Paixão e Poder em Ouro Preto
Capítulo 24 — O Jogo de Espelhos
por Henrique Pinto
Capítulo 24 — O Jogo de Espelhos
A volta de Sebastião a Ouro Preto virou a Vila de cabeça para baixo. A notícia se espalhou como fogo em palha seca, e todos os olhares se voltaram para o jovem que ousara desafiar o poder do falecido Barão e, agora, parecia flertar abertamente com o Coronel Afonso. O reencontro entre Sebastião e Aurora, embora íntimo e carregado de emoção, não passou despercebido.
O Coronel Afonso, alertado sobre o reencontro no cemitério, sentiu uma onda de fúria o percorrer. Sua paciência, já testada pela morte do Barão, estava se esgotando. Ele sabia que precisava agir, e agir rápido, antes que Sebastião conseguisse reconquistar Aurora completamente e, com ela, sua influência.
"Sebastião quer Aurora de volta?", rosnou o Coronel para si mesmo, andando em círculos em seu escritório. "Ele se esqueceu quem é o homem mais poderoso desta Vila agora? Acha que o amor o salvará de mim?"
Ele convocou seu capanga, o mesmo homem de rosto duro e poucas palavras, chamado Matias.
"Matias", disse o Coronel, a voz fria como o aço. "Sebastião está causando problemas. Ele voltou para Aurora. Precisamos dar um jeito nisso."
Matias, um homem que vivia para servir o Coronel, assentiu sem hesitar. "O que o senhor deseja, Coronel?"
"Quero que ele se sinta... desincentivado", disse o Coronel, um sorriso cruel se formando em seus lábios. "Não quero que ele morra. Ainda. Mas quero que ele entenda que Aurora não está mais disponível para ele. Que o futuro dela pertence a outra pessoa."
Matias ponderou por um momento. "Uma ameaça, Coronel? Um aviso?"
"Algo mais sutil, Matias. Algo que o assuste. Talvez um pequeno... acidente. Nada que o mate, mas que o deixe incapacitado por um tempo. Tempo suficiente para que Aurora se esqueça dele e perceba quem é o homem que realmente pode protegê-la."
Enquanto isso, Sebastião e Aurora tentavam navegar pelas águas turbulentas de seu reencontro. Passavam longos momentos juntos, conversando, relembrando os tempos felizes, e traçando planos para o futuro. Aurora estava radiante, mas a sombra do Coronel Afonso pairava sobre eles.
"Ele sabe que você voltou, Sebastião", disse Aurora, a preocupação em sua voz. "O Coronel Afonso... ele não me deixa em paz. E agora, com o Barão morto, ele se sente ainda mais confiante em seus planos."
"Eu sei, Aurora. E eu não vou deixar que ele te machuque. Eu voltei para te proteger. Para te tirar desta Vila, se necessário."
"Mas e a investigação da morte do Barão? O Capitão Ramiro está investigando a fundo. O Coronel Afonso está sendo interrogado, assim como outras pessoas importantes."
"Eu ouvi sobre isso", disse Sebastião. "É uma pena que aquele homem tenha morrido de forma tão violenta. Mas não podemos nos preocupar com isso agora. Nosso foco deve ser nós dois."
No entanto, o destino tinha outros planos. Enquanto Sebastião e Aurora buscavam um refúgio em seu amor, Matias, o homem do Coronel Afonso, já estava a postos. Ele sabia do caminho que Sebastião costumava fazer para ir do armazém à casa de Aurora, um atalho pela mata, pouco iluminado e raramente frequentado.
Uma noite, quando Sebastião retornava do armazém, após deixar Aurora em sua casa, foi emboscado. Uma sombra surgiu das árvores, e um golpe certeiro atingiu sua cabeça. Ele caiu no chão, grogue, e viu Matias se aproximando com uma expressão sombria.
"O Coronel manda lembranças", disse Matias, antes de desferir outro golpe, dessa vez na perna de Sebastião.
Sebastião gemeu de dor, mas sua determinação não vacilou. Ele sabia quem estava por trás disso.
Matias, vendo que havia cumprido sua missão, desapareceu na escuridão, deixando Sebastião ferido à beira do caminho.
Aurora, sentindo uma angústia inexplicável, decidiu ir até o armazém de Sebastião. Ela o esperou por horas, mas ele não apareceu. A preocupação a consumiu. Ela pegou seu cavalo e seguiu o caminho que ele costumava fazer, o coração batendo descompassado no peito.
Foi então que ela o encontrou. Caído, ferido, mas vivo.
"Sebastião!", gritou Aurora, correndo até ele. Ela o ajudou a se sentar, seus olhos marejados de lágrimas. "O que aconteceu? Quem fez isso?"
Sebastião, apesar da dor, a abraçou. "Foi o Coronel Afonso, Aurora. Ele não quer que eu fique perto de você."
Aurora sentiu uma raiva fria percorrer seu corpo. A crueldade do Coronel Afonso não tinha limites. "Ele não vai conseguir nos separar, Sebastião. Eu prometo."
Enquanto isso, na casa senhorial dos Vasconcelos, Dona Leonor observava o marido, o Coronel Afonso, com uma mistura de admiração e desconfiança. Ele parecia mais confiante, mais seguro de si, desde a morte do Barão.
"Afonso", disse ela, aproximando-se dele enquanto ele bebia um conhaque. "Ouvi dizer que Sebastião foi atacado. Uma pena. Ele era um jovem impulsivo."
O Coronel Afonso sorriu, um sorriso sem alegria. "Impulsivo, sim. E agora, talvez um pouco mais cauteloso."
Dona Leonor o observou atentamente. "Você tem certeza que foi uma boa ideia, meu amor? A violência pode trazer atenção indesejada. Especialmente agora, com a morte do Barão ainda fresca na memória de todos."
"Não se preocupe, Leonor. Foi sutil. Ninguém vai ligar isso a mim. E se ligarem... bom, é apenas um desincentivo. Sebastião não está morto. Apenas um pouco mais machucado. E espero que mais sensato."
"E Aurora?", perguntou Dona Leonor, a voz baixa. "Como ela reagiu?"
"Ela o encontrou, é claro", disse o Coronel, com um tom de desdém. "E agora, ela deve estar ainda mais desesperada por proteção. Proteção que só eu posso oferecer."
O jogo de espelhos em Ouro Preto havia começado. O Coronel Afonso, usando a violência indireta, tentava eliminar seus rivais e garantir seu poder. Sebastião, ferido, mas não derrotado, jurava proteger Aurora. E Aurora, dividida entre o amor de Sebastião e a cruel realidade que a cercava, precisava encontrar uma maneira de sobreviver. A investigação da morte do Barão continuava, e o Capitão Ramiro, um homem perspicaz, sentia que havia algo mais sombrio por trás da morte do Barão, algo que envolvia os mais poderosos da Vila. Ele não sabia que, enquanto tentava desvendar o passado, um novo e perigoso jogo de poder estava se desenrolando diante de seus olhos.