A Noiva do Barão
Capítulo 20 — O Sussurro da Armadilha
por Henrique Pinto
Capítulo 20 — O Sussurro da Armadilha
A noite em O Refúgio era um manto escuro salpicado de estrelas, pontuado pelo murmúrio constante do rio que corria ali perto e pelo crepitar das fogueiras. Mariana, sentada em um banco rústico de madeira, observava Elias e Mestre Inácio em uma conversa tensa, suas vozes baixas e carregadas de preocupação. O medalhão que Dona Eulália lhe entregara, guardado em seu bolso, parecia pesar como chumbo, um lembrete constante da missão que a unia a Elias. A aliança com Samuel, o homem enviado por Elias, trouxera uma nova esperança, mas também aterrorizantes notícias.
Samuel retornara ao amanhecer, com o rosto marcado pela preocupação. Ele confirmara que a carta havia chegado às mãos do Barão de Alencar. A emboscada fora orquestrada com precisão cirúrgica, e o traidor dentro da comunidade da montanha, que Elias desconfiava, fora identificado: um homem chamado Jonas, um dos mais antigos moradores do Refúgio, que vendera a informação em troca de ouro e promessas de proteção por parte do Barão.
"Jonas nos traiu", Elias disse a Mariana, a voz embargada pela decepção. "Ele sempre foi um homem amargurado, ressentido com a comunidade. O Barão soube explorar sua fraqueza."
"E o medalhão?", Mestre Inácio perguntou, olhando para Mariana. "Ele te disse algo sobre o medalhão?"
Mariana tirou o medalhão do bolso. "Dona Eulália o encontrou. Ela disse que meu pai o deixou para mim, como uma pista. Elias acredita que seja uma chave."
Elias pegou o medalhão, observando o brasão com atenção. "É o brasão da família do velho amigo de meu pai, o homem para quem a carta foi destinada. Um homem que se exilou há muitos anos, após ser traído pelo próprio Barão. Ele guardava documentos secretos em um local que só ele conhecia. Documentos que provavam a inocência do pai de Mariana e a culpa de Alencar."
"Então, essa é a próxima etapa", Mestre Inácio declarou, seus olhos brilhando com determinação. "Precisamos encontrar esse esconderijo. E precisamos descobrir onde Alencar guardou a carta."
Samuel, que também estava presente, acrescentou: "O Barão está agindo com urgência. Ele teme que Mariana, com a ajuda de Elias, possa reverter seus planos. Ele ordenou que seus homens intensificassem a busca por vocês. E ele está usando a fazenda como base, planejando uma armadilha."
"Uma armadilha?", Mariana perguntou, o medo apertando seu peito.
"Sim. Ele sabe que você se importa com sua tia. Ele planeja usar Dona Eulália como isca. Se você tentar voltar para a fazenda, para salvá-la, você cairá diretamente nas mãos dele." Samuel olhou para Mariana com seriedade. "Ele quer você, Mariana. E ele quer a carta de volta. Ele não pode permitir que a verdade venha à tona."
O coração de Mariana disparou. Sua tia! A ideia de Dona Eulália em perigo por causa dela era insuportável. Ela se levantou abruptamente.
"Eu preciso voltar! Eu não posso deixar minha tia cair nas mãos do Barão!"
Elias segurou seu braço com firmeza. "Mariana, não. É exatamente o que ele quer. Você cairá na armadilha dele. Precisamos ser mais inteligentes. Precisamos usá-lo contra ele mesmo."
"Mas como?", Mariana implorou, os olhos marejados. "Minha tia está em perigo!"
Mestre Inácio colocou uma mão em seu ombro. "Sua tia é uma mulher forte, Mariana. E Samuel nos trouxe informações valiosas. O Barão está reunindo seus homens na fazenda para a noite de lua cheia, para um banquete de comemoração, onde ele pretende anunciar seu noivado com uma jovem da elite da região. Ele acredita que já venceu."
"Um banquete?", Elias repetiu, um lampejo de ideia em seus olhos. "Isso nos dá uma oportunidade. Se a carta está na fazenda, é provável que ele a mantenha em seu escritório, em um local seguro. Se conseguirmos nos infiltrar durante o banquete, podemos tentar recuperá-la."
"Mas e minha tia?", Mariana insistiu. "Ele a usará contra mim!"
"Ele tentará", Elias concordou. "Mas podemos usar isso a nosso favor. Se o Barão acha que Dona Eulália é sua aliada, ele pode subestimar sua capacidade de ajudar. Podemos contar com ela. Ela é uma mulher esperta."
Mariana pensou nas palavras de Elias e Mestre Inácio. A ideia de arriscar sua tia era aterradora, mas a alternativa – cair na armadilha do Barão – era ainda pior. Ela confiava em Elias, confiava em sua inteligência e em sua determinação.
"O que você propõe?", Mariana perguntou, a voz mais firme.
"Precisamos que Samuel leve uma mensagem para Dona Eulália. Uma mensagem secreta, que a alerte sobre o plano do Barão e a instrua a agir com cautela. Ela precisa fingir que está do lado dele, enquanto nos ajuda a obter a informação que precisamos." Elias olhou para Samuel. "Você consegue fazer isso, Samuel?"
Samuel assentiu, seus olhos cheios de determinação. "Eu farei. A noite de lua cheia é daqui a três dias. Terei tempo de chegar à fazenda, entregar a mensagem e retornar com informações sobre a segurança e os movimentos dos homens do Barão."
"E enquanto isso", Mestre Inácio acrescentou, olhando para Elias e Mariana, "vocês dois irão até o local onde o velho amigo de seu pai guardava os documentos. Esse medalhão é a chave. E se o esconderijo dele estiver intacto, ele pode conter a prova final contra Alencar, mesmo sem a carta."
Mariana sentiu um misto de esperança e apreensão. A jornada para o esconderijo seria perigosa, mas a possibilidade de encontrar a verdade sobre seu pai era um chamado irresistível. Ela olhou para Elias, para a determinação em seus olhos, e sentiu que, juntos, eles poderiam enfrentar qualquer desafio.
"Eu estou pronta", Mariana disse, a voz cheia de convicção. "Eu vou com você. Vamos encontrar o esconderijo. E vamos recuperar a carta. E vamos proteger minha tia."
Elias segurou a mão dela, um sorriso de gratidão em seus lábios. "Nós faremos isso, Mariana. Juntos."
Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos, Mariana sentiu que uma nova batalha estava prestes a começar. A armadilha do Barão era cruel, mas a esperança de justiça e a coragem de seus aliados a impulsionavam para frente. A sombra do passado de Alencar era longa, mas a luz da verdade, que ela buscava incansavelmente, estava prestes a iluminar o caminho. A noite de lua cheia se aproximava, trazendo consigo o perigo, mas também a promessa de um confronto decisivo. Mariana sabia que o destino de sua família, e a memória de seu pai, dependiam de sua coragem e de sua aliança com Elias. A luta pela verdade estava longe de terminar.