A Promessa da Capitania Real

Capítulo 8 — O Canto da Sereia Corrompida

por Caio Borges

Capítulo 8 — O Canto da Sereia Corrompida

A notícia se espalhou como fogo em palha seca pelos becos de Salvador: a Inquisição interrogava os envolvidos na morte de Manuel. O temor que a Santa Mãe Igreja inspirava era palpável, e cada sussurro nas ruas parecia carregado de um pressentimento sombrio. Dona Leonor, com sua força interior que parecia desafiar os limites da fragilidade, tentava manter a calma, protegendo Isabella da onda de pânico que ameaçava engolir a todos. Contudo, a presença constante do Alferes Rodrigues e dos homens da Inquisição, rondando a casa como abutres, era um lembrete implacável de que a inocência era um bem precário naquela terra.

Isabella, embora assustada, sentia uma força recém-descoberta dentro de si. A informação que obtivera no porto sobre o Senhor Almeida e a conexão dele com o tráfico de escravos era uma peça crucial do quebra-cabeça. Manuel não morrera em vão. Ele havia tocado em um nervo exposto da elite colonial, e essa descoberta era a arma que ela precisava.

"Ele era o monstro que Manuel tentava expor, Dona Leonor", disse Isabella, sua voz carregada de uma determinação fria. "Almeida. Ele está no centro de tudo. Manuel descobriu a ligação dele com o tráfico, com a exploração que sustenta a riqueza desta terra."

Dona Leonor ouviu atentamente, seu rosto pálido iluminado pela chama da esperança que Isabella trazia. "Manuel sempre soube que a verdade é uma lâmina afiada, Isabella. E que aqueles que se beneficiam da escuridão farão de tudo para mantê-la oculta." Ela apertou a mão da neta. "Precisamos de mais. Precisamos de provas irrefutáveis. A Inquisição pode ser cega para a justiça quando ela ameaça os poderosos."

João, ciente do perigo iminente, redobrava seus esforços. Ele mantinha contato com seus homens espalhados pelo porto, trocando informações, buscando brechas na vigilância. A presença da Inquisição dificultava suas ações, mas a sede de justiça por Manuel o impulsionava. Ele sabia que Almeida era um homem perigoso, com conexões que iam além do óbvio.

"Almeida não age sozinho, Isabella", disse João, em um encontro discreto em um armazém abandonado. "Ele tem aliados na administração, homens que se beneficiam do ouro e do sangue que ele derrama. A Inquisição está sendo usada para encobrir a verdade, não para revelá-la. Eles estão mais interessados em punir quem questiona do que em encontrar o verdadeiro culpado."

"Mas e as provas?", perguntou Isabella, a angústia em sua voz. "O que Manuel nos deixou? Onde podemos encontrá-las?"

João olhou para ela, seus olhos expressando a gravidade da situação. "Manuel era astuto. Ele sabia que estava correndo perigo. Antes de… nos deixar, ele me entregou um pequeno cofre. Disse que continha 'o mapa para a redenção desta terra'. Eu o escondi. Mas não sei onde ele o guardou."

O "mapa para a redenção". As palavras ecoaram na mente de Isabella. Manuel, em sua última conversa, mencionara um lugar secreto, um lugar seguro onde guardava suas descobertas mais importantes. Um lugar ligado às suas raízes, à sua herança. De repente, uma imagem surgiu em sua mente: o velho engenho de açúcar de sua família, abandonado e quase em ruínas, nos arredores da cidade. Manuel sempre teve um carinho especial por aquele lugar, um refúgio de sua infância.

"O engenho", sussurrou Isabella, seus olhos arregalados. "O antigo engenho da minha família. Manuel passava horas lá, dizendo que sentia a força da terra. Ele deve ter guardado o cofre lá!"

Uma nova onda de esperança surgiu. Se conseguissem o cofre, teriam as provas que precisavam para desmascarar Almeida e, quem sabe, livrar a colônia da influência sombria da Inquisição e da crueldade do tráfico.

Naquela noite, sob a luz prateada da lua, Isabella, acompanhada por João, partiu em direção ao engenho abandonado. O caminho era longo e perigoso, as sombras da floresta parecendo esconder perigos a cada passo. O silêncio era quebrado apenas pelo som dos grilos e pelo bater acelerado de seus corações.

Ao chegarem, o engenho se apresentava como uma ruína melancólica. As paredes descascadas, o moinho coberto de hera, o cheiro de mofo e abandono pairando no ar. Era um lugar assombrado pela memória de tempos mais prósperos, mas também pela tristeza de um passado que se fora.

"Onde poderíamos ter guardado um cofre?", perguntou João, sua voz ecoando na quietude do lugar.

Isabella caminhou pelos cômodos empoeirados, tocando nos objetos esquecidos, tentando sentir a presença de Manuel naquele lugar. Lembrou-se de uma velha sala de armazenamento, onde ficavam os antigos registros do engenho. Era um lugar escondido, raramente visitado.

Com esforço, abriram a pesada porta de madeira, revelando um cômodo escuro e abafado. Teias de aranha cobriam tudo, e o ar estava denso com o cheiro de papel velho e poeira acumulada. Em um canto, sobre uma prateleira alta, estava um pequeno baú de madeira, ornado com entalhes que Isabella reconheceu como sendo feitos por Manuel.

"É ele!", exclamou Isabella, seu coração disparado.

João pegou o baú, sentindo seu peso. Era mais pesado do que esperavam. Com mãos trêmulas, ele o abriu. Dentro, não havia ouro nem joias, mas sim um monte de documentos, cartas, mapas e um pequeno diário encadernado em couro. As anotações eram de Manuel.

"Aqui estão eles", disse João, folheando os papéis com cuidado. "Registros de navios, rotas de comércio, nomes… e cartas. Cartas que detalham o esquema de Almeida. O fluxo de dinheiro, os subornos, as conexões com autoridades corruptas. Ele estava mapeando tudo. Ele planejava desmascarar Almeida e expor a verdade sobre o tráfico humano."

Enquanto João examinava os documentos, Isabella pegou o diário de Manuel. As palavras escritas ali eram uma mistura de paixão, desespero e esperança. Ele falava de sua luta contra a injustiça, de seu amor por Isabella, de seu desejo de ver a colônia livre da opressão. Havia anotações sobre o perigo que corria, sobre os olhares que o seguiam, sobre a necessidade de proteger suas descobertas.

"Ele sabia que estava em perigo", sussurrou Isabella, as lágrimas brotando em seus olhos. "Ele sabia que seria silenciado se não agisse com cautela."

De repente, um barulho vindo do lado de fora do engenho os fez sobressaltar. Passos pesados, vozes irritadas.

"Eles nos encontraram!", exclamou João, fechando o baú com urgência. "A Inquisição! Ou pior… os homens de Almeida!"

Um grupo de homens, liderados pelo Alferes Rodrigues e pelo próprio Senhor Almeida, cercava o engenho. Seus rostos eram sombrios e ameaçadores.

"Parados! Em nome da Santa Inquisição!", bradou o Alferes Rodrigues.

Almeida sorriu friamente ao ver Isabella e João em poder do baú. "Ah, a jovem esperta. E o leal cão de guarda. Que pena que o destino tenha lhes pregado essa peça. Agora, entreguem o que é meu por direito."

Isabella sentiu um misto de medo e raiva. Eles estavam ali, com as provas em mãos, mas cercados e em desvantagem. A sombra do canto da sereia corrompida de Almeida parecia envolver tudo, ameaçando afogá-los em um mar de injustiça.

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