Desventura na Ilha do Governador

Capítulo 15 — Entre a Cruz e a Espada

por Caio Borges

Capítulo 15 — Entre a Cruz e a Espada

O ar da noite na fazenda de café, antes suave e perfumado pelas flores noturnas, agora parecia sufocante, carregado de ameaça. A luz trêmula da lamparina projetava sombras grotescas na parede do pequeno quarto, transformando as figuras de Bento e do homem do Coronel Américo em demônios. Clara sentiu o ar faltar em seus pulmões. Aquele homem, a personificação da crueldade de seu tio, estava ali. A paz que eles haviam construído com tanto esforço desmoronava em instantes.

André, com o pedaço de pau em punho, irradiava uma fúria contida. Seus olhos, fixos no capanga do Coronel, eram um misto de desafio e desespero. "Não vou deixar que você nos leve de volta!", ele declarou, sua voz soando mais firme do que Clara esperava.

O capanga soltou uma risada rouca. "Ah, o jovem Vasconcelos quer bancar o herói. Que fofo." Ele deu um passo à frente, e Bento, com um movimento rápido, o deteve com uma mão em seu ombro.

"Espere, Juca", disse Bento, sua voz grave. "O Coronel Américo foi claro. Eles devem ser levados de volta vivos. Sem arranhões." Ele olhou para André com um misto de desprezo e resignação. "Vocês não têm escolha. Tentaram fugir, e agora vão pagar o preço. O Coronel não perdoa quem o desobedece."

"Nós não desobedecemos a ninguém!", retrucou Clara, dando um passo à frente de André. A adrenalina a impulsionava. "Fomos forçados a fugir. Fomos ameaçados! Seu tio é um tirano!"

Juca, o capanga, avançou rapidamente, agarrando Clara pelo braço com uma força brutal. Clara soltou um grito de dor.

"Larga ela!", rugiu André, avançando sobre Juca, mas Bento o segurou pelo colarinho, imobilizando-o.

"Sem violência desnecessária, Juca", disse Bento, sem demonstrar qualquer emoção. "O Coronel não quer que eles cheguem machucados." Ele puxou Clara gentilmente, mas com firmeza, para fora do quarto. "Venham. A carroça está pronta. O Coronel está esperando."

Clara olhou para André, o pânico estampado em seu rosto. Ele tentou se soltar de Bento, mas era inútil. A força do administrador era surpreendente.

"André!", ela gritou, sua voz embargada pelo desespero.

"Clara! Aguente firme!", gritou André de volta, o desespero em sua voz era palpável. "Eu vou te tirar dessa!"

O caminho de volta para a casa grande foi um borrão de terror e impotência. Clara era empurrada para dentro de uma carroça rústica, onde Juca se acomodou ao seu lado, com um sorriso cruel estampado no rosto. A noite, que antes trazia a promessa de descanso, agora se tornara um pesadelo.

Enquanto a carroça se afastava da fazenda, Clara olhou para trás, buscando um último vislumbre de André. Ele estava ali, parado na porta do quarto, seu rosto uma máscara de angústia e fúria. Ela sabia que ele não desistiria dela.

A viagem foi longa e desconfortável. Juca, o capanga, não se importava com o sofrimento de Clara. Ele falava incessantemente sobre o poder e a influência do Coronel Américo, sobre como ele jamais seria perdoado por sua audácia.

"Vocês dois pensaram que poderiam desafiar o homem mais poderoso desta região?", ele zombava. "Que ilusão! O Coronel é como um rei aqui. E seus súditos devem obedecer."

Clara se encolheu em seu canto, tentando ignorar as palavras cruéis. Em sua mente, ela repetia as palavras de André: "Eu vou te tirar dessa." Ela precisava ser forte. Por ele. Por eles.

Ao amanhecer, chegaram a uma pequena propriedade rural, um ponto estratégico controlado pelo Coronel Américo. Ali, um barco esperava por eles. Juca a empurrou para dentro da embarcação, onde outros homens, com olhares igualmente sombrios, aguardavam.

"O Coronel não está na Ilha do Governador no momento", explicou Juca, como se lesse os pensamentos de Clara. "Ele está se reunindo com alguns aliados importantes no continente. Mas ele quer vocês perto. Para que ele possa lidar com isso pessoalmente."

Clara sentiu um fio de esperança. Se o Coronel Américo estava longe, talvez houvesse uma chance. Talvez André conseguisse encontrá-los.

Enquanto o barco navegava pelas águas tranquilas, Clara tentava raciocinar. Ela sabia que André a amava. Sabia que ele não a abandonaria. Ele seria capaz de enfrentar qualquer perigo para salvá-la. A questão era: como?

O tempo passou em um silêncio tenso. Clara se limitava a observar o mar, a costa que se aproximava, a buscar um sinal, qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista. Juca e os outros homens pareciam impacientes, mas não demonstraram qualquer intenção de apressar a viagem.

Ao entardecer, avistaram a silhueta familiar da Ilha do Governador. A casa grande, imponente e sinistra, se destacava contra o céu alaranjado. O coração de Clara apertou. Aquele lugar, que um dia lhe pareceu um paraíso exótico, agora era um símbolo de seu cativeiro.

Ao desembarcarem, foram recebidos por uma guarda de escravos e alguns capangas do Coronel. O ar estava carregado de uma tensão palpável. A ilha parecia mais sombria, mais ameaçadora do que ela se lembrava.

"Tragam a moça para o quarto de hóspedes", ordenou um dos homens, um capanga de semblante duro. "E a mantenham sob vigilância constante. O Coronel não quer que ela fuja novamente."

Clara foi conduzida para o mesmo quarto em que havia se hospedado antes, um quarto simples, mas agora parecia uma prisão. As janelas estavam fechadas com grades de madeira, e um guarda permaneceu do lado de fora da porta, impassível.

Sozinha em seu cativeiro, Clara sentiu o desespero ameaçar dominá-la. Mas então, ela se lembrou do olhar de André, da promessa em seus olhos. Ela não estava sozinha. Ele viria por ela. Ela precisava ter fé.

Na manhã seguinte, Clara acordou com o som de vozes abafadas vindas do lado de fora de seu quarto. Ela se levantou, a esperança renovada, e se aproximou da porta, ouvindo atentamente.

"… o plano é arriscado, mas é a única chance que temos", dizia uma voz familiar, baixa e urgente. Era André.

"Você tem certeza de que isso vai funcionar, meu filho?", perguntou outra voz, mais velha e cautelosa. Clara reconheceu a voz de Mané.

"Teremos que fazer funcionar, pai", respondeu André, com determinação. "Eu não vou deixar Clara nas mãos daquele homem. Ele não vai machucá-la. Eu juro."

Clara sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. André estava ali. Ele estava planejando algo. Ela não estava abandonada.

"A ilha está vigiada, André", disse Mané, com preocupação. "Seu tio enviou mais homens. E os escravos estão com medo. Não sei se todos estarão dispostos a nos ajudar."

"Precisamos da ajuda de quem se opõe ao Coronel", disse André. "E eu sei quem são essas pessoas. Eu sei que nem todos aqui aceitam a crueldade dele. Precisamos encontrar aqueles que ainda têm coragem de lutar por um pouco de dignidade."

Clara ouviu atentamente, o coração batendo acelerado. A esperança, que parecia ter se extinguido, renascia em seu peito. André estava lutando por ela. Ele estava reunindo aliados. A batalha pela liberdade deles estava apenas começando, e ela, de seu cativeiro, se tornaria um símbolo de resistência. Ela só precisava ser forte. Esperar. E acreditar que o amor deles, mais forte que a crueldade e a tirania, os guiaria para fora da escuridão. A Ilha do Governador, palco de sua tragédia, poderia se tornar também o palco de sua redenção.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%