O Legado do Navegador Sertanejo
Capítulo 7 — O Portal nas Profundezas Azuis
por Alexandre Figueiredo
Capítulo 7 — O Portal nas Profundezas Azuis
O Ojo del Dragón não era apenas uma constelação; era um sistema solar vibrante, repleto de planetas estranhos e maravilhosos, cada um orbitando uma estrela binária que pintava os céus com tons de violeta e ouro. A Estrela Sertaneja navegava com cautela através dele, o pulso sonoro detectado por Sofia servindo como um guia confiável. O planeta que emitia o sinal, nomeado provisoriamente de ‘Aquilon’ pelos tripulantes, era uma joia azul no espaço, com oceanos vastos que cobriam a maior parte de sua superfície.
“É… magnífico”, sussurrou Sofia, seus olhos fixos na tela principal. A beleza de Aquilon era de tirar o fôlego. Nuvens rodopiantes de um branco perolado dançavam sobre oceanos de um azul profundo, salpicados por ilhas verdes exuberantes que pareciam flutuar sobre as águas. A assinatura energética que eles rastreavam emanava de uma região específica do oceano, uma área que os mapas preliminares indicavam ser extremamente profunda.
“Profundo, sim”, concordou Armando, seu olhar sério. “Essa profundidade não é natural. Há uma anomalia gravitacional ali, Sofia. Algo imenso está escondido sob essas águas.”
“As visões dos cristais… eles falavam de cidades submersas, Capitão”, lembrou Davi, sua voz tingida de admiração. Ele ajustava os sensores para preparar a descida através da atmosfera densa de Aquilon. “Um portal. Eles diziam que o portal estaria nas profundezas.”
“Um portal para quê?”, questionou Armando, a preocupação vincando sua testa. “Para outro lugar? Ou para outro tempo?”
Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. As visões dos cristais eram fragmentadas, cheias de símbolos e sensações. Havia a imagem de uma porta, de uma luz que consumia tudo, e um sentimento de transição, de algo que mudava fundamentalmente. “Não sei, Capitão. Mas sinto que é para lá que devemos ir. O pulso… ele está se intensificando à medida que nos aproximamos. É um convite.”
A descida foi tensa. A atmosfera de Aquilon era mais densa do que o esperado, e a Estrela Sertaneja tremeu com a força das correntes de ar. Os escudos da nave brilhavam intensamente, protegendo-os da fricção e das tempestades que rugiam acima deles. Quando finalmente romperam a camada de nuvens, o espetáculo que se apresentou era de tirar o fôlego. O oceano, antes de um azul uniforme, agora revelava um gradiente de cores que variavam do turquesa ao índigo profundo, pontuado por bioluminescência que criava padrões etéreos nas águas.
“Leve-nos para a fonte do sinal, Davi”, ordenou Armando, sua voz firme, mas com um toque de fascínio.
A nave desceu ainda mais, em direção à vasta escuridão que se estendia abaixo. A pressão aumentava a cada metro, e os sensores indicavam que estavam se aproximando de uma profundidade onde a luz solar nunca chegaria. Era um mundo de sombras e mistérios, um lugar que parecia ter sido esquecido pelo tempo.
“Capitão, estamos detectando estruturas anômalas no fundo do oceano”, anunciou Davi, seus olhos arregalados. “Não parecem naturais. São… geométricas. Construídas.”
Na tela principal, uma imagem começava a se formar. Ruínas. Não as ruínas empoeiradas e desgastadas pelo tempo que eles imaginavam, mas estruturas imponentes, feitas de um material que parecia absorver a pouca luz que as rodeava. Colunas gigantescas, arcos que desafiavam a lógica da engenharia, e edifícios que pareciam esculpidos diretamente nas rochas do fundo do mar. E no centro de tudo, um círculo de luz pulsante, emanando o sinal que os guiara.
“O portal”, sussurrou Sofia, a voz embargada. Era exatamente como as visões dos cristais haviam mostrado.
“Parece ser uma espécie de fonte de energia”, disse Armando, analisando os dados. “E essa energia… é muito antiga. E muito potente.”
A Estrela Sertaneja pairou sobre o portal, a luz azul-esverdeada iluminando o interior da ponte com um brilho intenso. A água ao redor do portal parecia vibrar, e uma correnteza forte emanava dele, puxando suavemente a nave.
“Precisamos nos aproximar mais”, disse Sofia, uma mistura de coragem e apreensão em sua voz. “Se é um portal, talvez ele precise de algo… uma chave, talvez.”
“Você acha que o cristal que você trouxe pode ser essa chave?”, perguntou Armando, olhando para o artefato que Sofia usava em um cordão em seu pescoço.
Sofia assentiu. “Os cristais me deram a rota, me mostraram o caminho. Sinto que este cristal é uma parte dele. Uma conexão.”
Com cuidado, Armando manobrou a nave para mais perto do portal. A força da correnteza aumentou, e os alarmes começaram a soar. A estrutura do portal parecia se retorcer, e a luz que emanava dele se tornou mais intensa, pulsando em um ritmo frenético.
“Capitão, as leituras de energia estão fora de controle!”, gritou Davi. “Estamos sendo puxados!”
“Mantenha o controle, Davi!”, ordenou Armando, lutando contra os comandos. A Estrela Sertaneja era uma nave poderosa, mas a força do portal era imensa.
De repente, Sofia sentiu uma atração irresistível. Seu cristal emitiu um pulso de luz forte, e ela sentiu uma conexão direta com o portal. “Capitão, eu preciso… eu preciso ir lá!”
“Sofia, não!”, gritou Armando, mas era tarde demais. Uma onda de energia o envolveu, e ela sentiu uma força poderosa puxá-la para fora da nave. Ela caiu na água, sentindo o frio penetrar em suas roupas, mas surpreendentemente, ela conseguia respirar. A água não a sufocava; parecia sustentá-la, abraçá-la.
A luz do portal a envolveu completamente, e ela sentiu sua consciência se expandir. Ela não estava mais em seu corpo, mas em um fluxo de energia, vendo vislumbres de um passado distante. Ela viu uma civilização florescendo sob as águas, seres de luz e energia que dominavam as artes da manipulação cósmica. Viu a construção das ruínas, a criação do portal, e o motivo de seu abandono.
E então, ela sentiu a presença de outros. Seres de luz, imensamente antigos e poderosos, que observavam o portal, esperando. Eles sentiram a chegada da Estrela Sertaneja, sentiram a conexão do cristal.
De volta à ponte da nave, Armando e Davi assistiam horrorizados à tela. Sofia havia desaparecido. A nave lutava contra a força avassaladora do portal, mas parecia que o portal estava… se comunicando. Não com palavras, mas com vibrações, com pulsos de energia que ressoavam com os sistemas da nave.
“Capitão, as leituras estão se estabilizando”, disse Davi, sua voz cheia de espanto. “É como se o portal… estivesse nos aceitando.”
Armando olhou para o local onde Sofia estava. Um brilho fraco permanecia no ar, onde ela havia desaparecido. Ele sentiu uma onda de determinação. Ele não a deixaria para trás. “Davi, prepare o módulo de exploração. Nós vamos entrar.”
Enquanto isso, Sofia se encontrava em um lugar que desafiava a descrição. Um espaço feito de luz pura e energia, onde o tempo e o espaço se fundiam. Ela viu a história daquela civilização gravada nas próprias paredes daquele espaço. E ela viu os guardiões do portal. Seres de pura consciência, que haviam escolhido permanecer para proteger o legado.
Um deles se aproximou dela, sua forma fluida e etérea. Não havia voz, mas sua comunicação era clara em sua mente. “Você foi escolhida, Semente de Estrelas. O Legado do Navegador Sertanejo é mais do que você imagina. O portal se abriu para você, pois você carrega a chave.”
Sofia sentiu a presença de Armando e Davi se aproximando, seus corações pulsando em uníssono com o dela. Eles não estavam mais separados. O portal os havia unido.
“Eu sinto eles”, pensou Sofia, olhando para a escuridão que a cercava, mas que agora parecia cheia de promessas. “Eles estão aqui.”
A luz do portal se intensificou, e Sofia, envolta em uma aura de energia, sentiu o portal se abrir completamente para ela, e para a Estrela Sertaneja, convidando-os a adentrar o desconhecido.