Paixão e Poder em Ouro Preto
Capítulo 12 — A Trama de Amaro
por Henrique Pinto
Capítulo 12 — A Trama de Amaro
O escritório de Coronel Amaro era um reflexo de sua personalidade: imponente, luxuoso e com um toque de crueldade disfarçada. Móveis pesados de jacarandá, tapeçarias finas e um busto de bronze de algum imperador romano pareciam observar cada movimento. A luz fraca de um lampião a óleo lançava sombras dançantes sobre seu rosto, acentuando as linhas de sua testa franzida e o brilho calculista em seus olhos. Ele segurava um copo de vinho caro, o líquido rubro refletindo a chama instável. A recente confrontação com Clara o deixara irritado, mas também mais determinado. Ele não toleraria que ela o desafiasse, muito menos que se envolvesse com elementos que ele considerava indignos.
Ao seu lado, sentado em uma cadeira menos suntuosa, estava um homem de aspecto sombrio e calculista, um advogado conhecido por sua falta de escrúpulos e sua habilidade em manobras obscuras. Seus olhos, pequenos e perspicazes, observavam o Coronel com uma deferência calculada. Era Dr. Bastos, o braço direito de Amaro em seus negócios menos lícitos.
"Ela é teimosa, esse é o problema", disse Amaro, dando um gole longo em seu vinho. "Acha que pode me desafiar, a mim, Amaro da Silva!" A voz dele era um rosnado baixo, cheio de ameaça. "Ela não entende o que é o poder, o que é pertencer a mim. Essa garota ingênua se afogará em suas ilusões se não for controlada."
"Coronel, sua força e sua influência são inegáveis", disse Bastos, sua voz suave e lisonjeira. "Mas a senhorita Clara é uma mulher de forte personalidade. Talvez um método mais sutil seja necessário. A senhorita, a seu modo, tem um certo charme que pode ser explorado."
Amaro lançou um olhar de escárnio. "Charme? A única coisa que ela precisa entender é a minha vontade. O que me preocupa, Bastos, é quem anda atiçando essa revolta. Ouvi boatos sobre reuniões secretas, sobre ideais perigosos circulando pelos becos desta cidade."
"Sim, Coronel. Há rumores de um grupo de descontentes. Falam em liberdade, em independência... bobagens que não chegam a lugar algum", disse Bastos, encolhendo os ombros como se minimizasse a importância. "Pequenos murmúrios de descontentamento. Nada que o senhor precise se preocupar. São apenas sonhadores, como a senhorita Clara."
"Sonhadores podem se tornar perigosos quando têm apoio. E eu tenho a impressão de que há mais do que sonhadores envolvidos nisso", Amaro disse, seus olhos fixos em um ponto invisível. "Eles falam de tirania, de opressão. Mas quem é realmente o opressor aqui? Quem controla as minas, o comércio, o próprio destino desta terra? Não é a Coroa, mas sim aqueles que sabem usar o poder a seu favor." Ele deu uma risada seca. "E eu sou mestre em usar o poder."
Ele se levantou e caminhou até a janela, observando a cidade lá fora, um mar de telhados vermelhos sob a luz da lua. "Acredito que essa tal Inconfidência que eles tanto alardeiam, essa busca por liberdade, é uma oportunidade. Oportunidade para quem tem a visão e a coragem de agarrá-la."
"O senhor pretende se juntar a eles, Coronel?", perguntou Bastos, um toque de surpresa em sua voz.
"Juntar-me? Não, meu caro Bastos. Eu pretendo controlá-los. Usar essa energia desgovernada em meu próprio benefício. Se eles querem derrubar a Coroa, que assim o façam. Mas quem ditará as novas regras? Quem se erguerá das cinzas?" Amaro sorriu, um sorriso que não atingia seus olhos. "Eu."
"Mas Coronel, o senhor não parece o tipo de homem que se preocupa com a liberdade do povo...", Bastos começou.
"Liberdade do povo? Que tolice!", Amaro o interrompeu com um gesto impaciente. "Eu me preocupo com o meu próprio poder. Se para obtê-lo preciso brincar de revolucionário, assim o farei. Se esses intelectuais falastrões e padres idealistas pensam que podem liderar uma revolução, estão enganados. Eles precisam de alguém com força, com recursos, com a audácia de quebrar as correntes. Eu posso ser essa pessoa. E quando o pó assentar, serei eu quem reinará sobre estas montanhas."
Ele voltou para sua mesa e pegou um documento. Era um mapa rudimentar de Ouro Preto, com marcações em pontos estratégicos. "Precisamos monitorar esses encontros. Saber quem são os líderes, quais são seus planos. E, mais importante, identificar aqueles que são vulneráveis. Aqueles que podem ser persuadidos, ou forçados, a agir de acordo com meus interesses."
"E a senhorita Clara, Coronel?", Bastos perguntou, com um toque de malícia. "Ela tem se mostrado cada vez mais envolvida com... ideais. E ela tem um certo fascínio por um certo jovem que anda por aí, um tal de Matias."
O nome de Matias fez os olhos de Amaro se estreitarem. "Matias. Aquele insolente que ousa olhar para o que é meu." Ele deu uma risada fria. "Ele será um peão útil, ou um obstáculo a ser removido. Mas, por enquanto, ele é apenas um incômodo. Clara, sim, Clara é a peça central. Se eu não posso tê-la pela força, terei de manipulá-la. E ela tem um segredo, algo que a liga ao seu passado, algo que podemos usar contra ela, ou a nosso favor."
Amaro pegou uma pequena caixa de madeira, a mesma que Clara havia encontrado no baú. Ele a abriu com um clique, revelando um medalhão antigo e uma mecha de cabelo. "Este medalhão. E este cabelo. Pertenciam à mãe de Clara. E a quem mais, eu me pergunto?" Ele olhou para Bastos. "Parece que o pai dela não era apenas um comerciante qualquer. E a mãe dela... bem, ela tinha seus segredos."
"O que o senhor sabe, Coronel?", perguntou Bastos, seus olhos brilhando de interesse.
"Sei o suficiente para saber que o passado é uma arma poderosa. E eu sou um mestre em usá-la." Amaro fechou a caixa com um estalo. "Vamos usar a Inconfidência a nosso favor, Bastos. Vamos nos posicionar na vanguarda da mudança, para que possamos controlá-la. E a senhorita Clara... ela será a minha joia da coroa, quer queira, quer não. E Matias, se ele se tornar um problema, aprenderá a temer o nome de Amaro da Silva."
Noite adentro, a trama de Amaro se tecia nos corredores sombrios de seu poder. Ele via Ouro Preto não como uma cidade de história e fé, mas como um tabuleiro de xadrez, onde cada peça, cada indivíduo, servia a um propósito em sua busca incessante por controle absoluto. A paixão que movia Clara e Matias, a idealismo do Padre Miguel e do Dr. Joaquim, tudo isso era apenas ruído em seus planos calculistas. Ele estava pronto para jogar, e estava determinado a vencer, mesmo que para isso tivesse de acender o fogo da revolução e utilizá-lo para aquecer seu próprio trono.