Ecos de Brasília Distante

Ecos de Brasília Distante

por Danilo Rocha

Ecos de Brasília Distante

Por Danilo Rocha

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Capítulo 1 — A Sombra de um Amanhã Esquecido

O sol que tingia o horizonte de Brasília, um espetáculo que outrora enchia os olhos de admiração e esperança, agora parecia um embernar preguiçoso, um sussurro de cores que mal ousava desafiar a névoa cinzenta que pairava sobre a cidade. Não era uma neblina natural, dessa que o frio ou a umidade trazem. Era uma opacidade persistente, uma poeira fina e metálica que se acumulava nos pulmões, na alma, e, mais perigosamente, na memória. A poeira de um futuro que prometeu o céu e entregou um teto de chumbo.

Isabela sentiu-a na pele, um arrepio que nada tinha a ver com a brisa fria que descia do Lago Paranoá. Aos trinta e cinco anos, o brilho nos seus olhos, outrora tão vívido quanto as linhas modernas da Catedral, parecia ter se atenuado, coberto por uma camada fina de resignação. Ela ajustou o lenço de seda que protegia a boca e o nariz, um hábito que se tornara tão automático quanto respirar. Respirar… a palavra parecia quase um luxo em 2242.

A sua caminhada pela Esplanada dos Ministérios era solitária, uma peregrinação silenciosa por um templo abandonado. Os prédios majestosos, projetados para abrigar o poder e a glória de uma nação emergente, agora se erguiam como monumentos a um sonho desfeito. As marquises que prometiam sombra e proteção contra o sol abrasador do Cerrado eram agora os abrigos precários de poucos que, como ela, ainda se recusavam a abandonar completamente aquele espaço sagrado. Sagrado de quê? De memórias, talvez. Memórias de quando Brasília era mais do que concreto e aço, mais do que um eco distante.

Ela parou em frente ao Congresso Nacional, a cúpula inconfundível de um lado, a outra em formato de taça invertida do outro. Parecia um pássaro gigante prestes a alçar voo, mas preso ao solo por correntes invisíveis. Isabela fechou os olhos, buscando no ar a fragrância que um dia sentiu: o cheiro de terra molhada após a chuva, o perfume das ipês floridas, o burburinho animado de pessoas que acreditavam num futuro. Agora, só havia o odor metálico, um gosto acre na língua.

“Espero que você não esteja se perdendo de novo nos seus devaneios, Isa”, uma voz rouca a tirou de seus pensamentos.

Era Elias, um velho amigo, um dos poucos que ainda frequentavam a Esplanada com regularidade. Ele caminhava com a ajuda de uma bengala improvisada, feita de um cano de metal polido. Elias era um sobrevivente, um daqueles que se agarravam à vida com a tenacidade de uma planta do Cerrado em tempos de seca. Seus olhos, apesar de fundos e cansados, ainda guardavam um brilho de inteligência e um toque de sarcasmo.

Isabela abriu um sorriso fraco. “Apenas apreciando a vista, Elias. Um pouco… empoeirada hoje.”

Elias soltou uma risada curta, seca como o tempo. “Empoeirada? Isa, isso é mais do que poeira. Isso é o fim. O fim de uma era, o fim de uma promessa. E nós, os resquícios, vagando por aqui como fantasmas.” Ele tossiu, um som gutural que se perdeu no silêncio opressor. “Você está bem? Parece mais pálida que o normal.”

“Apenas um pouco cansada”, respondeu Isabela, evitando o olhar dele. A verdade era que o cansaço já não era apenas físico. Era uma fadiga da alma, uma exaustão da esperança. “O ar está… pesado.”

“O ar sempre esteve pesado para quem se lembra. Para quem viu a luz.” Elias encostou-se a uma das colunas do Congresso. “Lembra-se da inauguração do Museu Nacional? Aquele dia de sol radiante, o céu azul como nunca. Você tinha dez anos, se não me engano. Estava deslumbrada com a arquitetura de Niemeyer. E eu… eu estava ali, me sentindo parte de algo grandioso.” Seus olhos vagaram pela Esplanada, perdidos em lembranças distantes. “Agora, o que nos resta? Um museu sem visitantes, e um Congresso vazio. O eco de uma grandeza que nunca chegou a ser.”

Isabela assentiu, o peito apertado. Ela se lembrava. Lembrava-se do brilho nos olhos do pai, da admiração na voz da mãe. Lembrava-se daquele dia em que o futuro parecia uma tela em branco, pronta para ser pintada com cores vibrantes de progresso e harmonia. O que aconteceu? A pergunta reverberava em sua mente como um mantra sombrio.

“Houve… houve muitas promessas, Elias”, disse ela, a voz embargada. “Promessas que não foram cumpridas.”

“Promessas quebradas, Isa. E a poeira que elas deixaram para trás é a nossa herança.” Elias pigarreou. “Mas você não veio aqui apenas para suspirar sobre ruínas. O que a traz tão longe de casa, em um dia como este?”

“Eu… eu recebi uma mensagem”, disse Isabela, hesitando. A mensagem era o motivo de sua presença ali. Uma mensagem críptica, enviada por um remetente anônimo, que a convocava para um encontro na Esplanada, em um local específico, em um horário específico. Algo sobre uma informação que poderia mudar tudo.

“Mensagem? De quem? Ninguém mais manda mensagens de verdade. Só transmitem ordens por interligação neural ou comunicados oficiais sem alma”, Elias franziu a testa, desconfiado.

“Era… diferente. Uma mensagem codificada, com coordenadas. Pedi para rastrear, mas era impossível. Parecia vir de… de lugar nenhum.” Isabela olhou ao redor, a sensação de estar sendo observada crescendo dentro dela. A Esplanada, apesar de deserta, parecia carregada de segredos.

Elias a encarou com curiosidade. “E você veio. Acredita em mistérios em um mundo que se tornou previsível e sombrio?”

“Eu acredito que ainda há algo que não sabemos, Elias. Algo que pode ser mais do que essa poeira, mais do que esse silêncio. E se essa mensagem for a chave…”

“Se for a chave para um cofre vazio, Isa. Ou para uma armadilha.” Elias suspirou. Ele não gostava daquela situação. Conhecia Isabela há tempo suficiente para saber que quando ela colocava algo na cabeça, era difícil fazê-la desistir. “Cuidado, minha amiga. O passado em Brasília é um fantasma traiçoeiro. E o futuro… bem, o futuro é essa nuvem cinzenta que não nos deixa ver um palmo à frente.”

Ele se afastou lentamente, a bengala batendo ritmicamente no chão de concreto. Isabela o observou ir, sentindo um misto de gratidão e apreensão. Elias era sua âncora na realidade, mas hoje, a realidade parecia um oceano de incertezas.

Ela verificou o horário em seu implante de pulso. Faltavam dez minutos. O local indicado na mensagem era uma das esculturas modernas que adornavam os jardins da Esplanada, uma forma geométrica abstrata que sempre a deixara intrigada. Caminhou na direção dela, o som de seus próprios passos soando alto demais.

Ao se aproximar, notou algo incomum. Havia uma figura parada perto da escultura, quase fundindo-se com as sombras que a estrutura projetava. Era um homem, vestido com roupas escuras e um capuz que cobria a maior parte do rosto. Ele estava imóvel, como uma estátua esquecida.

O coração de Isabela acelerou. Era ele? O remetente da mensagem? A adrenalina começou a correr em suas veias, misturada com um medo ancestral. Ela respirou fundo, tentando manter a calma. Elias estava certo. Isso poderia ser uma armadilha. Mas a curiosidade, aquela chama teimosa que Elias tanto admirava e temia, a impulsionava para frente.

Ela parou a alguns metros de distância, observando a figura. O homem não se moveu, nem mesmo para indicar que a tinha visto. O silêncio era denso, quebrado apenas pelo zumbido distante de um veículo aéreo e pelo farfalhar das folhas secas levadas pelo vento.

“Olá?”, chamou Isabela, a voz um pouco trêmula.

A figura finalmente se moveu. Lentamente, ele virou a cabeça na direção dela. O capuz ainda obscurecia seu rosto, mas Isabela pôde sentir o peso de um olhar fixo nela.

“Você veio”, disse o homem. Sua voz era baixa, filtrada pelo tecido do capuz, mas carregava uma ressonância incomum, como se viesse de muito longe.

“Eu… eu recebi a mensagem”, respondeu Isabela, tentando manter o tom firme. “Você é quem a enviou?”

O homem deu um passo à frente, saindo parcialmente da sombra. Isabela pôde vislumbrar parte do seu rosto. Era um rosto marcado, com linhas profundas que sugeriam uma vida dura. Mas o que mais chamou sua atenção foram os olhos. Eram de um azul intenso, penetrantes, que pareciam carregar a sabedoria de eras.

“Sou alguém que se lembra”, disse ele. “E alguém que sabe que o silêncio em Brasília não é vazio, mas sim um prenúncio.”

Ele estendeu uma mão, estendendo um pequeno objeto metálico que brilhava fracamente sob a luz difusa. Era um disco.

“Você mencionou informações que poderiam mudar tudo”, disse Isabela, estendendo a mão para pegar o disco. Sua mão tremia levemente ao tocar o metal frio. “O que é isso?”

“É um fragmento do passado. Um eco de um futuro que nos foi roubado”, respondeu o homem. “Eles tentaram apagar. Eles tentaram esquecer. Mas alguns fragmentos resistem. E este… este é um deles.”

Ele deu um passo para trás, recuando para as sombras novamente. “Você tem a capacidade de ver o que outros não veem, Isabela. Você tem a coragem de questionar. Use isso. O que está neste disco pode ser a chave para desvendar o que realmente aconteceu. Mas cuidado. A verdade é uma arma poderosa, e ela tem um preço alto.”

Antes que Isabela pudesse fazer mais perguntas, o homem se virou e desapareceu na penumbra da Esplanada, tão silenciosamente quanto havia surgido. Isabela ficou sozinha, o disco metálico frio em sua palma, o peso de palavras enigmáticas ecoando em sua mente. A sombra do amanhã esquecido parecia se adensar ao seu redor, e pela primeira vez em muito tempo, um fio de esperança, tão tênue quanto a poeira no ar, começou a brilhar em seu peito. Ela não sabia o que o disco continha, nem quem era aquele homem misterioso. Mas sabia que sua vida, assim como os ecos de Brasília, estava prestes a ganhar um novo e perigoso tom.

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