Desventura na Ilha do Governador

Capítulo 17 — A Travessia Sob o Olhar dos Corsários

por Caio Borges

Capítulo 17 — A Travessia Sob o Olhar dos Corsários

O sol da manhã beijava as águas calmas da Baía de Guanabara, mas a tranquilidade era apenas uma fina camada sobre as águas turbulentas que Joana e Clara estavam prestes a enfrentar. O saveiro de Tiago, o “Vento Livre”, era um barco modesto, mas robusto, com velas que prometiam velocidade e um casco que parecia desafiar as ondas mais bravas. O ar estava carregado de uma mistura de sal, madeira antiga e a excitação nervosa da partida iminente.

“Tem certeza, minha filha?”, perguntou Clara, a voz baixa, enquanto observava o movimento dos marinheiros no convés. O olhar dela, embora esperançoso, carregava a preocupação de quem já vira muitos naufrágios.

Joana apertou a mão de Clara, sentindo a fragilidade dos ossos sob a pele marcada pelo trabalho. “Tenho, Clara. Não há outro caminho. A Bahia, um novo começo… É a única esperança que nos resta. E você está comigo.”

“Sempre, minha querida. Aonde você for, eu irei. O que me assusta não é a viagem, mas o que deixamos para trás. E quem pode estar nos observando, mesmo agora.”

O temor de Clara não era infundado. Rodrigo de Andrade, furioso com a fuga de Joana e a falha de seus homens, havia intensificado a busca. Seus espiões estavam em todos os cantos do Rio de Janeiro, ouvindo conversas em tavernas, interrogando escravos, observando os movimentos nos portos. A notícia de que Joana poderia estar planejando uma fuga por mar chegara aos seus ouvidos.

“Ela pensa que pode escapar de mim assim, tão facilmente?”, rosnou Rodrigo, em um acesso de raiva que fez seus servos tremerem. “Que ela se prepare. Nenhum oceano será grande o suficiente para escondê-la de minha vingança.”

Ele ordenou que seus homens mais leais patrulhassem os portos, que subornassem marinheiros, que observassem todos os barcos que partissem, especialmente aqueles com destino ao norte ou sul. Ele enviou emissários para Avisos em portos vizinhos, oferecendo uma recompensa generosa por qualquer informação sobre o paradeiro de Joana.

Enquanto o “Vento Livre” se afastava da costa, Joana olhava para a cidade que se tornava cada vez menor no horizonte. A Ilha do Governador, com suas memórias de sofrimento e de um amor proibido, parecia um sonho distante e confuso. Ela sentia o peso da responsabilidade, a preocupação com Miguel, que havia deixado sob os cuidados de Dom Pedro, mas também uma centelha de determinação que a impulsionava.

“O capitão Tiago parece confiável, não acha?”, disse Joana, tentando quebrar a tensão.

Clara assentiu, observando o horizonte com atenção. “Tiago tem um bom coração, eu sinto. E seus homens parecem competentes. Mas o mar… o mar tem suas próprias vontades. E nesta época do ano, os corsários estão à solta.”

A menção aos corsários fez um arrepio percorrer a espinha de Joana. Piratas que infestavam as rotas marítimas, pilhando navios e escravizando seus passageiros. O risco da viagem aumentava exponencialmente.

Os primeiros dias de viagem foram relativamente calmos. O “Vento Livre” navegava com destreza, impulsionado por ventos favoráveis. Joana passava a maior parte do tempo no convés, observando a imensidão azul, o sol a pino, as nuvens que se formavam e se desfaziam. Ela tentava se concentrar no futuro, na esperança de um recomeço, mas as lembranças do passado, de Dom Pedro, de Miguel, de toda a confusão que a levara até ali, teimavam em atormentá-la.

À noite, sob o manto de estrelas, ela muitas vezes se sentava na proa, sentindo a brisa salgada em seu rosto e imaginando o rosto de Dom Pedro. Ele estaria pensando nela? Estaria protegendo Miguel? A saudade era uma dor física, um aperto no peito que ela tentava disfarçar com um sorriso para Clara.

“Ele a ama, Joana”, disse Clara uma noite, percebendo a melancolia nos olhos de Joana. “O amor verdadeiro não morre com a distância. Ele apenas espera o momento certo para ressurgir.”

Joana sorriu, grata pela consolação. “Espero que esteja certa, Clara. Preciso acreditar nisso.”

No quarto dia de viagem, o céu começou a mudar. Nuvens escuras se aglomeraram no horizonte, e o vento que antes era brisa tornou-se um vendaval. As ondas começaram a crescer, chicoteando o convés e lançando água salgada sobre os passageiros. A fragilidade do “Vento Livre” diante da fúria do oceano era palpável.

“Agarrem-se!”, gritou Tiago, a voz rouca lutando contra o rugido do vento. “Isso não é nada comparado ao que está por vir!”

E ele estava certo. No meio da tempestade, uma silhueta sombria surgiu na linha do horizonte. Um navio maior, com bandeira negra e velas esfarrapadas. Um navio de corsários.

O pânico tomou conta dos poucos passageiros e da tripulação. Tiago, no entanto, manteve a calma, ou pelo menos aparentou.

“Rápido! Para o porão! Todas as mulheres e crianças!”, ordenou ele. “Marinheiros, preparem-se para lutar!”

Joana, agarrada a Clara, sentiu o medo paralisá-la por um instante. Aquela era a realidade que ela tanto temia. O perigo real, concreto, que a perseguia mesmo em alto mar.

“Não podemos ficar aqui paradas!”, gritou Joana, a adrenalina tomando conta. “Precisamos ajudar!”

Clara a segurou com firmeza. “Joana, você não está em condições. Sua força é necessária para o futuro, não para uma batalha perdida.”

Mas Joana não podia aceitar a passividade. Ela não era mais a donzela indefesa que havia chegado ao Rio de Janeiro. Ela havia sobrevivido a uma conspiração, a uma fuga, e agora enfrentava corsários.

Quando o navio pirata se aproximou, a violência da abordagem era brutal. Gritos, tiros de mosquete, o som metálico de espadas se chocando. Joana, escondida no porão, ouvia tudo com o coração disparado. Ela viu Tiago e seus homens lutarem bravamente, defendendo seu navio e seus passageiros com a fúria de leões encurralados.

No meio do caos, Joana percebeu uma oportunidade. Um pequeno cano de metal, deixado por algum marinheiro. Ela o pegou, sentindo o peso em suas mãos. Era pouco, mas era algo. Ela não seria uma vítima indefesa.

Um dos corsários, um homem corpulento e de barba escura, conseguiu invadir o saveiro e desceu até o porão, seus olhos selvagens vasculhando a escuridão. Ele avistou Joana e Clara, um sorriso cruel se formando em seus lábios.

“Ora, ora, o que temos aqui? Duas presas fáceis”, disse ele, a voz áspera como lixa.

Joana sentiu o sangue gelar, mas reuniu toda a sua coragem. Ela se ergueu, o cano de metal em punho, posicionando-se à frente de Clara.

“Fique longe de nós!”, gritou ela, a voz tremendo, mas firme.

O corsário riu. “Insolente! Você pensa que pode me deter com isso?”

Ele avançou, a espada desembainhada. Joana fechou os olhos por um instante, lembrando-se de Dom Pedro, de sua força, de seu amor por Miguel. Ela não podia desistir. Com um grito, ela avançou, desferindo um golpe desesperado com o cano de metal na mão do corsário que segurava a espada.

O impacto foi surpreendente. O corsário cambaleou, sua espada caindo no chão. Joana aproveitou o momento de distração e correu, puxando Clara consigo. Elas subiram as escadas do porão, encontrando um cenário de batalha no convés.

Tiago lutava com um dos piratas, enquanto outros corsários pilhavam os poucos pertences do navio. Joana viu uma oportunidade. Um dos marinheiros de Tiago estava prestes a ser atacado por dois piratas. Sem pensar duas vezes, ela correu e empurrou um dos atacantes, desequilibrando-o.

O ato inesperado de coragem de Joana e Clara surpreendeu os corsários. A luta continuou, mas a determinação do “Vento Livre” parecia ter sido inflamada pela bravura de suas passageiras. Tiago, vendo a oportunidade, desferiu um golpe certeiro em seu oponente e gritou:

“Agora! Para a cabine do capitão! Preparem as velas!”

O plano era claro: se livrar dos invasores e usar a velocidade do “Vento Livre” para escapar. A luta continuou por mais alguns minutos tensos, com gritos e o som de armas. Finalmente, os corsários, vendo que a resistência era maior do que esperavam e que o saveiro se afastava, começaram a recuar, levando consigo o pouco que haviam roubado.

Quando o navio pirata desapareceu no horizonte, um silêncio pesado pairou sobre o convés. Havia feridos, mas, milagrosamente, ninguém havia morrido. Tiago, ofegante e com um corte no braço, aproximou-se de Joana e Clara.

“Vocês… vocês foram incríveis”, disse ele, o espanto em seus olhos. “Nunca pensei que veria uma coisa dessas.”

Clara sorriu, exausta, mas aliviada. “O amor nos dá forças que nem imaginamos possuir, capitão.”

Joana, ainda trêmula, sentiu um novo tipo de força percorrendo suas veias. Ela havia enfrentado o perigo e sobrevivido. Não era mais apenas uma fugitiva, mas uma guerreira, disposta a lutar por sua liberdade e por seu futuro.

A travessia continuou, com o “Vento Livre” navegando com mais cautela, sempre atento ao horizonte. A ameaça dos corsários havia passado, mas a consciência do perigo constante as acompanhava. Joana sabia que Rodrigo de Andrade não desistiria tão facilmente. Mas agora, ela também sabia que não estava sozinha. Tinha Clara ao seu lado, e a coragem que havia descoberto em si mesma. A Bahia estava cada vez mais perto, e com ela, a esperança de um novo começo, um começo que ela teria que conquistar a cada passo.

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