Ecos de Brasília Distante

Capítulo 3 — Fantasmas na Cidade Imaginária

por Danilo Rocha

Capítulo 3 — Fantasmas na Cidade Imaginária

A poeira metálica parecia mais densa naquela manhã. Isabela sentia-a grudar em seus lábios ressecados, um lembrete constante do ar rarefeito e da esperança esvaída. A informação do disco quântico, o testemunho do Experimento Cronos, reverberava em sua mente como um tambor incessante. A ideia de que a realidade presente era uma construção artificial, uma tela pintada sobre um passado roubado, a deixava em um estado de choque controlado.

Ela estava sentada em seu apartamento, o disco de memória seguro em um compartimento secreto de seu terminal de dados. O arquivista do Arquivo Sombra lhe dera um pequeno módulo de criptografia, um dispositivo discreto que, segundo ele, poderia proteger os dados contra varreduras mais invasivas. Mas a verdadeira proteção, ela sabia, viria de sua própria cautela.

“Preciso falar com Elias”, disse ela em voz alta, quebrando o silêncio do apartamento. O velho amigo, com sua memória vasta e seu pragmatismo calejado, era seu porto seguro em meio à tempestade de incertezas que se formava.

Ela pegou seu comunicador de pulso e discou o número de Elias. A conexão demorou um pouco, a rede instável como sempre. Finalmente, a voz rouca de Elias ecoou pelo pequeno aparelho.

“Isa? Que bom ouvir sua voz. Achei que tivesse se perdido na poeira da Esplanada.”

“Quase isso, Elias. Mas eu não vim de mãos vazias. Preciso te encontrar. Onde você está?”

Houve uma pausa. “Estou… em um lugar seguro. Um lugar que você conhece bem. O Mirante da Torre de TV. O sol está razoavelmente claro hoje, e a vista… bem, é a única coisa que ainda vale a pena ver por aqui.”

Isabela sentiu um alívio imediato. O Mirante da Torre de TV. Era um dos poucos locais elevados da cidade que ainda oferecia uma visão relativamente desobstruída, um resquício da arquitetura grandiosa de Brasília que ainda resistia ao tempo e à negligência.

“Estou indo. Me espere aí.”

A viagem até a Torre de TV foi tensa. Isabela sentia os olhares sobre si, a paranoia, alimentada pelas revelações do disco, a fazendo desconfiar de cada sombra, de cada movimento em falso. Ela sabia que, ao revelar o que havia descoberto, estaria se colocando em perigo. Mas a ideia de viver uma mentira, de respirar o ar da falsidade, era insuportável.

Quando chegou à base da Torre, Elias já a esperava. Ele parecia mais magro, suas rugas mais profundas sob a luz fria da manhã. Ele lhe deu um sorriso fraco e acenou com a cabeça na direção do elevador.

“Suba, Isa. O ar é um pouco mais limpo aqui em cima. E as vistas… bem, elas ainda contam histórias.”

O elevador antigo gemeu e tremeu enquanto subia, a estrutura metálica rangendo sob a pressão. Ao chegarem ao topo, o vento soprou forte, trazendo um ar mais puro, mas ainda assim carregado daquela poeira persistente.

A vista era, de fato, deslumbrante. A Esplanada dos Ministérios se estendia abaixo deles, um conjunto de formas geométricas imponentes, agora silenciosas e melancólicas. O Lago Paranoá brilhava fracamente sob o céu nublado, e os contornos futuristas da cidade se perdiam no horizonte.

“É lindo, Elias”, disse Isabela, a voz embargada. “Mas… não é a realidade que deveríamos estar vivendo.”

Elias a encarou, seus olhos azuis perscrutadores buscando a verdade em sua expressão. “O que você quer dizer com isso, Isa?”

Isabela hesitou por um momento, reunindo coragem. Ela tirou o comunicador de pulso e ativou o módulo de criptografia. “Eu fui a um lugar. O Arquivo Sombra. E eles… eles me deram algo. Algo que explica por que Brasília é assim. Por que o mundo é assim.”

Ela abriu o compartimento secreto e exibiu o disco de memória. Elias o pegou, seus dedos envelhecidos com uma curiosidade palpável.

“O que é isso?”, perguntou ele, sua voz mais baixa.

“É um fragmento de memória. De um projeto chamado Experimento Cronos. Eles estavam… mexendo com o tempo. Com a realidade.” Isabela começou a contar a história, as palavras fluindo com uma urgência que a surpreendeu. Ela falou sobre o vídeo do cientista, sobre a possibilidade de uma realidade construída, de memórias apagadas.

Elias ouviu atentamente, seu rosto se tornando cada vez mais sério. Ele balançava a cabeça lentamente, absorvendo cada palavra.

“Experimento Cronos… Eu ouvi sussurros sobre isso. Nos tempos áureos. Projetos secretos do governo, diziam. Algo sobre manipulação temporal para otimizar o desenvolvimento social e econômico. Mas sempre foi descartado como ficção científica. Rumores infundados.”

“Não são infundados, Elias. Eu vi. Eu vi as evidências.” Isabela sentiu um nó na garganta. “Eles manipularam tudo. Eles nos deram essa… essa Brasília que vemos. Uma versão editada. Para nos manter dóceis, talvez. Para apagar a glória que nunca chegou.”

Elias olhou para a cidade abaixo, seus olhos nublados pela incredulidade e pela tristeza. “Tudo… tudo foi uma mentira? Aquele futuro brilhante que nos prometeram… foi apenas uma miragem criada artificialmente?”

“Parece que sim. E a poeira… a poeira é o resíduo dessa manipulação. O resultado de uma realidade que foi forçada a se conformar.”

Um silêncio pesado se instalou entre eles, quebrado apenas pelo uivo do vento. Elias apertou o disco de memória em sua mão.

“Quem são ‘eles’, Isa? Quem tem esse poder?”

“Eu não sei. O vídeo chamava de ‘guardiões do tempo’. Mas parecia mais uma organização com poder. Alguém que queria controlar a história.”

De repente, um som estranho chamou a atenção deles. Um zumbido baixo, que parecia vir de todos os lados. A luz do sol, que já era fraca, pareceu diminuir ainda mais.

“O que é isso?”, perguntou Elias, com a voz tensa.

Isabela olhou ao redor, o instinto de perigo a alertando. Havia algo errado. As sombras pareciam se alongar de forma antinatural.

“Eu não sei, Elias. Mas não gosto disso.”

Então, eles viram. Vários drones de vigilância, pequenos e silenciosos, emergiram do céu cinzento, pairando ao redor da Torre de TV. Suas lentes vermelhas focaram neles.

“Eles sabem”, sussurrou Elias, o pânico começando a tomar conta de sua voz. “Eles sabem que você tem o disco.”

Um dos drones emitiu um sinal sonoro agudo, um alarme que ecoou pela plataforma.

“Precisamos sair daqui, Isa!”, gritou Elias, agarrando o braço dela.

Eles correram em direção ao elevador, mas antes que pudessem alcançá-lo, um feixe de energia azulada disparou de um dos drones, atingindo a estrutura metálica do elevador. Faíscas voaram, e o painel de controle explodiu em uma chuva de detritos. O elevador estava inutilizado.

“Droga!”, Elias praguejou. “A escada de serviço!”

Eles correram para a porta que levava à escada de serviço, mas um outro feixe de energia bloqueou o caminho, transformando a saída em um borrão incandescente.

“Estamos presos!”, exclamou Isabela, o desespero tomando conta dela.

Os drones começaram a se aproximar, suas lentes vermelhas brilhando como olhos malévolos.

“Não se desespere, Isa”, disse Elias, puxando-a para perto de uma das vigas de sustentação da torre. “Lembre-se do que você me disse. Que há mais do que a poeira e o silêncio. Que há ecos. Talvez possamos usar isso.”

Elias olhou para a cidade abaixo, seus olhos fixos em um ponto específico. “Lembra-se do Projeto Aurora? A rede de túneis subterrâneos que iam ser construídos para o transporte rápido de pessoas e mercadorias?”

“Sim”, respondeu Isabela, confusa. “Mas nunca foi concluído. Apenas alguns trechos foram escavados.”

“Exatamente. E um desses trechos… fica bem abaixo de onde estamos. Se conseguirmos chegar lá…”

Os drones se aproximavam. Um deles disparou um pulso eletromagnético, fazendo o comunicador de pulso de Isabela falhar. Ela sentiu uma onda de desamparo.

“Eles nos encontraram por causa do disco, não foi?”, perguntou ela, a voz embargada.

“Provavelmente. Ou por causa da sua busca. O Arquivo Sombra não é tão secreto quanto pensa. E eles têm olhos em todos os lugares.” Elias olhou para o disco em sua mão. “Precisamos proteger isso. É a única prova.”

Ele olhou para Isabela, seus olhos cheios de uma determinação feroz. “Isa, você é jovem. Você tem tempo. Este disco… ele precisa chegar a mais pessoas. Pessoas que ainda se importam com a verdade.”

Ele estendeu o disco para ela. “Leve. Esconda-o. Eu vou tentar distraí-los. Dar um tempo para você. Encontre o Arquivo Sombra novamente. Diga a eles que Elias enviou você. Diga a eles que a verdade precisa ser revelada.”

“Não, Elias! Não posso te deixar!”, Isabela protestou, as lágrimas começando a rolar por seu rosto.

“Você precisa, Isa. É a única chance. Eu não posso mais correr. Mas você pode. Você tem a força. A força para honrar o que você descobriu.” Elias deu um sorriso triste. “E agora, se me permite, vou dar um show para esses pássaros de metal.”

Com um último olhar para Isabela, Elias correu para a beira da plataforma, agitando os braços, gritando insultos para os drones. “Venham, seus cães engaiolados! Peguem suas migalhas de verdade!”

Os drones, atraídos pelo barulho e pelo movimento, convergiram para Elias. Isabela, com o coração em pedaços, aproveitou a distração. Ela correu para a porta da escada de serviço, ignorando os pulsos de energia que crepitavam ao seu redor. A porta estava emperrada, mas a desesperação lhe deu forças. Ela a forçou, e um pequeno espaço se abriu.

Esquivando-se dos disparos, ela se espremeu pela abertura e começou a descer a escada de serviço precária. A cada degrau, ela ouvia os sons de luta no topo, os gritos de Elias se misturando ao zumbido dos drones. Ela não ousou olhar para trás.

Quando finalmente alcançou o solo, a cidade parecia ainda mais sombria e opressora. Ela correu, o disco de memória firmemente seguro em sua mão, o eco dos gritos de Elias e a imagem de Brasília em sua mente se misturando com a realidade sombria que a cercava. O homem na Esplanada tinha razão. A verdade tinha um preço alto. E Elias acabara de pagá-lo. Agora, a responsabilidade de carregar aquele fardo recaía sobre os ombros de Isabela. Ela era a portadora dos ecos de um passado roubado, e a única esperança de um futuro que ainda podia ser resgatado. A cidade imaginária de Brasília estava prestes a encarar seus fantasmas.

---

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%