A Promessa da Capitania Real

Capítulo 5 — O Preço da Lealdade

por Caio Borges

Capítulo 5 — O Preço da Lealdade

A brisa noturna soprava suavemente sobre Salvador, agitando as folhas das palmeiras e carregando o aroma adocicado das flores de jasmim que desabrochavam nos jardins. Mas no interior do casarão dos Alcântara, o ar parecia carregado de uma tensão palpável. Dona Isabel e Mariana haviam retornado da antiga fazenda com a prova irrefutável da traição de D. Rodrigo: a carta que desvendava seu acordo com um desconhecido de Pernambuco.

Dona Isabel sentou-se à sua escrivaninha, a carta de D. Rodrigo cuidadosamente desdobrada diante dela. A luz bruxuleante da lamparina lançava sombras dançantes sobre o pergaminho, realçando a caligrafia elegante, mas as palavras que continham eram uma afronta à sua honra, à sua família, à própria Coroa Portuguesa.

“Ele estava disposto a entregar a defesa da Capitania para se livrar de suas dívidas”, Dona Isabel murmurou, a voz embargada pela decepção e pela raiva. “O que mais ele é capaz de fazer?”

Mariana, sentada em uma cadeira próxima, observava a mãe com preocupação. “Mãe, o que vamos fazer com essa carta? Se a entregarmos a alguém aqui, D. Rodrigo saberá. Ele nos desmascarará antes que possamos agir.”

“É o meu maior temor, minha filha”, Dona Isabel respondeu, passando a mão pela testa. “Ele é o Capitão-Mor. Tem poder e influência sobre todos aqui. Se ele descobrir que sabemos… não sei o que ele seria capaz de fazer conosco.”

Um silêncio pesado se instalou entre elas. A carta era a única prova que tinham, mas torná-la pública em Salvador seria um suicídio. A lealdade de muitos na Capitania era questionável, e a influência de D. Rodrigo era vasta.

“Precisamos de alguém em quem possamos confiar”, Mariana disse, a voz firme. “Alguém que possa levar esta carta para a Coroa. Ou talvez para alguém em Pernambuco que possa investigar este ‘contato’.”

Dona Isabel ponderou. A ideia de confiar em alguém fora de Salvador era tentadora, mas o risco de a mensagem cair em mãos erradas era grande. E quem seria esse alguém?

Nesse momento, um murmúrio na entrada chamou sua atenção. Tiago, o criado leal, estava ali, o rosto sério.

“Senhora. Recebemos uma visita inesperada. Um homem que diz vir de Pernambuco. Diz que tem assuntos urgentes a tratar com o Capitão-Mor, mas que também… que também tem uma mensagem para a senhora.”

Dona Isabel e Mariana se entreolharam, o coração acelerado. Pernambuco. Um homem de Pernambuco. Seria uma coincidência? Ou uma oportunidade?

“Um homem de Pernambuco? O que ele disse que é?”, Dona Isabel perguntou, tentando manter a calma.

“Ele não disse o nome, senhora. Apenas que é um mensageiro. E que a mensagem é para a sua segurança.” Tiago parecia um pouco apreensivo.

“Segurança…”, Dona Isabel repetiu, o pressentimento tomando conta de si. Aquilo não podia ser coincidência.

“Mãe, talvez ele seja a pessoa que precisamos”, Mariana sussurrou. “Talvez ele possa nos ajudar.”

A ideia era arriscada. Confiar em um estranho, mesmo que vindo de Pernambuco. Mas a situação era desesperadora.

“Traga-o até aqui, Tiago”, Dona Isabel ordenou, a voz firme, mas com um tom de apreensão. “E certifique-se de que ninguém mais o veja. Precisamos de discrição total.”

O criado assentiu e se retirou. Dona Isabel e Mariana se prepararam, a carta escondida, os corações batendo descompassados. Elas não sabiam o que esperar.

Poucos minutos depois, Tiago retornou, conduzindo um homem de aspecto reservado. Ele era alto, de ombros largos, com um rosto marcado pelo sol e por uma expressão de cautela. Vestia roupas simples, mas de bom corte, e seus olhos escuros pareciam perscrutar tudo ao seu redor.

“Senhora Dona Isabel”, ele disse, com um sotaque carregado de Pernambuco. Sua voz era baixa, mas firme. “Meu nome é Jeremias. Fui enviado por… por um amigo em comum. Um amigo que se preocupa com seu bem-estar e com a estabilidade desta Capitania.”

Dona Isabel o observou atentamente. Quem seria esse “amigo em comum”? Alguém que conhecia D. Rodrigo? Ou alguém que também desconfiava dele?

“Um amigo em comum…”, Dona Isabel repetiu, a cautela em sua voz. “E que tipo de amigo seria esse, Jeremias?”

Jeremias hesitou por um instante, seus olhos fixos nos de Dona Isabel. “Um amigo que sabe dos perigos que o cercam, senhora. Um amigo que sabe que o Capitão-Mor D. Rodrigo está envolvido em negócios escusos. Negócios que ameaçam não apenas a sua segurança, mas a da própria Coroa.”

As palavras de Jeremias confirmaram os receios de Dona Isabel. A notícia de seus envolvimentos havia chegado a Pernambuco.

“Como você sabe disso?”, Dona Isabel perguntou, o tom direto.

“Eu… eu vi algumas coisas. Ouvi conversas. E o meu ‘amigo’… ele me pediu para vir até aqui, para alertá-la. E para entregar isto.” Jeremias tirou uma pequena bolsa de couro de dentro de suas vestes. Não era uma bolsa de ouro, mas de documentos. Uma pequena pasta com alguns pergaminhos e um selo oficial.

Dona Isabel pegou a pasta. Um dos pergaminhos chamou sua atenção imediatamente. Era um documento oficial, com o selo da Capitania de Pernambuco. Ela o desdobrou com mãos trêmulas. Era uma intimação para que D. Rodrigo de Alcântara se apresentasse em Olinda, para prestar esclarecimentos sobre o desaparecimento de um carregamento de ouro, supostamente roubado de um navio português que aportara em Recife.

“Este… este é o roubo do qual você falou?”, Dona Isabel perguntou a Jeremias, a voz embargada pela emoção.

Jeremias assentiu. “Sim, senhora. E há suspeitas de que o Capitão-Mor está envolvido. Por isso meu amigo me enviou. Para que a senhora pudesse ter uma prova, e para que pudéssemos agir juntos.”

Dona Isabel retirou a carta de D. Rodrigo do bolso e a entregou a Jeremias. “Esta é a prova da traição dele. Ele está passando informações secretas sobre a defesa de Bahia para alguém em Pernambuco. E em troca, recebe dinheiro. Para cobrir suas dívidas.”

Jeremias leu a carta, seu semblante se tornando mais sombrio a cada linha. “Isso é pior do que eu imaginava. Ele não está apenas roubando. Está vendendo a própria Capitania.”

“E eu preciso de uma forma de denunciá-lo. Mas não posso fazer isso aqui. Ele me desmascararia”, Dona Isabel confessou, a impotência em sua voz.

Jeremias guardou a carta em sua pasta. “Eu posso ajudar, senhora. Posso levar esta carta, juntamente com a intimação, para o Governador de Pernambuco. Ele é um homem justo e honrado. Ele investigará isto a fundo. E com as provas que temos, D. Rodrigo não terá como escapar.”

Um fio de esperança se acendeu nos olhos de Dona Isabel. A possibilidade de justiça, de desmascarar a traição de seu marido e proteger sua família, parecia ao alcance.

“Mas como posso confiar em você, Jeremias?”, Dona Isabel perguntou, a cautela ainda presente. “Como sei que você não é um aliado de D. Rodrigo?”

Jeremias a encarou com sinceridade. “Senhora, meu ‘amigo’ que me enviou é um homem de confiança em Pernambuco. Alguém que viu D. Rodrigo se corromper ao longo dos anos. Ele está agindo para proteger a Capitania e a honra de Portugal. E eu… eu sou apenas um mensageiro. Mas o meu compromisso é com a justiça. E com a segurança da senhora e de sua filha.”

Mariana se aproximou de sua mãe, a mão pousada em seu ombro. “Eu acredito nele, mãe. Sinto que podemos confiar.”

Dona Isabel olhou para sua filha, a coragem e a fé em seus olhos. E então, olhou para Jeremias, para a sinceridade em seu semblante. Ela sabia que o risco era grande, mas a inação era ainda pior.

“Está bem, Jeremias. Confio em você. Leve esta carta. E a intimação. Peça ao Governador de Pernambuco que investigue D. Rodrigo de Alcântara. E que proteja a mim e a minha filha. Nossa segurança depende disso.”

Jeremias assentiu, guardando os documentos com cuidado. “Farei o meu melhor, senhora. Entregarei esta carta diretamente ao Governador. E lhe enviarei uma mensagem assim que tiver notícias. Peço que, enquanto isso, a senhora e a senhorita Mariana mantenham a discrição absoluta. D. Rodrigo não pode desconfiar de nada.”

“Faremos isso”, Dona Isabel prometeu.

Jeremias fez uma reverência e se retirou, deixando Dona Isabel e Mariana em um silêncio carregado de expectativa e esperança. O futuro era incerto, o perigo ainda rondava, mas pela primeira vez em muito tempo, elas sentiram que tinham uma chance. Uma chance de lutar pela verdade e pela honra de sua família. A promessa da Capitania Real, manchada pela traição, agora ganhava um novo significado: a luta pela justiça em um mundo de segredos sombrios e paixões proibidas.

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