Entre Dores e Delírios da Corte
Capítulo 4 — A Sombra do Ataque e o Segredo da Família
por Caio Borges
Capítulo 4 — A Sombra do Ataque e o Segredo da Família
O grito do criado rasgou a noite, quebrando o encanto do jardim e a promessa silenciosa entre Elara e Matias. A notícia do ataque ao navio no porto caiu como um balde de água fria, dissipando a atmosfera de mistério e romance que pairava sobre eles. O Visconde de Aragão surgiu apressadamente, o rosto pálido e preocupado.
“O que aconteceu?”, perguntou ele, a voz tensa.
“Um navio mercante, Vossa Excelência! Foi abordado por piratas, dizem alguns. Outros falam em corsários holandeses. Levaram parte da carga e… houve mortos”, respondeu o criado, ainda ofegante.
O Visconde lançou um olhar sombrio para Matias, como se ele fosse o responsável por aquela desgraça. “Piratas? Ou talvez concorrentes que não sabem perder?”
Matias o encarou, os olhos negros faiscando. “Não me culpes por aquilo que não fiz, Aragão. Se queres respostas, vais ter de procurá-las naqueles que mais se beneficiam com o caos.”
“E tu, Capitão, não te beneficias do caos?”, retrucou o Visconde, a voz carregada de acusação.
Elara sentiu o estômago revirar. A antiga rivalidade entre seu pai e Matias voltava à tona, agora em um contexto de violência e perigo real.
“Chega!”, interveio Constança, que também se aproximara, o rosto marcado pela preocupação. “Não é hora de desentendimentos. Precisamos pensar no que fazer.”
O Visconde respirou fundo, tentando controlar sua raiva. “Tens razão, Constança. Capitão, espero que esta situação não te envolva diretamente.”
Matias deu um sorriso irônico. “A minha vida é o mar, Vossa Excelência. E o mar, infelizmente, é um palco de muitas surpresas.”
Elara observou a troca de olhares entre os dois homens, sentindo que havia muito mais por trás daquela discussão. Um segredo pairava no ar, um segredo que a envolvia, ela sentia, de alguma forma.
Na manhã seguinte, a notícia do ataque se espalhou como pólvora pela cidade. O porto estava em alvoroço, os comerciantes apreensivos, e o clima de insegurança se instalava. O Visconde de Aragão estava cada vez mais preocupado com seus próprios navios e mercadorias.
“É uma afronta à Coroa! Alguém tem de ser responsabilizado!”, disse ele, batendo na mesa do escritório com o punho.
Elara, sentada em um canto, observava o pai. Desde sua chegada, sentia uma frieza nele, uma distância que não conseguia explicar. Agora, via a preocupação genuína em seu rosto, mas também uma ponta de medo que a intrigava.
“Pai”, começou Elara, reunindo coragem. “Quem eram os atacantes? Sabem quem foram?”
O Visconde a olhou, surpreso com sua intromissão. “Não te preocupes com isso, Elara. São assuntos de homens de negócios e de marinheiros.”
“Mas se o ataque foi a um navio mercante, isso afeta a todos nós. E o Capitão de Avelar disse que alguém se beneficiava com o caos”, insistiu Elara.
O Visconde suspirou, sentando-se em sua poltrona. “Matias de Avelar é um homem amargurado. Ele acredita que alguém está tentando prejudicar os seus negócios, e vê conspirações em tudo. Mas ele próprio tem dívidas e inimigos, então não confio em suas palavras.”
“E a sua relação com ele, pai? Por que vocês se desentendem tanto?”
O Visconde hesitou. Seu olhar se perdeu em algum ponto distante. “São questões antigas, Elara. Coisas que não te dizem respeito.”
Mas Elara sentiu que era uma resposta incompleta. Havia uma história por trás daquelas palavras, uma história que a envolvia de alguma forma.
Nos dias seguintes, o Visconde se dedicou a investigar o ataque, reunindo-se com autoridades e comerciantes. Matias, por sua vez, parecia ter sumido dos círculos sociais. Elara o via raramente, e quando o encontrava, ele parecia mais sombrio e reservado do que nunca.
Em uma tarde chuvosa, enquanto explorava os cômodos menos utilizados da mansão, Elara encontrou uma porta trancada. A curiosidade a impeliu. Com uma chave que encontrou escondida em um vaso antigo, ela abriu a porta.
O quarto estava empoeirado, cheio de caixas e papéis antigos. No centro, uma mesa antiga com um tinteiro de prata e uma pena. Em uma das caixas, Elara encontrou um diário. As páginas amareladas estavam repletas de uma caligrafia elegante e delicada. Era o diário de sua mãe.
O Visconde de Aragão casara-se com uma mulher chamada Cecília, que falecera anos antes, em circunstâncias misteriosas. Elara, que crescera com a ideia de que sua mãe morrera de uma doença súbita, ficou chocada ao ler as anotações de Cecília.
“Meu amado Visconde, minha saúde declina a cada dia. Temo que este mal que me consome não seja natural. Sinto olhares sobre mim, sussurros que me acusam. O Visconde parece alheio, ou talvez, finge alheio. Sinto que algo terrível está para acontecer.”
Em outra página:
“O Capitão de Avelar me procurou hoje. Um homem rude, mas com um olhar sincero. Ele me ofereceu ajuda, disse que sabe que não estou segura. Mas como confiar em um homem que meu marido tanto despreza?”
Elara sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Sua mãe conhecera Matias de Avelar? E ela temia por sua vida? O que seu pai sabia?
As palavras do diário se encaixavam com o que Constança havia dito sobre a morte misteriosa de sua mãe. E o envolvimento de Matias naquele passado distante.
Com o coração apertado, Elara continuou a ler. O diário revelava um segredo doloroso: Cecília estava secretamente apaixonada por outro homem, um homem que não era o Visconde, e que ela apenas vislumbrava em segredo. As descrições eram vagas, mas Elara sentiu uma ponta de reconhecimento.
“Ele é a minha única alegria. Nos encontramos às escondidas, sob o véu da noite. Sinto que ele é a única pessoa neste mundo que realmente me vê, que me ama por quem sou.”
Quem era esse homem misterioso? Seria ele a chave para entender o ódio do Visconde por Matias?
Em meio aos papéis antigos, Elara encontrou também um medalhão. Ao abri-lo, viu duas miniaturas: uma de sua mãe, Cecília, e outra de um homem jovem, com traços fortes e um olhar intenso. O mesmo olhar que ela vira em Matias de Avelar.
Era impossível. Matias seria o homem que sua mãe amava? Seria ele o pai verdadeiro de Elara?
A revelação a atingiu como um raio. Tudo fez sentido: a atração inexplicável que sentia por Matias, a rivalidade entre ele e seu pai, a preocupação velada de Cecília em seu diário.
Ela saiu do quarto secreto, o medalhão apertado em sua mão. O mundo de Elara desmoronara. A imagem de seu pai, o Visconde, mudou drasticamente em sua mente. Ele não era apenas um pai distante, mas talvez um homem que escondia um segredo sombrio, um segredo que envolvia a morte de sua esposa e a verdadeira paternidade de sua filha.
Naquele momento, Matias de Avelar surgiu no corredor, como se pressentisse a turbulência em que Elara se encontrava. Ele a viu, o medalhão em sua mão, o choque estampado em seu rosto.
“Elara… o que encontraste?”, perguntou ele, a voz grave e cheia de uma emoção que ele tentava disfarçar.
Elara o encarou, as lágrimas rolando por seu rosto. “Tu… tu a conheceste. Tu a amaste, não foi? Minha mãe.”
Matias desviou o olhar, a dor estampada em seu rosto. Ele não precisou responder. O silêncio, o olhar perdido, confirmavam tudo.
“E tu… és o meu pai, não és?”, a pergunta saiu como um lamento.
Matias olhou para Elara, os olhos negros marejados. A máscara de impaciência e de força que ele sempre usava desmoronou, revelando um homem atormentado.
“Elara… a verdade é mais complexa do que imaginamos”, disse ele, a voz embargada. “O teu pai, o Visconde, amava Cecília à sua maneira. Mas ela… ela amava a mim. E quando ela soube que esperava uma filha, temeu pela vida de ambas. O Visconde jamais aceitaria um filho que não fosse dele. Ela confiou em mim, pediu-me que te protegesse. E eu jurei que o faria. A morte dela… não foi natural. Foi um crime. E o Visconde… ele sabe mais do que conta.”
O mundo de Elara girou. As peças do quebra-cabeça se encaixaram, formando um quadro de traição, amor e morte. O ataque ao navio, a rivalidade com seu pai, tudo ganhava um novo significado. O segredo que ela descobrira na mansão do Visconde era muito maior do que imaginava, e a colocava diretamente no centro de um perigo ainda maior.