A Promessa da Capitania Real

Capítulo 4 — As Raízes da Traição

por Caio Borges

Capítulo 4 — As Raízes da Traição

O sol da manhã despontava sobre Salvador, banhando os telhados de barro e as ruas estreitas com uma luz dourada e preguiçosa. Mas para Dona Isabel, o brilho do sol não dissipava a escuridão que se instalara em sua alma. A noite no manguezal havia desvendado uma verdade aterradora: seu marido, D. Rodrigo de Alcântara, o Capitão-Mor da Capitania, não era apenas um homem distante e ambicioso, mas um criminoso, envolvido em um esquema de contrabando de ouro roubado, com conexões que se estendiam até a Capitania de Pernambuco.

Ela se sentou em sua escrivaninha, a pele ainda fria pelo terror da noite anterior. Diante dela, um pergaminho em branco e uma pena de cisne que parecia pesar uma tonelada. As palavras de D. Rodrigo ecoavam em sua mente: “Esqueçam o que viram. É para o bem de todos.” Uma ordem disfarçada de conselho, uma ameaça velada.

“Mãe? Já acordada?”, Mariana surgiu na porta, os olhos ainda marcados pela noite de angústia, mas com um brilho de determinação que Dona Isabel admirava.

“Sim, minha filha. Não consegui dormir. As imagens da noite… elas não saem da minha cabeça.” Dona Isabel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. “Ouro roubado, Mariana. E D. Rodrigo envolvido até o pescoço.”

Mariana aproximou-se, o semblante sério. “Ele disse para esquecermos, mãe. Mas como podemos esquecer? Aquele ouro… ele estava usando o nosso nome, o nome de nossa família, para encobrir seus crimes.”

“É verdade. E aquele homem… o parceiro dele. Quem seria ele? E por que tanta urgência em entregar o ouro para Pernambuco?” Dona Isabel sentiu uma pontada de medo. Aquilo ia além de um simples contrabando. Havia algo mais complexo e perigoso por trás.

“Talvez possamos descobrir mais, mãe. Se ele está em conluio com Pernambuco, talvez haja informações que possam ser obtidas de lá”, Mariana sugeriu, com a inteligência que sempre a caracterizava.

Dona Isabel ponderou. A ideia de enviar uma mensagem para Pernambuco era arriscada. Qualquer comunicação seria vigiada. Mas a inação era ainda mais perigosa. “É uma possibilidade, Mariana. Mas como? Não podemos confiar em ninguém aqui. D. Rodrigo tem olhos e ouvidos em toda parte.”

Nesse momento, um dos criados, um rapaz chamado Tiago, que servia à família há anos e parecia sincero em sua lealdade, surgiu timidamente à porta. “Senhora. O Capitão-Mor… ele pediu que o senhor que veio ontem à noite o encontrasse no porto novamente. Disse que precisa discutir um assunto urgente.”

Dona Isabel e Mariana se entreolharam. A urgência de D. Rodrigo era palpável. Ele estava tentando resolver algo. Talvez encobrir o incidente da noite.

“Obrigada, Tiago. Pode ir”, Dona Isabel disse, a voz calma, mas o coração acelerado.

Assim que o rapaz se retirou, Dona Isabel tomou uma decisão. “Mariana, temos que saber o que D. Rodrigo está tramando. Se ele vai se encontrar com aquele homem novamente, nós temos que estar por perto. Talvez possamos descobrir quem ele é. E… se ele tem alguma ligação com Pernambuco.”

“Mas como, mãe? Ele nos viu ontem. Ele sabe que estávamos lá. Ele será mais cuidadoso hoje”, Mariana observou, a prudência em sua voz.

“Não vamos nos aproximar tanto. Apenas observar. Talvez possamos ver para onde eles vão. Ou com quem mais D. Rodrigo se encontra. E se conseguirmos uma chance… talvez possamos encontrar uma forma de enviar uma mensagem para alguém em Pernambuco. Alguém que possa nos ajudar.” Dona Isabel sentiu a adrenalina subir. A ousadia que ela temia na filha agora a impulsionava.

Naquele fim de tarde, sob o pretexto de ir buscar ervas medicinais para a casa, Dona Isabel e Mariana se dirigiram em direção à área do porto. Desta vez, não se disfarçaram completamente, mas usaram mantos mais discretos e evitaram o centro da agitação. Caminharam pelas ruas menos movimentadas, os olhos atentos, a respiração suspensa.

Elas chegaram a um ponto estratégico, um beco estreito que dava para uma área de armazéns pouco frequentada, de onde podiam observar o movimento do porto sem serem vistas. O sol começava a se pôr, lançando longas sombras sobre o chão de terra batida.

Logo, avistaram D. Rodrigo, saindo de um dos armazéns, acompanhado pelo homem misterioso da noite anterior. A tensão entre os dois era visível. D. Rodrigo parecia inquieto, enquanto o homem misterioso mantinha sua postura fria e calculista.

“O carregamento foi levado em segurança. Mas o incidente no manguezal… não pode se repetir”, disse o homem, sua voz grave ecoando no beco.

“Eu sei. E garanto que não se repetirá. Mas me diga, o que era aquilo que caiu da caixa? Aquelas barras de ouro… não eram do meu carregamento.” D. Rodrigo parecia confrontador.

O homem misterioso sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. “Alguns bens meus, Capitão-Mor. Que eu precisava transportar discretamente. Nada que você precise se preocupar. Apenas aceite o que lhe foi pago.”

Dona Isabel sentiu um calafrio. O homem estava mentindo. As barras de ouro não eram dele. E se não eram dele, de quem seriam? Roubadas de algum outro lugar?

“E a minha parte? O pagamento prometido?”, D. Rodrigo insistiu, sua voz soando mais nervosa do que antes.

O homem misterioso estendeu uma pequena bolsa. “Aqui está. O restante será entregue quando o transporte chegar a Pernambuco. E quando você me trouxer as informações que lhe pedi.”

Informações? D. Rodrigo estava trocando favores? E informações sobre o quê? A traição de seu marido parecia se aprofundar a cada palavra ouvida.

“Que informações?”, Dona Isabel sussurrou para Mariana, a curiosidade misturada ao medo.

Mariana apertou o braço da mãe. “Não sei, mãe. Mas ele está envolvido com Pernambuco em algo mais do que apenas o ouro.”

Os dois homens se afastaram, indo em direção a uma carruagem escura que os esperava. Dona Isabel sentiu uma urgência repentina. Era a chance de descobrir quem era aquele homem.

“Precisamos segui-los, Mariana”, ela disse, a decisão firme em sua voz.

“Mas mãe, ele nos viu ontem. Ele pode nos reconhecer.” Mariana estava apreensiva.

“Não vamos nos aproximar. Apenas observar. Ver para onde vão. Para onde levam a carruagem. Talvez encontremos alguma pista. Ou… talvez possamos encontrar alguém que possa nos ajudar em Pernambuco.” Dona Isabel sentiu que a hora de agir era agora.

Elas seguiram a carruagem à distância, mantendo-se nas sombras, o coração batendo forte. A carruagem seguiu por ruas menos movimentadas, afastando-se do porto e dirigindo-se para a periferia da cidade, em direção a uma antiga estrada que levava para o interior.

“Eles estão indo para a antiga fazenda, mãe!”, Mariana exclamou, reconhecendo o caminho.

A antiga fazenda de cana. A fazenda de seu sogro. Um lugar que evocava tantas memórias. Dona Isabel sentiu um nó na garganta. Onde o perigo parecia se concentrar.

A carruagem parou em frente aos portões decrépitos da fazenda. Os dois homens desceram e entraram no casarão em ruínas, a porta se fechando atrás deles.

Dona Isabel e Mariana se aproximaram com cautela, escondendo-se atrás de um muro baixo e desmoronado. A fazenda estava abandonada há anos, um espetáculo de decadência e esquecimento. O cheiro de mofo e de terra molhada pairava no ar.

Elas se esgueiraram até uma janela quebrada do casarão, espiando para dentro. A sala principal estava mobiliada de forma rudimentar, com poucas peças de madeira e um fogo crepitante na lareira. D. Rodrigo e o homem misterioso estavam sentados à mesa, conversando em voz baixa.

“E a informação que você me pediu?”, o homem perguntou.

D. Rodrigo hesitou por um instante, depois tirou um pequeno pedaço de pergaminho do bolso. “Aqui está. São os planos de defesa da Capitania de Bahia. As rotas dos navios de patrulha, os pontos fracos das fortificações. Tudo o que você pediu.”

Dona Isabel sentiu o sangue gelar em suas veias. D. Rodrigo estava entregando informações secretas sobre a defesa da Capitania. Isso era traição contra a coroa. Contra Portugal.

O homem misterioso pegou o pergaminho, examinando-o com um brilho nos olhos. “Excelente, Capitão-Mor. Com isso, a Capitania de Pernambuco poderá se sentir mais segura contra qualquer ataque que venha do mar. E nós, claro, poderemos agir com mais liberdade.”

Liberdade para quê? Dona Isabel não conseguia entender. O que Pernambuco planejava? E como D. Rodrigo se encaixava naquele plano?

“E você, meu caro?”, D. Rodrigo perguntou, um tom de apreensão em sua voz. “Você disse que me ajudaria a resolver meus problemas. A me livrar de certas… dívidas.”

O homem misterioso sorriu novamente. “Eu cumpro minhas promessas, Capitão-Mor. Suas dívidas serão quitadas. E, em troca, você nos fornecerá as informações que precisamos. E garantirá que nenhum navio francês se aproxime da costa de Bahia. Entendeu?”

Dona Isabel sentiu um nó na garganta. D. Rodrigo estava envolvido em dívidas de jogo, talvez? E o homem misterioso estava usando isso para obter informações cruciais sobre a defesa da Capitania. Era uma teia de traição e corrupção se desenrolando diante de seus olhos.

“Entendi”, D. Rodrigo murmurou, a voz baixa e resignada.

“Ótimo. Então, nosso acordo está selado.” O homem misterioso se levantou. “Eu partirei para Pernambuco esta noite. O dinheiro será entregue a você assim que chegar. E as informações que você nos der… bem, elas garantirão a segurança de todos nós. De todos que estão do nosso lado.”

Dona Isabel e Mariana se entreolharam, o pânico crescendo em seus corações. Eles precisavam sair dali. Precisavam pensar em como usar aquelas informações.

Enquanto os dois homens se preparavam para sair, Dona Isabel teve uma ideia. Uma ideia ousada, mas talvez a única chance que tinham.

“Mariana, quando eles saírem, vamos tentar encontrar algo. Uma prova. Algo que possamos usar contra eles.”

“Mas mãe, é muito arriscado!”, Mariana sussurrou, o medo em sua voz.

“Eu sei. Mas não podemos deixá-lo destruir tudo. Precisamos de uma prova concreta. Um documento, alguma coisa.” Dona Isabel sentiu a determinação renovada. A traição de seu marido não ficaria impune.

Quando D. Rodrigo e o homem misterioso saíram do casarão, Dona Isabel esperou alguns instantes, até que seus passos se afastassem. Então, ela e Mariana se esgueiraram para dentro da casa, a luz fraca da lua iluminando o interior decadente.

Elas vasculharam a sala principal, procurando desesperadamente por qualquer coisa que pudesse servir como prova. Nas poucas gavetas da mesa, nos cantos empoeirados, nada. A esperança começava a diminuir.

Foi Mariana quem encontrou. Em uma pequena escrivaninha escondida em um canto escuro, havia um pequeno compartimento secreto. Dentro dele, encontraram uma carta, escrita em papel fino e com a letra elegante de D. Rodrigo.

“Para o meu contato em Pernambuco”, dizia a carta. “As informações solicitadas foram entregues. A segurança da Capitania de Bahia está comprometida. Aguardo o pagamento e as instruções para a próxima fase. Que nosso acordo permaneça em segredo. Apenas para o bem de todos.”

Dona Isabel pegou a carta, sentindo o peso da traição em suas mãos. Era a prova que precisavam. Uma prova irrefutável do crime de D. Rodrigo.

“Temos que sair daqui, Mariana. Agora”, Dona Isabel disse, a voz tensa.

Elas se retiraram da fazenda, a carta escondida em seu manto. A noite parecia ainda mais escura, mas em seus corações, uma nova luz havia se acendido: a da esperança de desmascarar a traição e proteger o que restava de sua família. A promessa da Capitania Real, antes um símbolo de poder, agora se tornava um campo de batalha pela verdade.

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