A Promessa da Capitania Real

Capítulo 2 — O Segredo do Manguezal

por Caio Borges

Capítulo 2 — O Segredo do Manguezal

A noite desceu sobre Salvador como um manto escuro e úmido, trazendo consigo uma brisa morna que agitava as folhas das mangueiras e sussurrava segredos pelas ruas de paralelepípedos. A lua, um crescente pálido, mal conseguia perfurar a densidade da escuridão, lançando sombras fantasmagóricas sobre os casarões coloniais e os becos estreitos.

No casarão da família Alcântara, a tensão permanecia palpável. D. Rodrigo não havia retornado. Dona Isabel, após um jantar solitário, onde a comida parecia insípida e o silêncio dos criados, ensurdecedor, havia se retirado para seus aposentos. A luz bruxuleante de uma lamparina de azeite lançava um brilho trêmulo sobre as paredes, realçando a solidão do quarto.

Ela não conseguia dormir. Cada rangido da madeira, cada sopro de vento, parecia amplificado, alimentando sua apreensão. As palavras de D. Rodrigo ecoavam em sua mente: “Preciso de um navio. Um navio confiável e rápido.” Por que ele precisava de um navio com tanta urgência? E por que o segredo? Ele falara de franceses, de ameaças à Capitania, mas havia algo em seu olhar, em sua pressa, que não se encaixava. Algo que cheirava a mais do que patriotismo.

Mariana, percebendo a angústia da mãe, apareceu à porta de seus aposentos, o rosto jovem e preocupado iluminado pela lamparina. “Mãe? Ainda acordada?”

Dona Isabel tentou um sorriso, mas ele não alcançou seus olhos. “Não consigo conciliar o sono, minha filha. As preocupações deste dia.”

Mariana entrou no quarto, sentando-se na beira da cama. A proximidade da filha era um bálsamo em meio à sua angústia. “O Capitão-Mor… ele ainda não voltou?”

“Não. E não sei quando voltará.” Dona Isabel suspirou, sentindo um nó na garganta. A ideia de confrontá-la com suas suspeitas era dolorosa, mas a solidão a impelia a buscar conforto. “Mariana, você tem notado algo estranho em seu pai ultimamente?”

A jovem hesitou por um instante, os olhos escuros pensativos. Ela era jovem, mas observadora. Sentia as rachaduras na fachada de seu pai há tempos. “Ele… tem estado mais ausente. E quando está em casa, parece preocupado, impaciente. E as conversas com alguns homens… parecem sigilosas. Pensei que fosse o peso da Capitania.”

“Eu também pensei. Mas hoje… ele pediu algo peculiar. Disse que precisava de um navio. E de recursos. O ouro que guardamos. Para assuntos urgentes, mas não me deu detalhes.” Dona Isabel sentiu um frio na espinha ao admitir aquilo. O ouro que seu pai, um rico mercador português, lhe deixara como dote, e que D. Rodrigo administrava, era a fortuna de sua família. Era o sustento delas.

Mariana franziu a testa. “Ouro? E um navio? Para quê, mãe? Se os franceses ameaçam, não seria mais prudente usar os recursos da coroa?”

“É o que me pergunto, minha filha. Há algo que ele não me conta.” Dona Isabel entrelaçou as mãos, os dedos tensos. “Senti em seu olhar… algo mais do que preocupação com a Capitania. Uma urgência. Um segredo.”

Um silêncio pesado pairou entre elas. Naquele tempo, a desconfiança em relação aos homens da família era uma afronta à ordem. Mas a realidade de Dona Isabel era um casamento de conveniência, um marido poderoso e distante. O amor, a confiança, eram luxos que ela raramente podia desfrutar.

“Talvez… talvez possamos descobrir algo, mãe”, Mariana disse, a voz baixa, mas determinada. “Se o navio é tão importante, talvez ele esteja no porto agora. Ou talvez… talvez alguém que ele encontra saiba mais.”

Dona Isabel olhou para a filha, surpresa pela ousadia. Mariana, sua doce e inocente Mariana, possuía uma centelha de rebeldia que a mãe admirava e, ao mesmo tempo, temia. “Descobrir o quê, Mariana? É perigoso se intrometer nos assuntos de D. Rodrigo.”

“Mas se ele está escondendo algo de nós, mãe… algo que envolve nosso futuro, nosso ouro… não temos o direito de saber?” Os olhos de Mariana brilhavam com uma determinação incomum. Ela sabia que a mãe sofria com a distância e a frieza do marido. Talvez fosse a hora de quebrar o silêncio que a cercava.

Dona Isabel ponderou. A ideia de se arriscar era aterradora. Mas a angústia em seu peito, a sensação de que algo fundamental estava errado, a impelia. E a coragem de sua filha lhe dava um fio de esperança. “O que você tem em mente?”

Mariana sorriu, um sorriso contido que não alcançava seus olhos, mas que transmitia uma seriedade calculada. “O porto, mãe. Ele disse que iria ao porto. E há homens que ele encontra lá. Talvez possamos ir… disfarçadas. Ou apenas… observar. E se não pudermos ir ao porto, talvez… talvez possamos falar com alguém. Alguém de confiança.”

“Alguém de confiança em Salvador?”, Dona Isabel soltou uma risada amarga. “Em Salvador, minha filha, a confiança é um tesouro mais raro que o ouro.”

“Mas existe. Pelo menos, creio que existe. E se não houver… teremos que confiar em nós mesmas.” Mariana se levantou, a postura decidida. “Amanhã. De manhã cedo. Eu irei ao mercado. E… se a oportunidade surgir, tentarei obter alguma informação. E se a senhora… se a senhora puder, talvez pudéssemos ir até o porto mais tarde. Ou… se pudermos encontrar alguém… um contato.”

Dona Isabel sentiu um arrepio. Era um plano audacioso, perigoso. Mas a perspectiva de ficar parada, consumida pela incerteza, era ainda pior. Ela assentiu. “Está bem, Mariana. Amanhã. Mas com extrema cautela. E se algo parecer arriscado demais, você recua. Entendeu?”

“Entendi, mãe.” Mariana deu um beijo na testa da mãe e saiu, deixando Dona Isabel sozinha com seus pensamentos e um fio de esperança tingido de medo.

Na manhã seguinte, o sol nasceu com a mesma intensidade de sempre, mas o clima em Salvador era de efervescência. O porto, um burburinho constante de vozes, gritos de marinheiros, o cheiro de peixe fresco e alcatrão, era o coração pulsante da cidade. Dona Isabel, disfarçada com um xale escuro e um véu que cobria parte de seu rosto, caminhava ao lado de Mariana, que usava um vestido simples e um chapéu de palha. Elas se misturavam à multidão, os olhos atentos, buscando qualquer sinal, qualquer pista.

“A senhora acha que ele estaria aqui?”, Mariana sussurrou, apertando a mão da mãe.

“Não sei, minha filha. Mas ele disse que precisava de um navio. E aqui é o lugar onde os navios estão.” Dona Isabel sentia o olhar curioso dos mercadores, dos marinheiros, mas tentava manter a compostura. A ousadia de sua filha a impressionava.

Elas caminharam pela beira do cais, observando os barcos de pesca que chegavam, os navios mercantes ancorados, as diligências que descarregavam mercadorias. De repente, um grupo de homens, liderado por uma figura conhecida por Dona Isabel, emergiu de uma taverna próxima. Era o Capitão-Mor. D. Rodrigo.

Ele não estava sozinho. Ao seu lado, caminhava um homem de aspecto sombrio, com um chapéu de aba larga que escondia parte de seu rosto, e vestia roupas escuras, que pareciam fora de moda para a época e o clima. Havia algo em sua postura, em seu silêncio, que prenunciava perigo.

“Mãe! É ele!”, Mariana sussurrou, um tom de urgência em sua voz.

Dona Isabel sentiu seu coração acelerar. Os dois homens conversavam em voz baixa, a atenção totalmente voltada para eles. D. Rodrigo gesticulava, a voz firme, mas controlada. O homem ao seu lado apenas assentia, um movimento quase imperceptível.

“Vamos nos aproximar um pouco mais”, Mariana sugeriu, puxando a mãe em direção a uma pilha de caixas de madeira.

Elas se esconderam atrás das caixas, o coração batendo descompassado. Os homens passaram a poucos metros delas, e Dona Isabel pôde ouvir fragmentos de suas conversas.

“…o pagamento foi feito… o navio está pronto para zarpar ao anoitecer… não haverá testemunhas…”, disse D. Rodrigo.

“…o carregamento será entregue em segurança… a Capitania de Pernambuco não saberá de nada…”, respondeu a voz grave do homem misterioso.

Carregamento? Capitania de Pernambuco? O que significava aquilo? D. Rodrigo estava envolvido em algo ilícito? O ouro que ele pedira… seria para financiar um crime? A ideia de que seu marido, o homem que detinha a autoridade da Capitania, pudesse estar envolvido em atividades clandestinas, encheu Dona Isabel de um pavor gelado.

“Mãe, o que eles estão fazendo?”, Mariana sussurrou, o rosto pálido.

“Não sei, minha filha. Mas não é algo bom.” Dona Isabel sentiu um arrepio. Ela precisava saber mais. Precisava entender o que estava acontecendo. O homem misterioso, com seu olhar furtivo e seu silêncio pesado, era a chave.

Enquanto os dois homens se afastavam, Dona Isabel notou algo que o véu e o chapéu de Mariana não conseguiam esconder: o medo nos olhos da filha. O plano de investigar, que parecera ousado e necessário, agora ganhava contornos de perigo real.

“Precisamos ir embora, Mariana. Agora”, Dona Isabel disse, puxando a filha para longe das caixas. Elas se misturaram novamente à multidão, o coração ainda acelerado, as mentes cheias de perguntas e apreensões.

De volta ao casarão, o sol já começava a declinar, pintando o céu de tons alaranjados e roxos. O silêncio do salão parecia ainda mais pesado do que na noite anterior. Dona Isabel e Mariana se entreolharam, a compreensão mútua de que haviam tropeçado em um segredo obscuro.

“Mãe, quem era aquele homem?”, Mariana perguntou, a voz ainda trêmula.

“Não sei, minha filha. Mas ele não me inspira confiança. E D. Rodrigo… ele está envolvido em algo perigoso. Algo que envolve dinheiro e um navio partindo esta noite.” Dona Isabel sentiu um calafrio. A imagem do homem de olhar sombrio a assombrava. Ele parecia um predador, pronto para atacar.

“E o ouro, mãe? Ele disse que precisava do ouro para ‘o carregamento’.” Mariana apertou a mão da mãe. “Não podemos permitir que ele use nosso ouro para algo assim.”

“Eu sei, minha filha. Mas como impedi-lo?” Dona Isabel sentiu-se impotente. D. Rodrigo era o Capitão-Mor. Sua palavra tinha peso, sua autoridade era incontestável. Confrontá-lo diretamente seria arriscado.

Mariana olhou para a mãe, seus olhos escuros cheios de uma inteligência precoce. “Talvez… talvez não precisemos confrontá-lo diretamente. Talvez possamos encontrar o navio. Descobrir o que ele está transportando. E, se for algo ilegal… podemos denunciá-lo.”

A ideia era audaciosa. Encontrar um navio partindo em segredo, em meio à escuridão da noite. Mas a possibilidade de desvendar o segredo, de proteger o patrimônio de sua família e, quem sabe, expor a traição de D. Rodrigo, acendeu uma chama de determinação nos olhos de Dona Isabel.

“É arriscado, Mariana. Muito arriscado. O manguezal é escuro e traiçoeiro à noite.”

“Mas o segredo dele é ainda mais traiçoeiro, mãe. E não podemos deixar que ele nos roube assim.” A convicção na voz de Mariana era inabalável.

Dona Isabel olhou para a filha, a admiração crescendo em seu peito. Mariana, com sua juventude e sua coragem, era a sua força. “Está bem, minha filha. Vamos tentar. Vamos ao manguezal. Mas com a máxima discrição. E se algo parecer perigoso demais, recuamos.”

A noite caiu sobre Salvador, trazendo consigo a promessa de um segredo a ser desvendado, de um risco a ser corrido. As sombras do manguezal, escuras e misteriosas, guardavam a resposta que Dona Isabel e Mariana buscavam. E, sob o véu da escuridão, elas se preparavam para enfrentar o perigo, movidas pela necessidade de proteger seu futuro e pela busca da verdade.

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