Entre Dores e Delírios da Corte
Capítulo 14 — O Roubo da Verdade e o Grito do Coração
por Caio Borges
Capítulo 14 — O Roubo da Verdade e o Grito do Coração
A noite na capital era um manto espesso e sufocante, pontilhada por poucos lampiões que lançavam sombras fantasmagóricas sobre as ruas estreitas e os becos sombrios. Matias, vestindo um gibão escuro e um chapéu de abas largas que escondia parte de seu rosto, movia-se com a agilidade de um predador. O endereço do Dr. Almeida, o tabelião corrupto a serviço do Conde de Vasconcelos, estava gravado em sua mente. A mansão, localizada em um bairro mais afastado e discreto, parecia um ninho de segredos, envolta em um silêncio que gritava perigo.
Ao chegar, Matias observou a propriedade. Muros altos, um portão de ferro maciço e poucas janelas iluminadas. A discrição era a palavra de ordem. Ele avistou uma árvore frondosa cujos galhos se estendiam sobre o muro, oferecendo um ponto de acesso. Com a agilidade forjada em anos de vida nas ruas e em fugas desesperadas, ele escalou, o corpo tenso e preparado para qualquer eventualidade.
Uma vez do lado de dentro, Matias se moveu com a cautela de um fantasma. O jardim, embora bem cuidado, era um labirinto de sombras e arbustos. Ele se dirigiu à parte de trás da mansão, onde sabia que ficava o escritório do tabelião. Uma janela, entreaberta, ofereceu a entrada. Matias a forçou com delicadeza, o som metálico abafado pelo barulho distante da cidade.
O interior do escritório era opulento, mas sombrio. Móveis de mogno polido, tapetes persas e uma atmosfera pesada de segredos. Matias dirigiu-se à mesa de trabalho do Dr. Almeida. A busca pelo cofre começou. Ele bateu nas paredes, examinou o chão, revirou gavetas, mas nada. A carta do Corvo mencionava um cofre oculto, e o tabelião era conhecido por sua astúcia.
Seus olhos pousaram sobre uma estante de livros antigos. Uma dedução lógica: cofres escondidos eram frequentemente disfarçados atrás de objetos de valor ou de elementos aparentemente inofensivos. Ele começou a examinar os livros um a um. Um volume sobre direito canônico, outro sobre história da corte... e então, um livro de capa gasta, sem título aparente, que parecia deslocado do restante. Ao puxá-lo, um clique suave ecoou pelo silêncio. Uma seção da estante se moveu para o lado, revelando a entrada de um pequeno compartimento secreto.
O cofre era de ferro maciço, com um mecanismo de fechadura intrincado. Matias sabia que não teria muito tempo. Ele havia aprendido, em suas andanças, algumas técnicas rudimentares de arrombamento. Com uma barra de metal que encontrou em um canto e um pouco de força de vontade, ele começou a trabalhar na fechadura. Suor escorria por sua testa, os músculos tensos pelo esforço. Cada minuto que passava era um risco iminente de ser descoberto.
Finalmente, com um estalo alto e satisfatório, o cofre cedeu. Matias o abriu com cuidado. Dentro, uma pilha de documentos, contratos, e um livro de contabilidade detalhado. Era a prova que ele buscava. As transações ilícitas, as manipulações, a venda de informações que levaram à ruína do Visconde de Alencar. Ele pegou tudo o que podia, documentos que incriminavam diretamente o Conde de Vasconcelos e seus cúmplices.
De repente, um barulho no corredor. Passos pesados se aproximavam. Matias se apressou em fechar o cofre e disfarçar a entrada, recolocando o livro no lugar. Ele se escondeu atrás de uma cortina pesada, o coração batendo descompassado.
A porta do escritório se abriu com violência. Um homem alto e corpulento, com um rosto desfigurado por uma cicatriz antiga, entrou, seguido por dois capangas armados. Era o Dr. Almeida. Ele parecia perturbado, seu olhar varrendo o escritório como se sentisse a presença de um intruso.
"O que aconteceu aqui?", rosnou ele, sua voz áspera. "Sinto cheiro de... de alguém que não deveria estar aqui."
Matias prendeu a respiração. Ele sabia que não podia ser pego. A descoberta da verdade era crucial, mas sua própria vida, e consequentemente a segurança de Aurora, dependia de sua fuga.
O Dr. Almeida se aproximou da estante, seus olhos perscrutadores. Ele notou algo sutilmente fora do lugar. Hesitou por um momento, e então, com um movimento rápido, puxou o livro. O compartimento secreto se revelou.
"Maldito seja!", gritou o tabelião, a fúria estampada em seu rosto. Ele se virou para seus capangas. "Ele está aqui! Encontrem-no!"
Os capangas começaram a vasculhar o escritório, seus passos trovejantes ecoando pelo ambiente. Matias sabia que era hora de agir. Ele saiu de seu esconderijo com um grito de guerra, jogando um pequeno saco de pó de pimenta que havia trazido consigo na direção dos homens. O pó atingiu seus olhos, cegando-os momentaneamente.
Aproveitando a confusão, Matias correu em direção à janela por onde entrara. Ele a abriu com um movimento rápido e saltou para o exterior, caindo no jardim e se perdendo entre os arbustos. Os gritos de raiva e frustração do Dr. Almeida e seus homens o seguiram, mas ele já estava em movimento, correndo em direção à escuridão da noite, os documentos preciosos escondidos sob seu gibão.
Enquanto isso, nas montanhas, Aurora sentia uma inquietação crescente. A distância de Matias pesava em seu coração, e uma premonição sombria a assolava. Ela sentou-se à beira do riacho, o diário de sua mãe em mãos, o medalhão de prata em seu pescoço. As palavras de sua mãe sobre a necessidade de coragem e de perseverança ressoavam em sua mente.
De repente, um grito agudo cortou o silêncio da mata. Um grito de dor, de desespero. Aurora levantou-se abruptamente, o coração disparado. O grito parecia vir da direção onde o Falcão da Mata costumava se aventurar para caçar.
"Falcão!", ela gritou, correndo na direção do som. Ela encontrou o Falcão da Mata caído no chão, um ferimento profundo em seu flanco, seu rosto pálido de dor. Ao seu lado, um homem de aspecto rude, vestido com roupas de caçador, segurava uma lança manchada de sangue.
"Quem é você?", gritou Aurora, a voz tremendo de medo e de raiva.
O homem sorriu cruelmente. "Sou um servo do Conde de Vasconcelos. E vim buscar o que é dele."
Aurora sabia imediatamente o que estava acontecendo. Eles a haviam encontrado. A segurança que o Falcão da Mata lhe proporcionara estava ameaçada. O grito do coração, a dor de ver o Falcão ferido, a impulsionaram. Ignorando o medo, ela pegou uma pedra grande e a arremessou contra o agressor. Ele vacilou por um instante, e Aurora aproveitou para puxar o Falcão, ajudando-o a se erguer.
"Precisamos sair daqui", disse ela, a voz firme apesar do pavor.
O agressor, recuperado do choque, avançou novamente. Aurora, com uma força que ela não sabia possuir, empurrou o Falcão em direção à cabana e se virou para enfrentar o homem, usando o que aprendera com o próprio Falcão sobre como se defender em situações extremas. O roubo da verdade na capital coincidia com o ataque à sua paz nas montanhas. O grito do coração, tanto o dela quanto o do Falcão ferido, ecoava pela serra, um prenúncio de que a luta pela verdade e pela sobrevivência estava apenas começando.