Entre Dores e Delírios da Corte
Entre Dores e Delírios da Corte
por Caio Borges
Entre Dores e Delírios da Corte
Autor: Caio Borges
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Capítulo 16 — A Fúria Silenciosa do Desespero
O corpo de Joaquim tremeu, um espasmo involuntário de dor e incredulidade. A visão de Isabela, desfalecida nos braços de seu algoz, era um golpe mais cruel do que qualquer flecha que a floresta já lhe lançara. O sangue, antes vivo em suas veias, parecia ter gelado, transformando-se em um ácido corrosivo que lhe queimava o peito. O grito que se formou em sua garganta ficou preso, um rugido abafado pela impotência. Aquele que se dizia protetor de sua amada, aquele que ele tantas vezes enfrentara em duelos de palavras e olhares na corte, ali estava, profanando o santuário que ele, Joaquim, sonhara construir para ela.
O tenente Alvarenga, com seu sorriso trocista que agora parecia mais uma careta de escárnio, soltou uma gargalhada rouca. "Ora, ora, Joaquim. O famoso Falcão, com as asas cortadas? Que bela visão. Achei que estivesse mais preparado para encontrar sua donzela. Talvez devesse ter procurado nos aposentos do Bispo, quem sabe ele não a abrigava em seus... estudos teológicos."
A cada palavra, Alvarenga fincava uma navalha no coração de Joaquim. A insinuação vil, a desonra lançada sobre Isabela, era um sacrilégio que ele jamais permitiria. O ódio que fervilhava em seu interior ameaçava explodir, mas a imagem de Isabela o impedia. Ele precisava ser forte, mais forte do que nunca. Precisava tirá-la dali, salvá-la daquele demônio.
Com um esforço colossal, Joaquim lutou contra a dor que lhe dilacerava os músculos. A queda da garganta da cachoeira, um mero deslize em sua perseguição incansável, havia cobrado seu preço. As costelas latejavam, e uma ferida profunda em seu braço esquerdo sangrava sem cessar, molhando a terra com o vermelho vivo. Mas a dor física era insignificante comparada à dor que lhe rasgava a alma.
"Solte-a, Alvarenga", a voz de Joaquim saiu grave, uma nota baixa e ameaçadora que surpreendeu até a si mesmo. Não era o clamor desesperado que esperava, mas sim a ressonância de uma fúria contida, a promessa de uma tempestade que se anunciava.
Alvarenga riu novamente, um som seco e cruel. "Soltar? E deixar que você a leve para seus braços? Que absurdo! Ela agora pertence a mim, como tudo que é belo e precioso neste mundo. A realeza, a riqueza, a própria Isabela. Tudo está em minhas mãos." Ele apertou Isabela em seu abraço, e um gemido escapou dos lábios dela, um fio de som que fez Joaquim ranger os dentes.
A visão de Isabela, pálida e trêmula, com o vestido rasgado e o olhar perdido, alimentava a raiva que Joaquim tentava dominar. Ele sabia que não poderia vencê-lo em combate direto naquele estado. Alvarenga, embora um canalha, era um guerreiro habilidoso e fisicamente mais forte. A astúcia, a inteligência que lhe valeram o apelido de "Falcão", precisavam ser suas aliadas agora.
"Você se ilude, Alvarenga", disse Joaquim, dando um passo hesitante para frente, a mão caindo instintivamente para a espada que jazia perto de seu corpo. "O que você pensa que possui é apenas uma casca vazia. O coração dela não lhe pertence, nem jamais pertencerá."
"Oh, mas o corpo sim, meu caro Joaquim", Alvarenga retrucou, deslizando uma mão pela face de Isabela, que se encolheu. "E com o corpo, a honra, a reputação. Tudo que você preza tanto se desmoronará em pó. A corte inteira saberá que a donzela pura foi tocada por mim. E você, o grande Falcão, não pôde protegê-la."
Joaquim sentiu o peso das palavras. Alvarenga era cruel e conhecia seus pontos fracos. A reputação de Isabela, tão cuidadosamente guardada, era um alvo fácil para a maledicência da corte. Ele precisava pensar rápido. Se ele a levasse agora, ferido e vulnerável, a fuga seria arriscada, e Alvarenga, com seus homens, os alcançaria facilmente. A humilhação para Isabela seria ainda maior.
"Você quer vingança?", perguntou Joaquim, a voz embargada pela emoção. "Porque é isso que você busca, Alvarenga. Vingança por seus sonhos desfeitos, por sua ambição frustrada. Mas saiba que a vingança cega o homem, e você, cego, é um alvo fácil."
Alvarenga sorriu, um brilho perigoso em seus olhos. "E você, Joaquim? O que busca agora? Uma morte honrada? Ou a fuga covarde para se esconder em suas florestas?"
"Busco a verdade, Alvarenga. E a justiça." Joaquim olhou para Isabela, que começava a recobrar a consciência, os olhos fixos nele com uma mistura de esperança e terror. "E você está no meu caminho."
Joaquim precisava de um plano, de uma distração. Ele olhou ao redor, o cenário da cachoeira, antes um refúgio de paz, agora transformado em um palco de tragédia. A água que caía em cascata parecia zombá-lo, um sussurro constante de sua impotência.
Ele viu algo. Um feixe de luz solar refletindo em um pequeno pedaço de metal próximo a onde Alvarenga estava. Um pedaço da armadura de um dos homens de Alvarenga, que provavelmente havia caído durante a luta. Era arriscado, mas talvez fosse a única chance.
"Você se vangloria de suas conquistas, Alvarenga", disse Joaquim, sua voz ganhando um tom mais firme, tentando projetar confiança que não sentia. "Mas o que você realmente conquistou? Um pouco de terra, um título menor, o desprezo de todos que realmente importam. Você é um parasita, sugando a vida daqueles que são mais fortes."
Alvarenga se endireitou, a raiva começando a nublar seu rosto. "Cale a boca, seu bastardo! Você não sabe nada sobre mim!"
"Eu sei que você tem medo", continuou Joaquim, ignorando a explosão de Alvarenga. "Medo de nunca ser grande o suficiente, medo de que a corte o veja pelo que realmente é: um homem pequeno e mesquinho, desesperado por atenção. E para obter essa atenção, você usa a violência, a humilhação."
O silêncio se instalou, apenas quebrado pelo som da cachoeira. Alvarenga apertou os lábios, a face vermelha de raiva contida. Joaquim sabia que estava provocando o lobo, mas era a única maneira de ganhar tempo, de fazer com que Alvarenga baixasse a guarda.
"Você acha que pode me derrotar com palavras?", Alvarenga rosnou, soltando Isabela com um empurrão descuidado. Ela cambaleou, mas permaneceu de pé, os olhos fixos em Joaquim, um apelo mudo em seu olhar.
"Não com palavras, Alvarenga", respondeu Joaquim, seus olhos se fixando no pedaço de metal. "Mas a verdade, como a água, encontra seu caminho. E a sua verdade, a sua covardia e a sua crueldade, em breve serão expostas."
Nesse instante, com a precisão que lhe era característica, Joaquim deu um impulso com a perna boa, rolando pelo chão e agarrando o pedaço de metal polido. Era um fragmento de escudo, liso e reflexivo. Com um movimento rápido, ele o ergueu, direcionando a luz do sol para os olhos de Alvarenga.
A luz ofuscante fez Alvarenga recuar, cobrindo os olhos com a mão. A distração durou apenas um instante, mas foi o suficiente. Enquanto Alvarenga tentava se recuperar, Joaquim, com uma dor aguda irradiando de seu corpo, usou a mão livre para agarrar uma pedra pesada e pontiaguda. Ele a arremessou com toda a força que lhe restava contra o homem que segurava Isabela.
A pedra atingiu o braço de Alvarenga, que segurava Isabela, fazendo-o soltá-la com um grito de dor. Ela caiu no chão, mas rapidamente se levantou, correndo para os braços de Joaquim.
"Joaquim!", ela exclamou, os olhos marejados de alívio e preocupação.
Alvarenga, furioso, desembainhou sua espada, o aço reluzindo sob a luz filtrada pelas árvores. "Você vai se arrepender disso, Falcão! Todos vocês vão!"
Joaquim, com Isabela protegida atrás de si, lutou para ficar de pé. A dor era insuportável, mas a presença de Isabela, sua mão fria segurando seu braço, era um bálsamo que lhe dava forças. Ele sabia que a luta não havia terminado. Alvarenga, ferido e humilhado, estava mais perigoso do que nunca. E ele, Joaquim, precisava protegê-la, custasse o que custasse. A fúria silenciosa em seu peito havia se transformado em um urro de guerra. Ele não seria derrotado. Não hoje. Não enquanto Isabela precisasse dele. A dança macabra na clareira da cachoeira estava longe de terminar.