Entre Dores e Delírios da Corte
Capítulo 2 — A Mansão do Visconde e as Sombras do Passado
por Caio Borges
Capítulo 2 — A Mansão do Visconde e as Sombras do Passado
A carruagem do Visconde de Aragão rasgava as ruas de paralelepípedos do Rio de Janeiro com a pressa de quem quer exibir sua importância. O tilintar das ferraduras no chão, o ranger das rodas e o murmúrio das pessoas que se afastavam para dar passagem criavam uma sinfonia urbana que Elara absorvia com fascínio. A cidade, vista de dentro daquele veículo luxuoso, era um caleidoscópio de cores e sons: casas coloniais com janelas de gelosias, escravos carregando cestos nas cabeças, vendedores ambulantes apregoando seus produtos, monges em seus hábitos escuros e senhoras em vestidos elaborados, a espiarem de detrás das cortinas.
A mansão do Visconde era um colosso de pedra e madeira, situada em uma das ruas mais nobres da cidade, de frente para o mar. Uma escadaria imponente levava à porta principal, de onde emanava um ar de opulência e de poder. Ao descerem da carruagem, Elara sentiu o peso do olhar dos serviçais que se postavam em reverência. Eram muitos, escravos e livres, todos em silêncio, aguardando ordens.
“Bem-vinda a sua nova casa, Elara”, disse o Visconde, com um gesto amplo que abarcava toda a propriedade. “Espero que aqui encontres paz e segurança.”
O interior da mansão era tão impressionante quanto o exterior. Tetos altos, pisos de madeira polida, móveis entalhados, tapeçarias ricas e quadros a óleo que pareciam contar histórias de antepassados. Em cada canto, um símbolo de riqueza e de poder. Elara sentiu-se como uma intrusa naquele ambiente suntuoso, acostumada à simplicidade austera da Europa.
Constança, com seu semblante sempre preocupado, desfazia-se em instruções para os criados, garantindo que as malas de Elara fossem para o quarto designado. O Visconde, por sua vez, parecia alheio aos detalhes, mais interessado em suas próprias preocupações.
“Tenho negócios urgentes para tratar”, anunciou ele, dirigindo-se a Elara. “Senhora Constança cuidará de te acomodar. Mais tarde, te apresentarei a algumas pessoas importantes.”
Ele se afastou com passos firmes, deixando Elara com Constança e o silêncio expectante da mansão.
“Venha, minha menina”, disse Constança, a voz um pouco mais suave agora que estavam sozinhas. “Vamos ver seu quarto. Espero que seja do teu agrado.”
O quarto de Elara era grande, com uma cama de dossel imponente, uma escrivaninha de jacarandá e uma janela com vista para o mar. A luz do sol entrava pelas frestas das gelosias, criando um jogo de sombras dançantes no piso. Era um quarto de princesa, mas Elara sentia que a gaiola dourada poderia sufocá-la.
Enquanto Constança supervisionava a arrumação das malas, Elara caminhou até a janela. O mar, que antes representava liberdade, agora parecia uma barreira que a aprisionava naquela nova vida. Ela se lembrou do homem de armadura que vira no porto. Aquele olhar intenso, penetrante. Quem seria ele?
“Senhora Constança”, perguntou Elara, a voz um pouco trêmula. “Quem é o homem de armadura que estava no porto? O de cabelos escuros e olhar… intenso?”
Constança parou, o lenço que segurava nas mãos parou de se mexer. Ela hesitou por um momento antes de responder. “Esse é o Capitão Matias de Avelar. Um homem com um passado… complicado. Dão conta de sua bravura em combate, mas também de sua teimosia e de seu temperamento. O Visconde tem tido… alguns desentendimentos com ele.”
“Desentendimentos?”, repetiu Elara, o interesse atiçado.
“Sim. Questões de negócios, de terras. Avelar é um homem que não se curva facilmente a ninguém”, respondeu Constança, voltando a organizar as roupas de Elara. “É melhor que te mantenhas afastada dele, Elara. Ele não é do nosso meio. Seus caminhos são perigosos.”
As palavras de Constança, porém, serviram apenas para alimentar a curiosidade de Elara. Um homem perigoso, com um temperamento forte e desentendimentos com seu próprio pai. Ele representava o exato oposto da vida regrada e previsível que a aguardava.
Naquela noite, o Visconde de Aragão deu um jantar íntimo para poucas pessoas, mas de grande relevância. Elara, vestida com um elegante traje azul-marinho, sentiu o peso dos olhares sobre si ao entrar no salão principal. Era a nova joia da coroa, a filha do Visconde, recém-chegada da Europa.
Entre os convidados, alguns rostos familiares e outros completamente novos. O Senhor Francisco, um comerciante rico e influente, com um sorriso que não alcançava seus olhos. A Senhora Clara, uma viúva elegante e fofoqueira, cujo olhar perscrutador parecia ler os pensamentos de todos. E, para a surpresa e o choque de Elara, o Capitão Matias de Avelar.
Ele estava ali, em toda a sua imponência. A armadura fora substituída por um casaco escuro que realçava a força de seus ombros. Seus cabelos escuros estavam penteados para trás, revelando um rosto de traços fortes e marcados, com uma cicatriz sutil acima da sobrancelha esquerda. E seus olhos… aqueles olhos negros, intensos, pousaram em Elara por um instante que pareceu eterno.
O Visconde apresentou Elara aos convidados com uma cerimônia que a deixou desconfortável. “Minha filha, Elara, recém-chegada de Portugal. Uma dama de educação e finos costumes.”
Ao chegar a vez de apresentar Matias, o Visconde fez uma pausa. “E este é o Capitão Matias de Avelar, um homem com quem mantenho… negócios.” A palavra “negócios” foi dita com um tom de frieza que não passou despercebido por Elara.
Matias se aproximou de Elara, e um leve sorriso curvou seus lábios. “Senhorita Elara. É uma honra ter sua presença em nossa humilde corte.” Sua voz era grave e melodiosa, como o som de um tambor distante.
Elara sentiu o calor subir em suas bochechas. “O prazer é meu, Capitão.”
A conversa fluiu com uma formalidade artificial. Elara se sentia observada por todos, analisada. O Senhor Francisco tentava puxar conversa sobre os negócios de seu pai, a Senhora Clara lançava comentários disfarçados sobre sua origem europeia, e Matias… Matias a observava de vez em quando, com um ar enigmático.
Durante o jantar, um desentendimento sutil surgiu entre o Visconde e Matias. As discussões eram sobre uma concessão de terras e a exploração de minérios. O tom dos dois homens se elevava gradualmente, as palavras se tornavam mais afiadas.
“Vossa Excelência se esquece de que estas terras não pertencem apenas aos que as reivindicam no papel, mas aos que de fato as labutam e as defendem”, disse Matias, a voz firme e controlada, mas com um fio de aço.
“E eu me pergunto se Vossa Capitania tem o direito de questionar as decisões da Coroa e de seus representantes”, retrucou o Visconde, o rosto adquirindo uma coloração avermelhada.
Elara sentiu o ar ficar tenso. Constança lhe deu um leve toque no braço, um sinal para que se mantivesse calada e discreta. Mas Elara não conseguia. A energia que emanava daqueles dois homens era palpável, carregada de uma rivalidade que ia além dos negócios.
O jantar terminou em um clima de aparente normalidade, mas Elara sabia que algo mais profundo estava em jogo. O Capitão Matias de Avelar era uma força da natureza, um homem que não se deixava intimidar. E o fato de seu pai estar em conflito com ele a deixava apreensiva.
Mais tarde, enquanto se preparava para dormir, Elara sentou-se em sua escrivaninha. Pegou um papel e um lápis e começou a desenhar. Desenhou o rosto de Matias, os contornos fortes, os olhos misteriosos. Era um impulso incontrolável, um desejo de capturar a essência daquele homem que a perturbava e a atraía.
Ela sabia que a vida na corte seria tudo, menos monótona. Havia um jogo perigoso em andamento, e ela, involuntariamente, já se encontrava no centro dele. A mansão do Visconde, com sua opulência e suas sombras, seria o palco de novas descobertas e, talvez, de novos perigos. E o Capitão Matias de Avelar… ele seria a peça mais intrigante desse tabuleiro.