Amor sob o Céu da Bahia

Amor sob o Céu da Bahia

por Caio Borges

Amor sob o Céu da Bahia

Autor: Caio Borges

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Capítulo 16 — O Sussurro da Liberdade e o Olhar da Sombra

O sol, implacável como sempre, castigava a terra com seus raios dourados, mas o calor que emanava do povo reunido na praça central de Salvador era ainda mais intenso. Não era o calor do verão baiano, mas o fogo que ardia nas entranhas de homens e mulheres que, pela primeira vez, ousavam erguer a voz contra a opressão. As palavras de Frei Gaspar, ecoando com a força de um trovão, haviam acendido a faísca que agora se transformava em labareda. A promessa de liberdade, antes um sonho distante, tornara-se um grito coletivo, uma força avassaladora que ameaçava derrubar os alicerces da coroa portuguesa naquelas terras.

Isabela, disfarçada sob o véu de uma modesta escrava, observava a cena com o coração a pulsar descompassado. Cada olhar de desafio, cada punho cerrado, cada murmúrio de indignação era como um golpe em seu peito. Ao seu lado, o fiel Tiago, com seu semblante geralmente sereno, agora exibia uma inquietação palpável. Seus olhos corriam pela multidão, buscando rostos conhecidos, avaliando o clima, a força daquele despertar.

“É a hora, Isabela”, sussurrou Tiago, sua voz rouca de emoção. “Frei Gaspar plantou a semente, e a terra fértil da Bahia está fazendo o resto. O povo está pronto.”

Isabela assentiu, seus olhos marejados de uma mistura de esperança e medo. A coragem que ela vira em seu pai, em Frei Gaspar, agora se refletia naquele mar de rostos ansiosos. Ela se lembrava da noite anterior, do último encontro com seu pai, o Coronel Augusto, antes de ele ser levado. Ele a segurara pelos ombros, seus olhos transmitindo uma urgência que transcendia as palavras.

“Filha”, dissera ele, sua voz embargada, “a liberdade não se implora, conquista-se. Se me acontecer algo, não chore por mim. Lute. Lute pelo que é certo. A justiça será feita, mesmo que seja preciso o sangue de muitos para que a verdade venha à tona.”

Aquelas palavras ressoavam em sua mente agora, dando-lhe a força que precisava. Ela não podia fraquejar. O sacrifício de seu pai, a luta de Frei Gaspar, a esperança nos olhos de Tiago e de todos ali presentes, tudo a impelia a seguir em frente.

Do outro lado da praça, escondido nas sombras de uma viela estreita, o Capitão Rodrigo observava com um misto de desprezo e fascinação. Aquele movimento popular, iniciado por um frade subversivo e alimentado por um Coronel insubmisso, o irritava profundamente. A ordem, a estrutura que ele tanto prezava, estava sendo ameaçada. No entanto, havia algo na paixão daquelas pessoas que, mesmo que ele jamais admitisse, o intrigava.

“Patifes”, murmurou para si mesmo, a mão repousando no punho de sua espada. “Acham que podem desafiar a Coroa? Tolos. A força brutal será a única resposta que entenderão.”

Ele sentiu um aperto no peito. A notícia da prisão de Augusto o atingira como um soco. Havia um respeito relutante entre os dois homens, forjado em batalhas passadas e em um código de honra peculiar que o mundo colonial impunha. Augusto era um homem de convicções, algo que Rodrigo, em sua frieza calculista, admirava, mesmo que discordasse veementemente de suas ideias. E agora, Isabela… ele a vira crescer, a menina vibrante e cheia de vida que se tornara uma mulher determinada, com a mesma chama nos olhos que tanto o fascinara. Ele sabia que ela estava ali, em meio à multidão, e a ideia de vê-la em perigo o perturbava de uma maneira que ele não conseguia explicar.

Enquanto isso, Isabela e Tiago se movimentavam discretamente entre o burburinho. A intenção era clara: espalhar a notícia da fuga de Frei Gaspar e organizar um plano de resgate. A informação sobre o pacto sombrio entre o Governador e o Comerciante português, que levara à prisão de Augusto e à tentativa de silenciar Frei Gaspar, precisava chegar aos ouvidos de todos. E não apenas isso, mas a necessidade de um levante organizado, de um plano que fosse além do descontentamento passageiro.

“Precisamos de mais do que gritos, Tiago”, disse Isabela, sua voz firme, embora baixa. “Precisamos de um líder, de um plano. Frei Gaspar está em perigo, e se o silenciarem, a chama pode se apagar antes mesmo de virar incêndio.”

Tiago concordou com um aceno sombrio. “Eu sei. Tenho contatos. Homens que estão fartos da opressão, que arriscariam tudo pela liberdade. Mas eles precisam de um sinal, de uma direção.”

Eles se dirigiram para os becos mais escuros, onde a autoridade do Governador era menos presente, onde os sussurros de rebelião podiam ganhar força. O ar estava carregado de expectativa, mas também de um perigo iminente. Os olhos da sombra, os espiões do Governador, estavam por toda parte, ouvindo, observando, prontos para sufocar qualquer sinal de desordem.

Isabela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia que Rodrigo não era um homem de meias palavras. Se ele a encontrasse ali, em meio àquela agitação, sua proteção poderia se tornar uma armadilha. Ele era um homem de lealdade inquestionável à Coroa, e o que estava acontecendo ali era uma afronta direta a essa lealdade.

“Rodrigo”, sussurrou ela, mais para si mesma do que para Tiago. “O que ele faria se me encontrasse aqui?”

Tiago lançou um olhar de preocupação para ela. “Ele é um homem difícil de prever, Isabela. Mas espero que o respeito que ele tem por seu pai o faça pensar duas vezes.”

Enquanto se afastavam, Isabela lançou um último olhar para a multidão. O sol ainda brilhava, mas uma sombra parecia pairar sobre a cidade, a sombra do medo, da opressão, mas também a sombra da esperança, da coragem, da iminente mudança. A batalha pela alma da Bahia havia começado, e Isabela sabia que, de uma forma ou de outra, ela estaria no centro dela. O sussurro da liberdade estava se tornando mais alto, mas os ecos da sombra também se faziam sentir, prenunciando os perigos que ainda estavam por vir.

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