Amor sob o Céu da Bahia
Amor sob o Céu da Bahia
por Caio Borges
Amor sob o Céu da Bahia
Autor: Caio Borges
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Capítulo 1 — O Vento Salgado Traz Um Segredo
O sol da Bahia, implacável e dourado, beijava a pele de Mariana como um amante ardente, mas hoje a quentura parecia insufleitar uma inquietação que a acompanhava desde o amanhecer. Sentada à varanda de sua casa de fazenda, cercada pelo aroma doce e penetrante do cacau que se espalhava pelos campos vastos, ela observava o horizonte. A linha azul-turquesa do mar se confundia com o céu em um abraço infinito, pontuado apenas pelo branco das velas de um navio solitário, que se aproximava lentamente da costa.
Mariana, com seus dezessete anos, possuía uma beleza que capturava a atenção de todos. Cabelos negros como a noite, longos e revoltos pelo vento constante, emolduravam um rosto de traços delicados, onde olhos castanhos, profundos como poços de mistério, expressavam uma inteligência e uma sensibilidade incomuns para sua idade. Suas mãos, finas e ágeis, estavam acostumadas ao trabalho na roça, mas agora repousavam inertes sobre o tecido cru de seu vestido simples, um misto de curiosidade e apreensão a tomando.
A fazenda de seu pai, a "Terra Prometida", era um dos mais prósperos engenhos de açúcar da região. Seu pai, o Coronel Francisco, um homem de poucas palavras e de pulso firme, era respeitado e temido por igual. Sua mãe, Dona Clara, uma mulher de fé inabalável e de um coração generoso, era a alma da casa, sempre dedicada aos filhos e aos cuidados com os escravos que habitavam as senzalas. E havia Miguel, seu irmão mais velho, herdeiro da fazenda, um jovem forte e trabalhador, mas com um temperamento impetuoso que, por vezes, assustava Mariana.
O navio que aportava trazia consigo não apenas mercadorias e notícias da metrópole, mas também um visitante inesperado que mudaria o curso da vida de Mariana. Era um acordo selado entre o Coronel Francisco e um velho amigo de Portugal, um acordo que visava fortalecer os laços comerciais e, quem sabe, encontrar um bom partido para sua única filha.
“Mariana, minha filha!” A voz de Dona Clara ecoou da porta da sala, quebrando o devaneio da jovem. “A água já esfriou. Venha logo para que possamos nos arrumar antes da chegada do navio.”
Mariana suspirou, levantando-se com relutância. A chegada do convidado significava a ruptura de sua rotina tranquila, a invasão de um mundo que lhe era alheio. Ela preferia a companhia do vento, do mar, das árvores carregadas de frutos, a presença de desconhecidos.
Ao entrar na casa, o cheiro de café fresco e pão quente a envolveu. Dona Clara estava na cozinha, supervisionando as últimas preparações para receber o hóspede. Era um homem chamado Dom Rodrigo de Albuquerque, um fidalgo de posses e de renome em Portugal, amigo de longa data do Coronel. E, segundo os boatos que já haviam chegado, ele vinha acompanhado de seu filho, um jovem a quem Mariana nunca vira, mas de quem já se falava com grande expectativa.
“O navio já está atracando no porto de Salvador, Mariana”, disse Dona Clara, enquanto servia café em uma xícara de porcelana fina. “O seu pai foi recebê-lo pessoalmente. Devemos estar prontas para quando retornarem.”
Mariana sentou-se à mesa, o corpo tenso. Ela sabia o que significava essa visita. Seu pai, sempre preocupado com o futuro da família e da fazenda, havia decidido que era hora de encontrar um marido para ela. E Dom Rodrigo, com seu filho, representava a oportunidade perfeita. A ideia de um casamento arranjado, de um homem que ela não conhecia, com quem não tinha afinidade, a perturbava profundamente.
“Mãe, eu… eu não sei se estou pronta para isso”, murmurou Mariana, olhando para o líquido escuro em sua xícara.
Dona Clara pousou a mão sobre a de Mariana, seus olhos transmitindo um misto de compaixão e determinação. “Minha filha, a vida é feita de escolhas e de deveres. Seu pai fez o que achou melhor para nós. Dom Rodrigo é um homem de honra, e seu filho… dizem que é um bom rapaz.”
“Mas e se eu não gostar dele? E se ele não gostar de mim?” A voz de Mariana estava embargada. Ela temia a perda de sua liberdade, a submissão a um destino que não escolhera.
“Amor, Mariana, nem sempre nasce do primeiro olhar. Às vezes, ele cresce com o tempo, com o convívio, com o respeito mútuo. E a felicidade, minha filha, é um caminho que construímos com paciência e fé.” Dona Clara sorriu, um sorriso que tentava acalmar a inquietação da filha.
A tarde avançou, e a ansiedade de Mariana cresceu a cada instante. Ela observava a entrada da fazenda, o caminho de terra batida que levava até a estrada principal. Finalmente, o som de cascos de cavalo anunciou a chegada. Um coche de luxo, puxado por dois cavalos imponentes, surgiu na paisagem, seguido por alguns homens a cavalo, incluindo seu pai.
O Coronel Francisco desceu do cavalo com a postura altiva de sempre. Ao seu lado, um jovem elegante, com trajes que denunciavam sua origem da corte. Ele era alto, de porte esguio, com cabelos escuros e um olhar penetrante, que parecia observar tudo com uma curiosidade estudada. Mariana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era um arrepio de medo, mas de algo mais, algo que ela não soube nomear.
Dom Rodrigo de Albuquerque, um homem de meia-idade, com barba grisalha e um semblante autoritário, desceu do coche em seguida. Ele cumprimentou o Coronel com um abraço caloroso, e então seus olhos se voltaram para a casa, onde Dona Clara e Mariana esperavam na varanda.
“Francisco, meu amigo!”, exclamou Dom Rodrigo, com a voz grave e forte. “É um prazer imenso estar em sua terra, tão cheia de vida e de promessas. E apresento-lhe meu filho, o jovem Artur.”
Artur se aproximou, fez uma reverência polida e seus olhos encontraram os de Mariana. Por um breve instante, o mundo pareceu parar. Um silêncio carregado pairou entre eles, um reconhecimento mudo de algo que transcendia a mera apresentação.
“Senhorita Mariana”, disse Artur, com uma voz calma e melódica, que contrastava com a imponência de seu pai. “É uma honra conhecê-la.”
Mariana sentiu o rosto corar. Ela desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade do dele. “A honra é minha, Senhor Artur.” Sua voz saiu mais baixa do que pretendia.
O Coronel Francisco sorriu, satisfeito com a primeira impressão. “Artur, meu filho, seja bem-vindo à Terra Prometida. Espero que se sinta em casa.”
Os dias seguintes foram uma sucessão de jantares elegantes, conversas protocolares e passeios pelas terras férteis da fazenda. Mariana observava Artur com uma mistura de fascínio e receio. Ele era diferente de tudo que ela conhecia. Mostrava-se educado, culto, com um conhecimento surpreendente sobre os negócios e a política de Portugal. Mas, por trás da polidez, Mariana sentia uma profundidade, uma melancolia que a intrigava.
Artur, por sua vez, parecia igualmente cativado pela jovem baiana. Ele a observava com uma atenção que ia além do interesse de um pretendente. Admirava sua inteligência, sua vivacidade, a forma como ela se movia com a natureza ao seu redor, como se fosse parte dela. Ele via nela uma pureza e uma força que haviam desaparecido de seu próprio mundo, um mundo de intrigas e de aparências.
Em uma tarde ensolarada, enquanto passeavam pelos cafezais, Artur parou de repente e olhou para o mar. “É incrível, não é?”, disse ele, com um suspiro. “Essa imensidão… parece que pode engolir todas as preocupações.”
Mariana assentiu, sentindo-se compreendida. “É o meu refúgio. Aqui, eu me sinto livre.”
Artur a olhou, um sorriso discreto brincando em seus lábios. “Livre… Uma palavra que perdi o significado há muito tempo.” Ele fez uma pausa, como se ponderasse suas palavras. “Em Portugal, a vida é uma constante batalha por posição, por influência. Tudo é medido por conveniência, por interesse. Aqui… aqui parece haver uma verdade mais pura, mais simples.”
Mariana sentiu seu coração acelerar. Era a primeira vez que alguém parecia enxergar além de sua aparência de moça do campo. Ele a via como ela se sentia por dentro.
“Mas a simplicidade também pode ser perigosa, Senhor Artur”, disse Mariana, lembrando-se das dificuldades da vida na roça, das ameaças dos escravos fugidos, das doenças que assolavam a região.
“Talvez”, respondeu Artur, o olhar fixo no horizonte. “Mas é uma periculosidade que vem da vida, e não da falsidade das pessoas. Prefiro mil vezes a luta contra a natureza do que a luta contra as ambições alheias.”
Naquela noite, enquanto a lua cheia banhava a fazenda com sua luz prateada, Mariana não conseguia dormir. O rosto de Artur, o som de sua voz, a forma como ele a olhava… tudo isso a perturbava de uma maneira que ela não compreendia. Ela se levantou e foi até a janela. A brisa suave entrava pela grade, trazendo o perfume das flores e o som distante das ondas do mar.
Ela sabia que sua vida estava prestes a mudar. O convite de Portugal, a chegada de Artur, tudo indicava um futuro diferente. Mas, pela primeira vez, a perspectiva não era de desespero, mas de uma curiosidade mista de receio e de uma inesperada esperança. O vento salgado que soprava do mar parecia sussurrar segredos, e um deles, ela sentia, pertencia ao seu coração.