A Promessa da Capitania Real

Capítulo 12 — O Sussurro da Inquisição

por Caio Borges

Capítulo 12 — O Sussurro da Inquisição

O salão principal do casarão, outrora um palco de alegrias e fartura, agora exalava um ar de solenidade sombria. As velas tremeluziam, lançando sombras dançantes sobre os rostos reunidos. Clara, sentada à cabeceira da mesa improvisada, observava Elias. O homem, ainda pálido e visivelmente abalado, segurava uma caneca de vinho com as mãos trêmulas. Ao seu lado, Mateus mantinha uma mão firme em seu ombro, transmitindo um apoio silencioso. Os escravizados libertos, agora com roupas limpas e comida no estômago, estavam sentados em um canto, seus olhos atentos fixos em Elias.

"Conte-nos tudo, Elias", Clara pediu, a voz firme, mas com um toque de apreensão. "Desde o início."

Elias inspirou profundamente, o som áspero rompendo o silêncio tenso. "Eu era um dos carpinteiros que trabalhavam na reforma da Capitania Real. Fui levado para lá contra a minha vontade, sob a ameaça de... de acusações que não cometi. Fui trancado em uma cela escura, sem comida, sem água, esperando o pior."

Ele fez uma pausa, o olhar perdido em alguma memória terrível. Mateus apertou seu ombro.

"E então?", incentivou Clara, a curiosidade aguçada pela menção de acusações falsas.

"Naquela noite", Elias continuou, a voz ganhando um tom mais firme, "ouvi um barulho vindo do corredor. Portas se abrindo, passos apressados. Não eram os guardas habituais. Eram vozes que eu não conhecia, falando em um idioma estranho, mas com uma crueldade que não deixava dúvidas."

Ele olhou para os escravizados libertos. "Ouvi gritos. Gritos de dor, de desespero. Gritos que reconheci como os de muitos que conhecia, levados para o navio negreiro."

Um suspiro coletivo percorreu o salão. A confirmação de que os horrores que eles haviam vivido eram parte de um plano orquestrado, e não um mero acidente, era devastadora.

"Mas o que mais me chocou", Elias baixou a voz, como se temesse ser ouvido por alguém, "foi o que vi pela fresta da minha cela. Um homem. Um homem com um manto escuro, com um símbolo estranho no peito. Ele estava conversando com o capitão da guarda. E o que ele disse... o que ele disse foi o que me fez entender tudo."

Clara inclinou-se para frente. "O que ele disse, Elias?"

"Ele falava sobre a 'purificação'. Sobre a necessidade de 'limpar a terra' de influências impuras. Ele mencionou o nome da 'Santa Inquisição', e disse que essa expedição era apenas o começo. Que a Capitania Real, por sua localização e importância, era um ponto estratégico para a expansão da 'verdadeira fé'."

O nome "Santa Inquisição" ressoou no salão como um trovão. Clara sentiu um arrepio de terror genuíno. A Inquisição, o terror que assombrava os reinos europeus, parecia ter chegado àquelas terras distantes, com um propósito ainda mais sombrio do que o imaginado.

"Inquisição?", Mateus repetiu, a incredulidade em sua voz. "Mas o que eles teriam a ver com navios negreiros e ataques a propriedades?"

"Não era apenas sobre escravidão, capitão", Elias explicou, a urgência em sua voz crescendo. "O homem falava em 'eliminar as sementes do mal'. Ele mencionou que muitas das pessoas que estavam sendo traficadas eram, na verdade, 'hereges' ou 'próximas de práticas proibidas'. E que alguns dos senhores desta terra, incluindo o seu pai, menina Clara, eram considerados 'dissidentes' e precisavam ser 'corrigidos'."

As palavras de Elias caíram como pedras no estômago de Clara. Seu pai, Dom Manuel, um homem de fé inabalável, um protetor de sua gente, um herege? A ideia era absurda e revoltante.

"Isso é um absurdo!", Clara exclamou, a voz embargada pela raiva e pela dor. "Meu pai nunca seria um herege! Ele era um homem de princípios, um homem de Deus!"

"Eu sei, menina Clara", Elias disse com gentileza. "Mas o homem que eu vi, ele falava com uma autoridade assustadora. Ele estava acompanhado por outros homens vestidos de forma semelhante, e eles pareciam ter o poder de dar ordens aos guardas da prisão. O capitão da guarda estava com medo. Eu o vi tremer."

Mateus se levantou, o semblante preocupado. "Então, o ataque à Capitania Real não foi um roubo comum. Foi uma ação orquestrada pela Inquisição, para eliminar seu pai e tomar controle da região, usando o tráfico de escravizados como disfarce?"

"Não apenas para eliminar meu pai", Clara acrescentou, a mente trabalhando febrilmente. "Se eles queriam 'purificar' a terra, então todos aqueles que eles consideravam 'impuros' poderiam ser alvos. Os escravizados, os que tinham crenças diferentes, os que se opunham à autoridade deles."

Ela olhou para Mateus. "Lembre-se do que o Sargento Mor Ramiro disse. Havia um símbolo estranho nos uniformes de alguns dos atacantes. Um símbolo que ele não soube identificar."

"Um manto escuro, com um símbolo estranho no peito", Elias confirmou, com os olhos arregalados. "Era o mesmo símbolo que vi no manto do homem que falava com o capitão da guarda."

Clara sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Aquela insígnia era a marca da Inquisição. Eles não estavam lidando apenas com criminosos, mas com um poder sombrio e implacável que se estendia por terras distantes.

"Precisamos saber que símbolo é esse", Mateus disse, o tom de sua voz agora carregado de uma urgência sombria. "E precisamos saber quem é esse homem do manto escuro. Ele é a chave para tudo isso."

Elias hesitou, o olhar desviando para a janela escura. "Ele... ele tinha um olhar peculiar. E falava com uma voz profunda, como se estivesse acostumado a dar ordens. Ele se referiu a mim uma vez, quando me viu pela fresta. Chamou-me de 'o desobediente'."

"O desobediente", Clara repetiu, a palavra ecoando em sua mente. Havia um significado oculto ali, uma pista que ela não conseguia decifrar.

"Elias", ela disse, sua voz firme e determinada, "você reconheceria esse homem se o visse novamente?"

"Eu não esquecerei aquele rosto, senhora Clara. Nem aquele olhar frio."

Mateus se aproximou de Clara, pegando suas mãos. "Clara, isso é mais perigoso do que imaginávamos. A Inquisição... eles não brincam. Eles têm recursos e poder que vão muito além do que podemos compreender."

"Eu sei, Mateus", ela respondeu, o olhar fixo nos dele. "Mas meu pai foi morto por eles. Essas pessoas foram escravizadas por eles. Nós não podemos recuar. Precisamos descobrir quem é esse homem, qual é o alcance deles, e como podemos detê-los."

Ela olhou para os escravizados libertos, para seus rostos marcados pela dor, mas agora também pela esperança que Elias trouxe. "Nós lutamos por justiça. E a justiça, às vezes, exige que enfrentemos as sombras mais profundas."

Naquela noite, o sono foi escasso. Clara e Mateus conversaram até o amanhecer, planejando os próximos passos. A chegada de Elias havia jogado uma luz sombria sobre o que realmente acontecera, mas também havia acendido uma faísca de esperança. A promessa da Capitania Real não era apenas sobre terra e prosperidade, mas sobre liberdade e a luta contra a opressão. E agora, a sombra da Inquisição se estendia sobre essa promessa, tornando a luta ainda mais perigosa e urgente. O segredo da senzala, outrora escondido na escuridão, agora emergia, trazendo consigo a ameaça de um mal antigo e implacável.

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