Paixão e Poder em Ouro Preto
Capítulo 22 — Sombras no Casarão
por Henrique Pinto
Capítulo 22 — Sombras no Casarão
O casarão do Barão de Vargem Alta, outrora um símbolo de ostentação e poder, agora exalava um ar sombrio e opressivo. A notícia de sua morte violenta havia caído como uma névoa fria sobre Ouro Preto, e a investigação, embora incipiente, já começava a desenterrar os podres segredos que o Barão tanto se esforçou para enterrar.
O Capitão Ramiro, com sua habitual sagacidade, liderava a busca por pistas. Ele observava o escritório do Barão com um olhar minucioso, cada objeto, cada papel sobre a mesa, sendo examinado. A adaga, a arma do crime, estava em uma bandeja de prata, como se fosse uma relíquia profana. Era uma adaga antiga, com um cabo adornado com pedras semipreciosas escuras, não um armamento comum na vila.
"Onde está a família do Barão?", perguntou o Capitão a um dos guardas que vigiava a porta.
"Não há família direta, Capitão. Ele era viúvo, sem filhos. Tinha apenas sobrinhos distantes. E alguns agregados, claro."
"Agregados... quem são esses agregados?", insistiu Ramiro, a voz grave.
"Bem, Capitão, há o jovem Dr. Elias, o médico particular dele. E a governanta, Dona Margarida, que mora aqui há anos."
O Capitão Ramiro anotou os nomes em seu pequeno caderno. Elias e Margarida. Dois nomes que poderiam conter a chave para o mistério. Ele mandou chamar os dois, um por um, para serem interrogados.
Dr. Elias foi o primeiro a entrar. Era um homem jovem, de feições finas e olhos assustados, vestindo um paletó escuro que parecia um pouco grande para seus ombros. Ele tremia levemente, mas mantinha uma postura contida.
"Dr. Elias", começou o Capitão, a voz calma, mas firme. "Quando o senhor soube da morte do Barão?"
"Eu... eu fui chamado esta manhã, Capitão. A governanta, Dona Margarida, me avisou. Disse que o Barão não respondia. Quando cheguei... o encontrei assim." A voz de Elias falhou em um soluço.
"O senhor era próximo do Barão? Cuidava da saúde dele há quanto tempo?"
"Há cerca de dois anos, Capitão. Ele sofria de algumas enfermidades do peito. Eu vinha com frequência para acompanhá-lo."
"E o senhor percebeu alguma ameaça à vida dele? Algum inimigo que pudesse querer vê-lo morto?"
Dr. Elias hesitou. Seus olhos percorreram o escritório, como se buscasse respostas nas paredes. "O Barão... ele não era um homem fácil, Capitão. Tinha muitos negócios, e nem sempre os mais... limpos. Mas ameaças diretas? Não que eu soubesse. Ele era um homem muito reservado sobre seus assuntos pessoais."
"E a adaga, Dr. Elias? O senhor reconhece essa adaga?", perguntou o Capitão, apontando para a arma na bandeja.
Elias se aproximou cautelosamente e a observou. Seus olhos se arregalaram ligeiramente. "Eu... eu a vi em algumas ocasiões. O Barão a guardava em seu cofre. Dizia que era uma herança de família, de tempos remotos. Era um objeto de valor, segundo ele."
"Um objeto de valor que agora jaz em seu peito", murmurou o Capitão. "O senhor sabe se o Barão tinha algum vício? Alguma droga, talvez, que pudesse afetar seu julgamento ou o deixar vulnerável?"
"Vício? Não, Capitão. O Barão era um homem de hábitos controlados. Bebia um pouco de vinho, mas nada em excesso. Quanto a drogas... não tenho conhecimento."
"Obrigado, Dr. Elias. Por enquanto, é só. Mas não se afaste de Ouro Preto."
Após a saída de Elias, Dona Margarida foi chamada. Era uma mulher de meia-idade, com os cabelos presos em um coque severo e um olhar que parecia carregar o peso de anos de serviço e observação silenciosa. Ela entrou no escritório com passos firmes, a compostura quase inabalável.
"Dona Margarida", começou o Capitão, com a mesma abordagem. "Por favor, descreva a manhã para nós."
"Eu, como de costume, vim acordar o Senhor Barão. Não houve resposta. Chamei várias vezes. Preocupada, fui até a porta de seu quarto, que estava entreaberta. O vi... caído. Fui até o quarto ao lado, o escritório, e o encontrei ali. Imediatamente chamei o Dr. Elias, pois o Senhor Barão tinha um problema cardíaco que às vezes o deixava sem ar. Quando o Dr. Elias chegou e viu a cena, ele me pediu para chamar a Guarda."
"O senhor Barão parecia ter recebido alguém durante a noite, Dona Margarida? Havia sinais de que outra pessoa esteve aqui?"
"Não, Capitão. A porta principal estava trancada, como sempre. As janelas também. E o Senhor Barão era muito zeloso de sua segurança. Duvido que ele recebesse alguém sem meu conhecimento, ou sem o do Dr. Elias."
"E a adaga?", perguntou o Capitão, novamente indicando a arma. "O senhor a reconhece?"
Dona Margarida a observou com uma expressão indecifrável. "Sim, Capitão. É a adaga que o Senhor Barão guardava em seu cofre. Uma peça antiga, ele dizia. Raramente a via. Acho que era apenas um objeto de exibição."
"O senhor Barão tinha inimigos, Dona Margarida? Pessoas que o odiavam?"
Um leve tremor passou pelos ombros de Dona Margarida. "O Senhor Barão era... um homem de negócios implacável, Capitão. Ele prosperou em tempos difíceis. Muitos o invejavam. Alguns o odiavam. Mas quem teria coragem de fazer isso...?"
"Coragem ou desespero", completou o Capitão. "O senhor Barão tinha alguma relação secreta? Alguém que ele visitava ou que o visitava sem o seu conhecimento?"
Dona Margarida hesitou por um momento, seus olhos desviando-se para um ponto distante. "Ele era um homem de rotinas, Capitão. Seus dias eram bem definidos. Recebia visitas de negócios, sim. Mas nada fora do comum. Quanto a... relações pessoais... eu não sei dizer."
A hesitação de Dona Margarida não passou despercebida pelo Capitão Ramiro. Havia algo que ela não estava contando. Algo que ela temia revelar.
Enquanto isso, o Coronel Afonso, após sair do casarão do Barão, dirigiu-se à casa de Dona Aurora. Ele sabia que a notícia da morte do Barão a atingiria, e ele queria estar lá, para oferecer seu "conforto" e, quem sabe, para colher alguma informação.
Encontrou Aurora em seu jardim, pálida, mas com uma serenidade estranha no olhar. Joana, a criada, estava por perto, com uma expressão de profunda preocupação.
"Dona Aurora", disse o Coronel, aproximando-se com um sorriso forçado. "Soube da terrível notícia. O Barão de Vargem Alta... uma tragédia."
Aurora o olhou, seus olhos escuros, mas agora com uma nova profundidade. "Coronel. Sim, uma tragédia. Para alguns."
"O senhor... o senhor parecia ter uma relação complicada com o Barão, não é, Dona Aurora?", disse o Coronel, a voz assumindo um tom mais confidencial. "Eu sei que ele a pressionava... em relação a Sebastião."
Um leve rubor subiu pelas bochechas de Aurora. "O Barão de Vargem Alta era um homem que gostava de controlar tudo e todos ao seu redor, Coronel. Infelizmente, sua ambição o cegou."
"E agora, ele está morto", disse o Coronel, a voz baixa. "Isso... isso muda tudo, não é? Talvez agora você possa ter a paz que tanto merece. Talvez Sebastião possa voltar." Ele observou a reação dela atentamente.
Aurora suspirou, um suspiro que parecia carregar o peso do mundo. "Coronel, a morte de um homem, por mais indesejado que fosse, nunca traz paz. Traz apenas... incertezas. E perigos."
"Perigos?", o Coronel repetiu, franzindo a testa. "Quais perigos, Dona Aurora?"
"O perigo do desconhecido, Coronel. E o perigo das pessoas que, em sua ânsia de poder, podem se tornar ainda mais cruéis quando um obstáculo é removido." Ela o olhou diretamente nos olhos, e o Coronel sentiu um arrepio. Havia algo naquela mirada que ele não conseguia decifrar. Um misto de esperança e temor.
O Coronel Afonso deixou a casa de Aurora com uma sensação de inquietação. Ele havia esperado encontrar nela uma fragilidade que pudesse explorar, mas encontrou uma força inesperada. A morte do Barão não havia aberto o caminho para seus planos tão facilmente quanto ele imaginara. Na verdade, parecia ter jogado todos em um mar de sombras, onde a busca por vingança e poder se tornava cada vez mais obscura e perigosa. As sombras do casarão do Barão pareciam se estender por toda Ouro Preto, e ninguém estava a salvo delas.