Cap. 16 / 25

A Noiva do Barão

A Noiva do Barão

por Henrique Pinto

A Noiva do Barão

Autor: Henrique Pinto

Capítulo 16 — A Sombra do Passado

O sol de Minas Gerais, impiedoso, banhava a fazenda Santa Cecília com uma luz dourada que, em outras épocas, seria sinal de prosperidade e alegria. Mas, para Mariana, a luz agora trazia consigo o peso opressor da incerteza. Desde que recebido a notícia sobre a carta roubada, uma angústia gélida se instalara em seu peito, um pressentimento funesto que a impedia de encontrar paz. A carta, aquela que guardava em seu forro do vestido de noiva, continua sendo seu único elo com a verdade sobre a fortuna de seu pai, uma verdade que o Barão de Alencar parecia determinado a enterrar sob camadas de mentiras e ameaças.

Naquela manhã, o silêncio da casa grande era quebrado apenas pelo burburinho dos serviçais e pelo grasnar insistente dos corvos que sobrevoavam os telhados. Mariana, vestida com um traje simples de algodão, tentava se concentrar em seus afazeres, mas seus pensamentos vagavam sem cessar para as montanhas, para a misteriosa comunidade que a acolhera e para a coragem que, até então, ela acreditara possuir. A revelação de que a carta havia sido interceptada antes de chegar às mãos de seu destinatário a assombrava como um fantasma. Quem a roubara? E por quê? A hipótese mais aterradora se apresentava com clareza brutal: o Barão.

Sentada à mesa da sala de jantar, com uma xícara de café intocada diante de si, Mariana observava Dona Eulália, sua tia, remexer as folhas de um bordado com uma agilidade surpreendente para sua idade. A senhora, de semblante geralmente sereno, parecia inquieta, seus olhos percorrendo o salão com uma frequência incomum.

"Tia", Mariana quebrou o silêncio, a voz embargada. "Você tem notado algo diferente nestes dias?"

Dona Eulália ergueu o olhar, os olhos azuis, outrora cheios de vivacidade, agora carregados de uma sabedoria melancólica. "O que queres dizer, minha sobrinha? O sol nasce, o gado é ordenhado, as tarefas seguem seu curso."

"Não me refiro às rotinas, tia. Refiro-me ao ar que se respira. Parece... carregado. Há algo no ar." Mariana buscou as palavras, sentindo-se frustrada pela própria incapacidade de expressar o que a afligia.

Dona Eulália largou o bordado sobre a mesa, um suspiro escapando de seus lábios. "O ar aqui sempre foi carregado, Mariana. Carregado de segredos, de histórias não contadas, de amores perdidos e de ambições cruéis. Mas ultimamente, sim, sinto uma tensão diferente. Como a calma que precede a tempestade." Ela a fitou com intensidade. "Sei que te aflige o que te contaram sobre a carta. E sei que o Barão não é homem de se contentar com meias palavras."

Mariana sentiu um arrepio. Sua tia parecia pressentir a gravidade da situação, talvez mais do que ela mesma ousasse admitir. "A carta era tudo, tia. A prova de que meu pai não era o homem que o Barão pintava. A prova de que ele não nos abandonou."

"Eu sei, minha filha. E por isso mesmo, sei que o Barão fará de tudo para impedir que essa verdade venha à tona." Dona Eulália pousou a mão enrugada sobre a de Mariana. "O Barão é um homem com muitos inimigos, mas também com muitos informantes. Ele tem olhos e ouvidos por toda parte. E o que mais o assusta não é a sua verdade, mas a sua liberdade de buscá-la."

A menção de inimigos e informantes fez Mariana pensar em Elias, o homem misterioso que a ajudara a escapar, o homem que lhe prometera proteção e que agora, talvez, estivesse em perigo por causa dela. A imagem de seus olhos, intensos e cheios de uma promessa de redenção, voltava a sua mente. O povo da montanha. Seriam eles o alvo?

"O povo da montanha, tia", Mariana disse, a voz quase um sussurro. "Elias... ele disse que eles me ajudariam. Que eram meus aliados."

Dona Eulália suspirou novamente, um som carregado de desconfiança. "Confiar em estranhos em tempos de aflição é um ato de fé, Mariana. Mas a fé cega pode ser perigosa. Esse Elias... o conheces de onde? Que promessas ele te fez?"

"Ele me salvou, tia. Quando eu estava prestes a me casar com aquele homem horrendo, ele apareceu e me tirou de lá. Ele disse que sabia sobre a carta, que entendia meu desespero." Mariana sentia a urgência em suas palavras, o medo de que sua tia a julgasse por suas escolhas.

"Ele te salvou, sim. E então, te levou para perto de quem? Para um lugar onde as pessoas vivem à margem da lei, lutando pela sobrevivência. Não te culpo, minha querida. Você estava desesperada. Mas o Barão não brinca em serviço. Ele tem poder, tem recursos. E ele odeia ser desafiado." Dona Eulália apertou a mão da sobrinha com mais força. "O que me preocupa é que, ao te ajudar, esse Elias possa ter atraído para si a fúria do Barão. E se ele foi o mensageiro, o homem a quem a carta estava destinada... então ele se tornou o alvo principal."

A revelação de Dona Eulália atingiu Mariana como um raio. A carta não era apenas um documento, era uma sentença. E Elias, o homem que se arriscara por ela, agora poderia estar pagando o preço. A imagem de seus olhos intensos, prometendo um futuro diferente, de repente se tingiu de perigo, de uma fragilidade que ela não havia percebido antes.

"Então... a carta não chegou até ele?", Mariana perguntou, a voz trêmula. "Se o Barão a interceptou, ele sabe que eu sei. Ele sabe que meu pai deixou algo para provar sua inocência."

"Exatamente. E quem quer que tenha roubado a carta, agiu a mando do Barão. Ou por conta própria, esperando um ganho com ele. O problema é que o Barão não deixará pontas soltas. Se Elias é o receptor, ele é o primeiro a ser silenciado." Dona Eulália olhou pela janela, para a imensidão verde que se estendia até o horizonte. "Precisamos saber se ele está seguro. E precisamos saber quem roubou a carta. Sem isso, você nunca estará livre da sombra do Barão."

Mariana sentiu um nó na garganta. O plano de fuga, o casamento arranjado, a carta perdida... tudo se misturava em um emaranhado de perigos e incertezas. A fazenda, antes um refúgio, agora parecia uma armadilha. E a sombra do passado, a sombra do Barão, se estendia cada vez mais longa sobre sua vida, ameaçando engoli-la por inteiro. Ela precisava agir, precisava encontrar Elias, precisava resgatar a carta, antes que fosse tarde demais. A coragem que ela pensara ter em montanha, agora teria que ser encontrada aqui, no coração da fazenda que se tornara sua prisão. Ela se levantou abruptamente, a decisão estampada em seu rosto.

"Tia, eu preciso ir."

"Ir aonde, Mariana? Para onde você pensa que vai nesta hora?" Dona Eulália a segurou pelo braço.

"Eu preciso encontrar Elias. Ele pode estar em perigo. E eu preciso saber o que aconteceu com a carta. Não posso ficar aqui esperando a tempestade cair sobre mim." A voz de Mariana era firme, embora uma corrente de medo a percorresse.

Dona Eulália a olhou, uma mistura de apreensão e orgulho em seus olhos. "É um risco muito grande, minha filha. O Barão tem homens em todos os cantos. Você não pode sair sozinha."

"Eu não sairei sozinha", Mariana respondeu, um brilho nos olhos que Dona Eulália reconheceu de sua mãe. "Eu sei quem pode me ajudar."

Ela saiu da sala de jantar, deixando Dona Eulália com um pressentimento ainda maior. Mariana sabia que precisava confiar em alguém, e a única pessoa que se arriscara por ela, a única que parecia entender o seu desespero, era Elias. E se ele estava em perigo, ela não podia abandoná-lo. A sombra do passado do Barão podia ser longa, mas a esperança de um futuro livre, a esperança de encontrar a verdade sobre seu pai, era mais forte. Ela estava disposta a enfrentar qualquer coisa para recuperá-la.

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