Um sorriso lento se espalhou por seu rosto.
“É aqui, Mariana. Este é um dos marcos do mapa. A caverna com as pinturas antigas… o lugar onde encontramos o mapa… e este local com as pedras… são pontos de referência. Estamos no caminho certo.”
Mariana sentiu uma onda de esperança e um senso renovado de propósito. A ameaça de Fernão ainda existia, e a sede de vingança que o canto da Matinta Perera havia evocado pairava no ar. Mas agora, eles tinham uma prova clara de que não estavam sozinhos. A própria terra parecia conspirar a seu favor, abrindo caminhos, afastando perigos, guiando-os em sua jornada secreta. Aquele encontro com a sombra de Fernão não os detivera, mas os impulsionara ainda mais fundo no mistério que buscavam desvendar.