A Promessa da Capitania Real

Capítulo 1

por Caio Borges

Claro, meu caro leitor. Prepare-se para mergulhar em um tempo de paixões proibidas, intrigas sombrias e um destino incerto nas terras de uma colônia que ainda se moldava sob o jugo de uma coroa distante. Eis os primeiros capítulos de "A Promessa da Capitania Real".

Capítulo 1 — O Cheiro de Sal e Pecado

O sol, um disco incandescente pregado no céu azul sem nuvens, castigava a baía de Salvador com um calor que parecia derreter as pedras da Ribeira. De dentro do casarão imponente, com suas janelas de verga salpicadas de escamas de peixe e o cheiro adocicado de flores tropicais misturado ao salgado que subia do mar, Dona Isabel de Aragão sentia a opressão do dia. A brisa, quando chegava, trazia consigo o murmúrio constante das ondas e o burburinho dos pescadores que lutavam com suas redes nas águas rasas. Mas hoje, nem a brisa trazia alívio. A ansiedade pesava em seu peito como uma âncora enferrujada.

Ela percorria o salão principal, um espetáculo de riqueza colonial: móveis de jacarandá polido, tapeçarias flamengas que pareciam deslocadas no clima tropical, e retratos de antepassados de semblantes severos que a observavam em silêncio. A seda de seu vestido longo e bordado parecia grudar em sua pele, um lembrete constante da vida que levava, envolta em luxo e expectativas sufocantes.

“Mãe, o que tanto a aflige?”, a voz suave de sua filha, Mariana, ecoou pela sala. A jovem, com seus dezesseis anos, era um raio de sol em meio à melancolia da mãe. Seus cabelos negros caíam em cascata sobre os ombros, emoldurando um rosto de beleza ímpar, ainda com a inocência da juventude, mas com um brilho nos olhos que denunciava uma inteligência perspicaz.

Dona Isabel suspirou, parando diante de um grande espelho ornamentado. Refletida ali, via uma mulher de quarenta anos, com os traços ainda belos, mas marcados pela preocupação. Seus olhos escuros, antes vivazes, agora carregavam a sombra de segredos e tristezas. “Apenas o peso dos dias, minha filha. As responsabilidades que recaem sobre nós.”

Mariana aproximou-se, pegando a mão da mãe. Era uma mão delicada, mas firme, que carregava as marcas do trabalho, mesmo que velado pela nobreza. “Parece mais do que ‘o peso dos dias’, mãe. O Capitão-Mor não virá hoje?”

O nome do Capitão-Mor, D. Rodrigo de Alcântara, fez Dona Isabel estremecer levemente. D. Rodrigo, seu marido, o homem que a havia trazido para esta terra estranha há mais de vinte anos, era uma figura imponente e complexa. Um homem de poder, de ambição, mas também de um temperamento volátil e um coração que parecia ter se endurecido com o tempo e as responsabilidades da Capitania. O casamento deles, um arranjo político para unir famílias influentes e consolidar o poder da coroa, nunca fora um romance. No início, havia uma admiração mútua, um respeito… mas o amor, esse, nunca floresceu verdadeiramente entre eles. Pelo menos, não da forma que Dona Isabel sonhara em seus anos de juventude em Portugal.

“Ele… ele está ocupado com assuntos da Capitania. Sabe como é, Mariana. Sempre há um desafio, um problema a ser resolvido.” Ela tentou soar casual, mas a verdade era que a ausência de D. Rodrigo, que se tornara frequente nos últimos meses, não era apenas uma questão de trabalho. Havia um véu de mistério sobre ele, uma distância que a consumia.

“Assuntos da Capitania… ou assuntos de outra natureza, mãe?”, Mariana perguntou, com uma malícia inocente que desarmou a mãe por um instante. Os olhos da filha a perscrutavam, cheios de uma sabedoria que parecia ultrapassar sua pouca idade.

Dona Isabel desviou o olhar, voltando-se para uma tapeçaria que retratava uma cena de caça. “Não fale bobagens, Mariana. Seu pai é um homem honrado, dedicado ao Rei e a esta terra.” Mentira. Uma mentira que ela precisava acreditar, para si mesma e para a filha. A honra de D. Rodrigo era algo que ela questionava cada vez mais em seu íntimo.

“Honrado… mas distante”, Mariana murmurou, mais para si mesma do que para a mãe. Ela sabia. Sentia as tensões no ar, as conversas sussurradas entre os criados, os olhares apreensivos de sua mãe. Era difícil ser uma jovem à beira de se tornar uma mulher em uma sociedade onde as aparências eram tudo, e os segredos, o pão de cada dia.

Um burburinho agitado na entrada do casarão quebrou o silêncio tenso. Um criado apressado surgiu, o suor escorrendo por sua testa, com um ar de urgência. “Senhora! Uma carruagem acaba de chegar, e… é o Capitão-Mor!”

Um misto de alívio e apreensão tomou conta de Dona Isabel. Finalmente, ele estava ali. Mas a urgência na voz do criado não era um bom presságio. Ela alisou o vestido, respirou fundo e tentou recompor a serenidade. “Mariana, vá se arrumar. Prepare-se para receber seu pai.”

A jovem assentiu, mas seus olhos ainda mantinham a desconfiança. Ela conhecia o pai, e sabia que as visitas inesperadas, especialmente em momentos de tanto segredo, raramente traziam boas novas. Enquanto Mariana se retirava, Dona Isabel caminhou em direção à porta principal, o coração batendo mais rápido.

D. Rodrigo de Alcântara desceu da carruagem com a agilidade de um homem bem mais jovem. Alto, de ombros largos, com um rosto marcado por batalhas e pelo sol inclemente, ele ostentava a autoridade de quem detinha o poder. Sua barba escura, salpicada de grisalhos, emoldurava uma boca firme, que raramente se curvava em um sorriso. Vestia roupas de boa qualidade, mas sem ostentação, denotando um homem pragmático.

“Isabel”, ele disse, a voz rouca e grave, sem traço de afeto. Era um cumprimento, nada mais.

“Rodrigo. Que surpresa. Pensei que estaria ocupado.” Dona Isabel tentou manter a voz firme, mas a rigidez em sua postura entregava sua inquietação.

Ele a dispensou com um gesto impaciente. “Assuntos que não podem esperar. Há notícias preocupantes da fronteira. Rumores de que os franceses estariam se movendo novamente, buscando se estabelecer mais ao norte.”

Seus olhos escuros vasculharam o rosto de Dona Isabel, como se procurasse nela alguma falha, alguma fraqueza. Era um olhar que a desnorteara desde o início de seu casamento. Um olhar que parecia sempre julgar, sempre pesar.

“Franceses? De novo?”, Dona Isabel perguntou, fingindo surpresa. Ela sabia que a rivalidade entre Portugal e França naquelas terras era antiga e perene. Mas a menção parecia um pretexto.

“Sim. E temo que não sejam apenas rumores. Algumas informações me chegam de que um navio de corsários, de bandeira francesa, foi avistado perto da costa de Porto Seguro. Se eles conseguirem se estabelecer… seria um desastre para a Capitania.” Ele caminhou para dentro do casarão, Dona Isabel o seguindo a contragosto. O cheiro de sal e pecado, que antes a sufocava, agora parecia emanar dele, um odor de perigo e segredo.

O salão, antes um refúgio de relativa paz, agora parecia tenso com a presença dele. Os criados se moviam com discrição, mas Dona Isabel sentia seus olhares discretos, curiosos, e talvez, temerosos.

“E o que pretende fazer?”, ela perguntou, sentando-se em uma poltrona de jacarandá, a postura tensa.

D. Rodrigo parou diante dela, o corpo imponente projetando uma sombra sobre a luz que entrava pelas janelas. “Preciso tomar providências. Reforçar as defesas. Talvez enviar uma expedição para investigar. E… preciso de um navio. Um navio confiável e rápido.” Ele a encarou diretamente, e Dona Isabel sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

“Um navio? Mas… para quê?”, ela gaguejou.

“Para assuntos que não dizem respeito a você, Isabel. Apenas saiba que o perigo é real. E que a Capitania precisa estar preparada.” Ele suspirou, passando a mão pela testa, em um gesto de cansaço. “Tenho que ir até o porto. Preciso falar com certos homens. E… preciso de recursos.”

Ele deu um passo em direção a ela, e Dona Isabel sentiu-se presa em seu olhar. Era um olhar de exigência, de autoridade incontestável. Mas, naquele instante, por um breve momento, ela vislumbrou algo mais. Uma vulnerabilidade, talvez? Um desespero velado?

“Recursos…”, ela repetiu, o tom baixo.

“Sim. O ouro que guardamos. Preciso dele para financiar a expedição, para subornar informantes, para garantir que a Capitania permaneça segura.” Ele se aproximou ainda mais, seus olhos fixos nos dela. “E preciso que você não faça perguntas, Isabel. Apenas confie em mim.”

Confiar nele. A palavra ecoou em sua mente como um eco distante, quase inaudível. Confiar em um homem que se tornara um estranho em sua própria casa? Um homem cujo coração ela nunca conhecera verdadeiramente?

“Eu…”, ela começou, mas as palavras morreram em sua garganta.

“Não há tempo para hesitações, Isabel. A segurança de todos depende disso. Do meu sucesso.” Ele deu as costas, um movimento brusco, e dirigiu-se para a porta. “Prepare o que for necessário. Voltarei mais tarde.”

E, antes que Dona Isabel pudesse sequer murmurar uma resposta, ele saiu, deixando-a sozinha no salão, com o eco de suas palavras e a inquietude que agora se tornara uma presença física em seu peito. O cheiro de sal e pecado pairava no ar, um presságio sombrio do que estava por vir. Ela sabia que o pedido dele ia além do ouro. Ele queria seu silêncio, sua cumplicidade em algo que ela não ousava imaginar. E, naquelas terras de sol impiedoso e segredos profundos, o silêncio podia ser o mais perigoso de todos os pecados.

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