Entre Dores e Delírios da Corte

Capítulo 7 — O Preço da Fuga e os Sussurros da Traição

por Caio Borges

Capítulo 7 — O Preço da Fuga e os Sussurros da Traição

A madrugada trouxe consigo o frio da mata e a sombria realidade da fuga. O beijo de Rodrigo, um interlúdio doce e perturbador, agora pairava na memória de Isabela como uma lembrança fugaz, um vislumbre de um paraíso que ela temia não poder alcançar. A jornada recomeçara antes mesmo que o sol tingisse o céu de laranja, o ar gélido picando a pele e a incerteza pesando sobre seus ombros. Rodrigo, impecável em sua determinação, liderava o pequeno grupo, seus homens movendo-se com a discrição de sombras na penumbra.

“Precisamos manter o ritmo”, disse Rodrigo, a voz firme, mas sem a suavidade de antes. O peso da responsabilidade parecia ter retornado a seus ombros. “Quanto mais longe estivermos, mais seguros estaremos.”

Isabela assentiu, o corpo dolorido e os músculos fatigados, mas a mente alerta. Ela observava Rodrigo com uma atenção crescente. Aquele homem, que a poucas horas atrás lhe roubara o fôlego com um beijo inesperado, agora era o guardião implacável de sua liberdade. A dualidade nele a intrigava e a assustava. Ele era capaz de ternura e ferocidade, de compaixão e de uma frieza calculista.

“Para onde vamos, Rodrigo?”, ela perguntou, a voz um pouco trêmula. A floresta, embora ainda bela, começava a parecer um labirinto sem fim, e a falta de um destino claro a deixava apreensiva.

Ele a olhou por um instante, um vislumbre de algo indecifrável em seus olhos. “Para longe. Para um lugar onde o Visconde e seus homens não se atrevam a nos procurar. Tenho contatos, aliados que me devem favores. Encontraremos um porto seguro.”

As palavras soaram promissoras, mas a ansiedade persistia. Isabela sabia que a liberdade, conquistada a tanto custo, tinha um preço. E ela temia que esse preço pudesse ser mais alto do que ela estava preparada para pagar. A cada passo, os fantasmas do passado pareciam segui-la. A imagem do Visconde, com seu olhar avarento e suas ameaças veladas, a perturbava. O que ele faria quando descobrisse sua fuga? A sua fúria seria o prenúncio de uma caçada implacável?

Durante o dia, o cansaço se tornou um fardo mais pesado. A fome apertava, e a água, embora abundante no riacho, não saciava a sede que se instalara em sua garganta. Rodrigo tentava manter o ânimo do grupo, compartilhando o pouco alimento que tinham, mas a tensão era palpável. Ele parecia pressentir algo, seus olhos varrendo constantemente a mata circundante.

Ao cair da tarde, encontraram um pequeno rochedo que oferecia abrigo natural. Fizeram uma fogueira discreta, mais para afastar o frio do que para cozinhar, pois a comida era escassa. Isabela, sentada perto de Rodrigo, sentia o corpo vibrar de exaustão. Ele lhe ofereceu um pedaço de carne seca, um gesto que ela aceitou com gratidão, mas o sabor amargo da escassez a acompanhava.

“Não podemos continuar assim por muito tempo”, disse um dos homens de Rodrigo, um sujeito robusto com uma cicatriz no rosto. “O risco de sermos descobertos aumenta a cada dia que permanecemos expostos.”

Rodrigo assentiu, o olhar fixo na escuridão que se adensava. “Eu sei, Bento. Mas a pressa pode ser nossa pior inimiga. Precisamos ter certeza de que estamos realmente seguros antes de nos aproximarmos de qualquer povoado.”

Isabela sentia um nó na garganta. A ideia de ficar presa novamente, mesmo que temporariamente, a apavorava. Ela se voltara para Rodrigo, encontrando seu olhar no escuro.

“Há algo que o preocupa mais do que apenas sermos encontrados, não é?”, perguntou ela, a voz baixa.

Rodrigo suspirou, um som pesado que se perdeu no crepitar da fogueira. “Sempre há. A questão agora é quem nos persegue. O Visconde… ele não é um homem que desiste fácil. E ele tem recursos.”

De repente, um som seco quebrou o silêncio da mata. Um estalo de galho, muito perto. Todos congelaram. Os homens de Rodrigo sacaram suas armas em um movimento rápido e silencioso. Rodrigo se levantou, a mão no punho de sua espada.

“Quem está aí?”, gritou ele, a voz tensa.

Nenhuma resposta. Apenas o farfalhar das folhas, que poderia ser o vento, ou algo mais sinistro. O medo, que parecia ter sido temporariamente acalmado pela floresta, retornou com força avassaladora.

“Parece que não estamos sozinhos”, disse Bento, a voz baixa e grave. “E não parecem ser os homens do Visconde. Os sons… são diferentes.”

Rodrigo fez um sinal para que todos se preparassem. A noite, antes um manto protetor, agora se tornara uma armadilha. A incerteza sobre a identidade dos possíveis perseguidores era mais assustadora do que qualquer ameaça conhecida.

Enquanto a tensão aumentava, Isabela sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Algo mais a incomodava. Uma sensação de traição. Ela lembrou-se das palavras de Rodrigo sobre contatos e aliados. Seria possível que alguém de seu círculo de confiança tivesse entregado sua localização? A possibilidade a encheu de um frio ainda maior do que a ameaça iminente da mata.

“Rodrigo”, ela chamou, a voz embargada pela ansiedade. “Você disse que tinha aliados. Que confiaria neles. Alguém de sua confiança sabia de nossa fuga?”

Ele a olhou, seus olhos escuros penetrantes na escuridão. Havia uma relutância em sua resposta, uma hesitação que não passou despercebida por Isabela.

“Eu confio em poucas pessoas, Isabela. Mas sim, eu informei uma pessoa sobre o nosso possível destino. Alguém que poderia nos ajudar a cruzar a fronteira. Mas ele jamais…”, ele parou, como se hesitasse em concluir o pensamento.

“Ele jamais o quê, Rodrigo?”, insistiu Isabela, o coração batendo descompassado. “Jamais nos trairia?”

O silêncio dele foi a resposta mais devastadora. Um som de passos apressados na mata agora era inconfundível. Não eram muitos, mas eram ágeis e determinados. A escuridão, antes um escudo, agora era um véu que escondia inimigos desconhecidos.

“Preparem-se para lutar”, disse Rodrigo, a voz fria e resoluta. Ele se virou para Isabela, um olhar de preocupação em seus olhos. “Você precisa se afastar. Encontrar um lugar para se esconder. Não quero que se machuque.”

“Não, Rodrigo! Eu fico com você!”, exclamou Isabela, determinada. O medo ainda estava presente, mas a vontade de lutar ao lado dele era mais forte. Ela não seria mais uma donzela indefesa.

Ele a segurou pelos braços, o aperto firme. “É perigoso demais. Você não está acostumada com isso. Fique atrás das pedras. Se a situação piorar, fuja. Entendeu?”

Antes que ela pudesse responder, as primeiras figuras emergiram da escuridão. Não eram os capangas rudes do Visconde, mas homens bem armados, com um uniforme que Isabela não reconheceu. Havia um brilho frio em seus olhos, uma eficiência brutal que a deixou gelada. A traição, confirmada pela presença desses estranhos, a atingiu como um golpe físico.

Rodrigo e seus homens se posicionaram, prontos para o embate. Isabela, com o coração disparado, correu para a proteção das pedras, o som das espadas se chocando ecoando pela mata. Ela se encolheu, os olhos fixos na luta que se desenrolava, sentindo a amarga constatação de que a liberdade, tão almejada, estava agora em maior perigo do que nunca. A floresta, antes um abraço, transformara-se em um campo de batalha.

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