O Juramento do Bandeirante
Capítulo 20 — A Armadilha do Inquisidor e o Fio da Trama
por Caio Borges
Capítulo 20 — A Armadilha do Inquisidor e o Fio da Trama
O silêncio na Caverna dos Ancestrais era quebrado apenas pelo gotejar constante de água e pelo respirar dos homens. Bartolomeu segurava o Pássaro da Alma, sentindo sua energia reconfortante. A descoberta do artefato havia trazido um senso de propósito renovado, mas a ameaça externa, a presença da Inquisição, pairava como uma nuvem negra.
"Elias, Mateus", disse Bartolomeu, sua voz ressoando na caverna. "Precisamos de reconhecimento. Quero saber exatamente onde estão esses homens da Inquisição e quais são suas intenções. Iara, vós podes nos guiar por caminhos que eles não conhecem?"
Iara assentiu. "Nossa tribo conhece cada recanto desta mata. Podemos nos mover sem sermos vistos. Mas a astúcia dos homens da Inquisição não deve ser subestimada. Eles usam a fé como arma, e o medo é seu maior aliado."
Enquanto Elias e Mateus se preparavam para sair em missão de reconhecimento, Bartolomeu se voltou para Iara, o Pássaro da Alma ainda em suas mãos. "Sei que a Inquisição é poderosa. Eles têm influência sobre a coroa e sobre a igreja. Como podemos combatê-los sem nos tornarmos alvos fáceis?"
"A fé cega é uma armadilha", respondeu Iara. "Eles se alimentam da ignorância e do fanatismo. Mas a verdade, bandeirante, a verdade é uma luz que pode dissipar qualquer escuridão. O Coronel Amaro usa a Inquisição para encobrir seus crimes. Se conseguirmos expor a verdade sobre ele, o poder deles será abalado."
"Mas como?", perguntou Bartolomeu. "Nossas palavras não terão peso contra as deles. Precisamos de provas concretas. E, aparentemente, o Coronel Amaro se certificou de que não houvesse muitas sobrando."
Iara sorriu, um sorriso que continha uma sabedoria ancestral. "As memórias da terra são poderosas, bandeirante. E a Pedra do Sol guarda muitas delas. Se o Coronel Amaro tentou apagar o passado, a pedra se encarregará de lembrá-lo."
De repente, um grito ecoou do lado de fora da caverna. Um grito de dor e desespero. Bartolomeu e Iara saíram apressadamente, seguidos pelos outros bandeirantes.
Elias estava caído no chão, o corpo tremendo. Mateus estava ao seu lado, o rosto pálido.
"Eles nos pegaram!", ofegou Elias, com dificuldade. "Eram muitos... e usavam uniformes escuros... com um símbolo de cruz vermelha."
Bartolomeu sentiu o sangue gelar. A Inquisição. Eles os haviam encontrado.
"Eles estão vindo para cá?", perguntou Bartolomeu, com urgência.
"Sim", respondeu Mateus, os olhos fixos na trilha que levava à caverna. "Eles viram onde fomos. Vão cercar a entrada."
O pânico começou a se espalhar entre os bandeirantes. Estavam presos em uma caverna, cercados por um inimigo implacável e fanático.
"Calma!", gritou Bartolomeu, com sua voz de comando. "Não podemos entrar em pânico. Iara, há outra saída?"
Iara olhou para o teto da caverna, onde a luz fraca criava sombras dançantes. "Há uma passagem secreta, que leva a um desfiladeiro isolado. Mas é um caminho perigoso, e não sabemos se eles a conhecem."
"É a nossa única chance", disse Bartolomeu. "Vamos! Rápido!"
Enquanto os bandeirantes se apressavam para a passagem secreta, o som de passos pesados e vozes gritando em latim ecoou do lado de fora. As tochas iluminavam a entrada da caverna, revelando os rostos severos e fanáticos dos inquisidores, liderados por um homem com uma batina negra e um olhar gélido. Era o Padre Inácio, o mesmo que Bartolomeu havia encontrado anteriormente.
"Em nome da Santa Inquisição!", bradou o Padre Inácio, sua voz ecoando com autoridade. "Rendam-se, hereges e pecadores! O julgamento de Deus chegou!"
Bartolomeu sentiu uma fúria impotente crescer dentro de si. O Padre Inácio, o agente da Inquisição, o homem que ele suspeitava estar envolvido com o Coronel Amaro, estava ali, pronto para aprisioná-los.
Enquanto se apressavam pela passagem secreta, Bartolomeu sentiu o Pássaro da Alma vibrar em sua mão. Uma luz suave emanou do artefato, iluminando o caminho escuro. Ele se perguntou se a sabedoria dos ancestrais poderia guiá-lo além daquela armadilha.
Ao emergirem no desfiladeiro, a visão era desoladora. O Coronel Amaro estava ali, acompanhado por um grupo de homens armados. Ele sorria, um sorriso cruel e vitorioso.
"Ora, ora, Bartolomeu", disse o Coronel Amaro, sua voz cheia de escárnio. "Pensastes que poderíeis me enganar? Que poderíeis encontrar refúgio aqui? A Inquisição e eu sempre encontramos nossos alvos."
Bartolomeu apertou o Pássaro da Alma. A esperança de um confronto direto se desvanecia, substituída pela dura realidade de estarem cercados.
"A pedra me mostrou a verdade, Amaro", disse Bartolomeu, sua voz firme apesar da situação. "Mostrou quem tu és. Um assassino, um ladrão, um homem sem honra."
O Coronel Amaro riu. "Tuas palavras não significam nada, bandido. O mundo pertence aos que têm o poder. E eu tenho o poder."
"Ele não está sozinho, Capitão", disse Mateus, apontando para um grupo de homens que se aproximava. Eram os indígenas que haviam permanecido no vale.
Iara deu um passo à frente. "Vós, que tentais manchar esta terra sagrada com vossa ganância e vosso fanatismo, não passarei por vós sem luta."
Uma batalha parecia inevitável. Mas, de repente, um som estranho ecoou pelo desfiladeiro. Um som alto e estridente, vindo das profundezas da mata. Era o uivo de lobos, mas um uivo que parecia diferente, mais selvagem, mais primitivo.
O Coronel Amaro e seus homens se viraram, confusos. O Padre Inácio franziu a testa, os olhos cheios de desconfiança.
"O que é isso?", perguntou Amaro.
Iara sorriu. "A terra tem seus próprios defensores, Coronel. E os espíritos ancestrais não toleram a profanação."
No meio da confusão, Bartolomeu sentiu o Pássaro da Alma vibrar intensamente em sua mão. Ele olhou para o Coronel Amaro, para o Padre Inácio, para a crueldade em seus rostos. Ele sabia que a vingança cega não o levaria a lugar algum. Mas a justiça… a justiça exigia que a verdade viesse à tona.
Ele se lembrou das visões da Pedra do Sol, da imagem do medalhão, do símbolo no chapéu de Amaro. A prova estava ali, em sua mente. E ele sabia que, mesmo que não pudesse derrotá-los naquele momento, ele não desistiria. Ele encontraria uma maneira de expor Amaro, de desmascarar a Inquisição. O fio da trama havia sido desvendado, e Bartolomeu estava determinado a puxá-lo até o fim. A luta pela justiça estava longe de terminar.