A Promessa da Capitania Real

Capítulo 3 — A Sombra do Manguezal

por Caio Borges

Capítulo 3 — A Sombra do Manguezal

A noite em Salvador era um convite à introspecção e aos segredos. A lua, um mero filete prateado no céu de veludo, oferecia pouca luz, mas o suficiente para que as silhuetas esguias das palmeiras e os emaranhados sombrios do manguezal se delineassem contra o horizonte. O ar era denso, carregado de umidade e do cheiro pungente de sal, terra molhada e vida em decomposição. Era um aroma que, para Dona Isabel, sempre evocou uma mistura de melancolia e perigo.

“Tem certeza que é aqui, Mariana?”, Dona Isabel sussurrou, a voz quase inaudível, enquanto se esgueiravam pela borda do manguezal, o chão lamacento e escorregadio sob seus pés. Usavam vestidos escuros, mantos pesados sobre a cabeça, tentando se camuflar na escuridão. A cada passo, o barulho da água batendo nas raízes das árvores mangroveiras, o grasnar distante de um pássaro noturno, pareciam amplificar a sensação de estarem sendo observadas.

Mariana, que liderava o caminho com uma lanterna fraca e coberta, assentiu. “Ele disse ‘o navio está pronto para zarpar ao anoitecer’. O porto principal já estaria movimentado demais. Para um carregamento secreto… seria em um local mais afastado. E o Capitão-Mor tem negócios com alguns homens que frequentam essa área, perto da antiga fazenda de cana.”

Dona Isabel sentiu um arrepio. A fazenda de cana. Uma lembrança amarga. Era ali que seu sogro, o antigo Capitão-Mor, costumava levá-la em seus primeiros anos de casamento. Naquela época, ela ainda nutria a esperança de encontrar afeto naquele homem austero. Agora, a menção do lugar apenas aumentava sua apreensão.

Eles avançaram mais alguns metros, a lanterna iluminando um pequeno trecho de água escura, onde algumas embarcações menores estavam ancoradas, balançando suavemente. Havia uma em particular, um saveiro de velas escuras, que parecia diferente das outras. Era maior, mais robusta, e um brilho sutil de metal polido escapava de sua proa, sugerindo canhões discretamente posicionados.

“Aquele ali, mãe”, Mariana indicou com a cabeça, a voz tensa. “Parece ser o navio que ele mencionou.”

Dona Isabel observou. O saveiro exalava uma aura de perigo, de propósito obscuro. Não era um navio de carga comum. Havia algo nele que a fez sentir um calafrio. “E o homem misterioso? Você o viu?”

“Ainda não. Mas D. Rodrigo estaria aqui. Ele disse que o pagamento foi feito. Talvez o encontro seja aqui.” Mariana se aproximou de uma moita densa de arbustos, mantendo a lanterna baixa. “Precisamos nos aproximar mais, mãe. Precisamos ver o que está sendo carregado.”

A ideia de se aproximar tanto daquele navio, sob o manto da noite, era aterradora. Mas a perspectiva de que D. Rodrigo pudesse estar envolvido em contrabando, utilizando o ouro de sua família para fins ilícitos, a impelia adiante.

Eles rastejaram por entre os arbustos, cada ruído, cada movimento, parecendo ecoar na quietude da noite. De repente, um grupo de homens surgiu das sombras, carregando caixas pesadas e embrulhadas em panos grossos. Eles se dirigiam ao saveiro. D. Rodrigo estava entre eles, sua figura imponente claramente visível, mesmo na penumbra.

E, ao lado dele, estava o homem misterioso da taverna. Seu chapéu de aba larga continuava a esconder seu rosto, mas sua postura era de comando. Ele parecia supervisionar o embarque.

“É ele”, Mariana sussurrou, o tom quase inaudível.

Dona Isabel sentiu o estômago revirar. Ver seu marido agindo em cumplicidade com aquele estranho, no meio da noite, em um local tão desolado, confirmava seus piores medos.

Os homens, com esforço, começaram a colocar as caixas no convés do saveiro. Dona Isabel e Mariana se aproximaram o máximo que podiam, espreitando por entre as folhas. O cheiro de alcatrão e madeira velha do navio misturava-se ao aroma úmido do manguezal.

“Cuidado com as caixas. Não as danifiquem”, a voz de D. Rodrigo soou, áspera e imperativa.

“Os bens chegarão intactos, Capitão-Mor. Como combinado. A Capitania de Pernambuco aguarda ansiosamente”, respondeu o homem misterioso, sua voz grave e sem emoção.

Capitania de Pernambuco? Dona Isabel sentiu um nó na garganta. Eles não estavam apenas contrabandeando. Estavam envolvidos com outra capitania. Algo que certamente não era aprovado pela coroa.

“E o pagamento final?”, D. Rodrigo perguntou, um tom de impaciência em sua voz.

O homem misterioso estendeu uma bolsa pesada para D. Rodrigo. “Aqui está. O acordo está selado. E a discrição garantida.”

Dona Isabel viu D. Rodrigo pegar a bolsa, sentindo o peso do ouro em suas mãos. O ouro de sua família. Seu futuro. Sendo trocado por segredos e traição. Uma onda de raiva e desespero a invadiu.

Nesse momento, um dos homens que descarregava as caixas tropeçou em uma corda. Uma das caixas caiu no chão, o embrulho se rasgou parcialmente, revelando o brilho dourado de barras de metal. Ouro. Não apenas moedas, mas barras de ouro maciço.

Dona Isabel arregalou os olhos. Era uma quantidade exorbitante. Muito mais do que o ouro que ela havia entregado a D. Rodrigo. De onde viera aquilo? Aquilo não era o ouro dela. Era… roubado?

Um grito de surpresa irrompeu de um dos carregadores. D. Rodrigo se virou bruscamente, o rosto contraído em fúria. O homem misterioso deu um passo à frente, a mão instintivamente indo em direção ao coldre em sua cintura.

“Cuidado!”, D. Rodrigo gritou, voltando-se para a origem do ruído.

O som de seus gritos, a comoção, quebrou o silêncio do manguezal. Dona Isabel sabia que era hora de fugir. Mas antes que pudessem se mover, um dos homens que trabalhavam no navio, um sujeito corpulento e com um olhar sombrio, virou-se em direção aos arbustos onde elas se escondiam.

“O que foi isso?”, ele rosnou, os olhos penetrando a escuridão.

O coração de Dona Isabel disparou. Ela sentiu o braço de Mariana apertando o seu. O homem misterioso, com uma rapidez surpreendente, sacou uma pistola.

“Fiquem onde estão!”, ele ordenou, a voz fria e ameaçadora.

D. Rodrigo se virou, o rosto pálido de pânico. “Quem está aí?”

O pânico tomou conta de Dona Isabel. Elas haviam sido descobertas. E o homem ao lado de seu marido não parecia um anjo. A situação era desesperadora.

“Temos que correr, mãe!”, Mariana gritou, puxando-a.

O homem misterioso, percebendo que não estavam sozinhas, disparou um tiro para o ar. O som ecoou pelo manguezal, um trovão assustador na calada da noite.

“Pare! Quem são vocês?”, D. Rodrigo berrou, a voz embargada pelo medo.

Mas Dona Isabel e Mariana já haviam se virado, correndo o mais rápido que podiam, tropeçando na lama, o som dos gritos e dos disparos ecoando atrás delas. O cheiro da terra molhada e da vida em decomposição, antes desagradável, agora parecia um perfume de liberdade enquanto elas fugiam para a escuridão.

Elas correram sem rumo, o pânico alimentando seus passos. A lanterna de Mariana caiu e se apagou em algum momento, mergulhando-as em uma escuridão quase total, guiadas apenas pela memória do caminho e pelo instinto de sobrevivência. O som dos homens correndo atrás delas, os gritos de D. Rodrigo, o som de disparos, tudo se misturava em um turbilhão de terror.

Finalmente, exaustas e aterrorizadas, chegaram à estrada de terra que levava de volta à cidade. O silêncio voltou, quebrado apenas por suas respirações ofegantes e o bater acelerado de seus corações. Olharam para trás, mas a escuridão do manguezal parecia ter engolido tudo.

De volta ao casarão, Dona Isabel, com as mãos tremendo, conseguiu acender uma lamparina. O quarto estava em silêncio, mas a tensão permanecia. Mariana, sentada na beira da cama, ainda parecia em choque.

“Mãe, o que foi tudo aquilo?”, ela sussurrou, o rosto pálido.

Dona Isabel sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos. O que ela havia visto era mais terrível do que imaginara. Seu marido, envolvido em um crime, negociando com um homem perigoso, transportando barras de ouro roubadas.

“Não sei, minha filha. Mas D. Rodrigo… ele não é o homem que pensávamos. Ele está envolvido em algo muito sombrio. E aquele homem… ele é perigoso.” Dona Isabel sentiu uma onda de nojo e desespero.

“E o ouro, mãe? O ouro que ele pegou… não era nosso.” Mariana parecia ainda mais assustada.

“Não, minha filha. Não era nosso. Era roubado.” Dona Isabel fechou os olhos, sentindo o peso da verdade. E o pior era que D. Rodrigo, o homem que a prometera proteger, era o cúmplice.

Naquele momento, um ruído na porta os fez sobressaltar. D. Rodrigo estava ali. Seu rosto estava sujo de lama, seu vestido rasgado em alguns pontos. Seu olhar era furioso, mas também… assustado.

“Vocês!”, ele exclamou, a voz rouca e carregada de acusação. “O que faziam lá?”

Dona Isabel o encarou, a raiva e o medo lutando dentro dela. Ela sabia que a partir daquele momento, nada mais seria como antes. A promessa da Capitania Real, que deveria ser um símbolo de poder e segurança, agora se revelava um palco de traição e crime.

“Estávamos… apenas dando um passeio, Rodrigo”, Dona Isabel respondeu, a voz firme apesar do tremor interior. Ela sabia que mentir seria o único caminho para sobrevúm. Pelo menos, por enquanto.

D. Rodrigo a encarou por um longo instante, seus olhos escuros buscando alguma falha em sua resposta. Parecia desconfiado, mas o medo em seus olhos era mais forte do que qualquer suspeita. “Um passeio? No manguezal, à noite? Isso é um absurdo! Vocês poderiam ter se machucado!”

“Mas não nos machucamos, graças a Deus”, Mariana interveio, a voz baixa e tensa.

D. Rodrigo suspirou, passando a mão pela testa, a exaustão e a frustração visíveis em seu semblante. “Vocês não entendem os perigos que correm. Fiquem em casa. E esqueçam o que viram. É para o bem de todos.” Ele se virou, saindo do quarto sem dizer mais nada, deixando Dona Isabel e Mariana em um silêncio carregado de incertezas.

Dona Isabel sentiu um arrepio. A promessa de D. Rodrigo de esquecer o que viram era uma ameaça velada. Ela sabia que eles haviam tropeçado em algo perigoso, e que a partir daquele momento, suas vidas estariam entrelaçadas a um segredo sombrio, sob a sombra do manguezal.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%