Amor sob o Céu da Bahia
Capítulo 5 — A Sombra da Traição e um Amor em Flor
por Caio Borges
Capítulo 5 — A Sombra da Traição e um Amor em Flor
O amanhecer na "Terra Prometida" trouxe consigo o eco do tumulto da noite anterior. Os capatazes, furiosos e humilhados, vasculhavam a mata em busca dos escravos fugitivos, mas o rastro se perdia na densidade da vegetação. O Coronel Francisco, ao descobrir a fuga em massa e a intervenção de sua filha e do hóspede português, sentiu uma fúria contida borbulhar em seu peito.
Ele convocou Mariana e Artur à sala de estar, a atmosfera carregada de uma tensão palpável. Dona Clara, com seu semblante preocupado, observava a cena em silêncio, rezando para que a discórdia não se instalasse de vez entre eles.
“Mariana, o que você pensa que estava fazendo?”, a voz do Coronel era grave e firme, mas tingida de decepção. “Colocando-se em perigo, ajudando aqueles que nos desobedeceram?”
Mariana manteve a cabeça erguida, seus olhos encontrando os do pai com uma determinação que o surpreendeu. “Pai, eles buscavam a liberdade. Algo que todos nós desejamos, de alguma forma. Eu não podia assistir a tanta crueldade sem fazer nada.”
O Coronel Francisco suspirou, esfregando as têmporas. “Liberdade? Eles são propriedade. E sua função é servir. A sua função é casar bem e dar continuidade à nossa família.” Ele lançou um olhar para Artur. “E você, Artur. O que o levou a intervir naquela confusão? Creio que você sabe que assuntos de escravos não são de sua alçada.”
Artur, embora sentindo o peso do olhar do Coronel, respondeu com a mesma calma que havia demonstrado na noite anterior. “Coronel, eu presenciei a fuga, sim. Mas também presenciei a violência desmedida dos seus homens. E, devo confessar, a busca pela liberdade é algo que me toca profundamente. Não pude ficar de braços cruzados enquanto a justiça era ultrajada.”
Dom Rodrigo, que havia sido informado dos acontecimentos por seu filho e pelo Coronel, entrou na sala naquele instante, seu rosto uma máscara de desaprovação. “Artur, seu pai lhe ensinou a ser um homem de negócios, não um defensor de escravos. Essa sua inclinação para a revolta pode prejudicar nossos acordos.”
“Pai, eu não posso ignorar a injustiça que vejo”, respondeu Artur, o tom de sua voz firme. “Esta terra me abriu os olhos para uma realidade que eu não podia conceber em Portugal.”
O Coronel Francisco, percebendo o conflito entre pai e filho, e a teimosia de Mariana, tentou apaziguar os ânimos. “Deixemos essa discussão para depois. O importante agora é que a situação está sob controle. Os fugitivos foram, em sua maioria, recapturados. E os que escaparam, certamente não chegarão longe.”
Mas a semente da discórdia havia sido plantada. Artur sentia-se cada vez mais distante dos valores de seu pai e do Coronel Francisco. Mariana, por sua vez, via em Artur um aliado em seus próprios anseios por um mundo mais justo, e a cada dia, seu coração se inclinava mais para ele.
Enquanto a tensão pairava na casa grande, a notícia da fuga e da intervenção de Mariana e Artur se espalhava pelas senzalas. Para os escravos, a ação de Mariana era vista como um ato de coragem e compaixão, um raio de esperança em meio à escuridão.
“A filha do Coronel nos ajudou”, comentou Maria, com um brilho nos olhos, enquanto se recuperava na mata com João e os poucos que conseguiram escapar. “Ela nos deu tempo. E Artur, o filho do português… ele lutou por nós.”
João assentiu, o olhar pensativo. “Ele nos ofereceu ajuda para chegar a Palmares. Uma oportunidade que não podemos desperdiçar. Mas a fuga foi um alerta para os senhores. Eles estarão mais vigilantes.”
A missão de Artur de ajudar os escravos a chegarem a Palmares se tornou o foco de seus dias. Ele se encontrava secretamente com João, trocando informações e planejando a melhor rota. Mariana, ao perceber a dedicação de Artur a essa causa, sentiu seu amor por ele se aprofundar. Ela via nele um homem de caráter, um homem que não se curvava às convenções de sua época.
Um dia, enquanto caminhavam pelos arredores da fazenda, longe dos ouvidos curiosos, Artur confessou a Mariana seus planos.
“Eu não posso mais compactuar com o que vejo aqui, Mariana”, disse ele, o olhar fixo no horizonte. “Eu irei ajudar João e seus companheiros a chegarem a Palmares. E depois… depois eu não sei. Talvez eu não volte para Portugal.”
Mariana sentiu o coração bater mais forte. A ideia de Artur partindo, de o perder para sempre, era insuportável. Mas, ao mesmo tempo, ela compreendia sua decisão.
“Eu… eu não quero que você vá”, murmurou Mariana, sua voz embargada. “Mas eu entendo. E se você for, eu… eu ficaria aqui, pensando em você.”
Artur parou e se virou para ela, seus olhos encontrando os dela com uma profundidade que a fez corar. “E se eu lhe pedisse para vir comigo, Mariana? Para fugirmos juntos? Para buscarmos um novo começo, longe daqui, longe de tudo isso?”
O coração de Mariana disparou. A proposta era ousada, perigosa, mas incrivelmente tentadora. Fugir com Artur, para um lugar onde a liberdade fosse real, onde o amor pudesse florescer sem as amarras da sociedade e da escravidão…
“Eu… eu preciso pensar, Artur”, respondeu Mariana, sem conseguir disfarçar a emoção em sua voz. A decisão era monumental, e ela sabia que precisaria de toda a sua coragem para enfrentá-la.
Enquanto isso, Dom Rodrigo, percebendo a crescente proximidade entre Artur e Mariana, e sentindo que seus planos de negócio poderiam ser prejudicados pela aparente resistência de seu filho, decidiu agir. Ele sabia que o Coronel Francisco era um homem de palavra, e que um acordo de casamento seria selado em breve. Mas ele também sabia que a resistência de Artur poderia ser um obstáculo.
Em uma conversa particular com o Coronel Francisco, Dom Rodrigo plantou uma semente de desconfiança. “Coronel, meu filho Artur tem se mostrado muito… idealista, ultimamente. Preocupado demais com os assuntos dos escravos. Tenho receio de que essa sua rebeldia possa nos trazer problemas. Talvez ele precise de um choque de realidade, de um casamento que o prenda à terra, que o faça entender o valor do nosso trabalho.”
O Coronel Francisco, embora confiasse em Dom Rodrigo, sentiu um leve incômodo. Ele via o amor que crescia entre sua filha e Artur, e não queria que fosse apenas um acordo de conveniência.
No entanto, o destino parecia ter outros planos. Naquela noite, enquanto Artur se preparava para encontrar João e organizar os detalhes finais da fuga, ele foi emboscado por alguns homens contratados por Dom Rodrigo. A luta foi breve e brutal. Artur, embora lutasse bravamente, foi subjugado e levado para um navio ancorado próximo à costa, pronto para zarpar para Portugal.
Quando Mariana soube do desaparecimento de Artur, seu mundo desmoronou. A notícia da emboscada chegou até ela através de um dos poucos escravos leais a Artur, que conseguiu escapar e lhe contar o que havia presenciado. A traição de Dom Rodrigo, o plano para afastar Artur de sua vida, a encheu de raiva e desespero.
Ela correu até a varanda, olhando para o mar escuro. O navio que havia levado Artur para longe de sua vida já estava se afastando, uma silhueta sombria contra o céu noturno. As lágrimas rolavam por seu rosto, mas em meio à dor, uma nova determinação tomou conta dela.
Ela não podia deixar Artur partir. Ela não podia aceitar que a traição vencesse. O amor que havia florescido em seu coração, um amor puro e forte, a impelia a agir. A Bahia, com seu céu vasto e seus segredos ocultos, seria o palco de sua luta. A sombra da traição pairava sobre eles, mas a coragem de um amor em flor começava a despontar, desafiando as correntes da opressão e os planos dos homens.