Amor sob o Céu da Bahia
Capítulo 20 — O Veredito da Coragem e a Sombra da Traição
por Caio Borges
Capítulo 20 — O Veredito da Coragem e a Sombra da Traição
A notícia da fuga de Frei Gaspar se espalhou como pólvora pela cidade, alimentando ainda mais o descontentamento popular e o temor nas altas esferas do poder. Dom Álvaro de Gusmão, furioso com a ousadia do frade e com a aparente incompetência de seus guardas, convocou uma reunião de emergência com seus conselheiros mais leais. A ordem era clara: encontrar Frei Gaspar e, se necessário, eliminá-lo, sem deixar vestígios.
No Palácio do Governo, a tensão era palpável. Dom Álvaro, com o rosto contraído de raiva, proferia ameaças. “Esse fradezinho insolente pensa que pode desafiar a autoridade da Coroa? Ele aprenderá, da maneira mais difícil, o que significa se opor a mim!”
“Excelentíssimo, os relatórios indicam que ele pode ter buscado refúgio no Engenho da Senhora Francisca”, disse um de seus conselheiros, um homem de feições sombrias e lealdade inquestionável ao Governador. “Uma mulher influente, mas isolada da cidade. Seria um local ideal para se esconder.”
Dom Álvaro sorriu, um sorriso cruel que não alcançava seus olhos. “Excelente. Capitão Rodrigo, é com você que conto para resolver essa questão. Quero que vá até o engenho e traga Frei Gaspar de volta, vivo ou morto. E se ele estiver sendo ajudado por alguém, use todos os meios necessários para dissuadi-los.”
Rodrigo, presente na reunião, sentiu um aperto no estômago. A ordem era direta, mas ele sabia o que significava. A aliança de honra que ele fizera com Isabela estava prestes a ser testada ao limite. Ele não podia denunciar a fuga, nem podia agir contra Frei Gaspar sem provas.
“Farei o meu melhor, Excelentíssimo”, respondeu Rodrigo, sua voz calma, mas com uma nota de apreensão que ele esperava que o Governador não notasse.
Enquanto isso, no Engenho da Senhora Francisca, a atmosfera era de cautela e planejamento. Frei Gaspar, com a ajuda de Tiago e Senhora Francisca, trabalhava na organização das provas que haviam sido reunidas sobre a corrupção do Governador e do Comerciante Miranda. Eles sabiam que a fuga de Santo Amaro apenas adiara o confronto, e que a próxima ofensiva seria ainda mais perigosa.
“Precisamos que essas provas cheguem às mãos certas”, disse Frei Gaspar, olhando para um conjunto de documentos cuidadosamente organizados. “Não basta apenas expor a corrupção; precisamos de alguém com a autoridade para agir contra ela. Alguém que não esteja sob o controle de Dom Álvaro.”
Tiago, que havia retornado de Salvador com informações atualizadas, assentiu. “As coisas estão piorando na cidade. O Governador está cada vez mais paranoico. Ele suspeita de traição em todos os cantos. E ele está de olho na Senhorita Isabela.”
Senhora Francisca, com sua sabedoria serena, ofereceu uma solução. “Existe um homem em Portugal, um desembargador com fama de justo e incorruptível, que tem tido notícias da má conduta de Dom Álvaro. Se pudermos enviar essas provas para ele, talvez possamos obter uma investigação oficial.”
“É um risco muito grande”, alertou Frei Gaspar. “Enviar as provas para Portugal levaria tempo, e se a mensagem for interceptada, será o fim. Precisamos de uma ação mais imediata.”
Foi então que um mensageiro chegou, ofegante e apavorado. Era o mesmo Matias que havia entregue a mensagem a Isabela. “Frei Gaspar, meu senhor, o Capitão Rodrigo está a caminho. Ele foi ordenado pelo Governador a prendê-lo.”
O pânico pairou no ar por um instante. A aliança de honra estava prestes a se quebrar, ou talvez, a se revelar de uma maneira inesperada. Frei Gaspar olhou para Tiago e Senhora Francisca, seus olhos transmitindo uma determinação tranquila.
“Não podemos fugir de novo”, disse ele. “Temos as provas. E o Capitão Rodrigo, apesar de suas ordens, tem uma consciência. Precisamos conversar com ele. Precisamos confiar na honra que ele jurou defender.”
Quando o Capitão Rodrigo chegou ao engenho, foi recebido não com resistência, mas com uma calma surpreendente. Frei Gaspar o aguardava no pátio, rodeado por Tiago e Senhora Francisca.
“Capitão Rodrigo”, disse Frei Gaspar, sua voz firme. “Eu sei que o senhor tem ordens para me prender. Mas antes que o faça, peço que me escute. E que olhe para estas provas.”
Rodrigo, com a espada em punho, hesitou. Ele viu a verdade nos olhos do frade, e a coragem nas atitudes de Senhora Francisca e Tiago. Ele se lembrava de sua conversa com Isabela, de sua promessa.
“Mostre-me o que tem, Frei Gaspar”, disse Rodrigo, baixando levemente a espada. “E que seja a verdade.”
Frei Gaspar apresentou os documentos, explicando cada detalhe da corrupção, das extorsões, do pacto com o Comerciante Miranda. Rodrigo ouvia atentamente, seu semblante se tornando cada vez mais sombrio. As provas eram irrefutáveis, a desonra de Dom Álvaro era clara e gritante. Ele percebeu que o Governador não era um representante fiel da Coroa, mas um ladrão que usava seu cargo para se enriquecer.
“Dom Álvaro… ele traiu a todos nós”, murmurou Rodrigo, a raiva começando a borbulhar em seu peito.
“Ele traiu a Coroa, o povo, e a honra que o senhor tanto preza, Capitão”, disse Frei Gaspar. “Agora, o senhor tem uma escolha. Cumprir ordens cegas e se tornar cúmplice da corrupção, ou agir com a honra que o define e ajudar a restaurar a justiça nesta terra.”
Rodrigo olhou para os documentos em suas mãos, para o rosto sereno de Frei Gaspar, para a determinação em seus olhos. Ele pensou em Augusto, em sua filha, em todos aqueles que sofriam sob o jugo de Dom Álvaro. A decisão, embora difícil, tornou-se clara.
“Eu não posso prendê-lo, Frei Gaspar”, disse Rodrigo, sua voz embargada pela emoção. “E não posso entregar essas provas a Dom Álvaro. Eu as levarei para Salvador. E usarei o meu posto para expor a verdade. Mas preciso que o senhor e seus aliados se mantenham escondidos. O Governador não vai desistir tão facilmente.”
Frei Gaspar sorriu, um sorriso de gratidão e alívio. “Obrigado, Capitão Rodrigo. A honra falou mais alto.”
Rodrigo assentiu, e com um último olhar para os presentes, partiu em direção a Salvador. A sombra da traição pairava sobre o Governador, mas agora, uma nova luz de esperança brilhava, acesa pela coragem de um frade, pela lealdade de um soldado e pela determinação de um povo que não se curvaria mais à opressão. A batalha pela alma da Bahia estava chegando a um ponto crucial.