O Preço do Nosso Amor Proibido
O Preço do Nosso Amor Proibido
por Davi Correia
O Preço do Nosso Amor Proibido
Autor: Davi Correia
---
Capítulo 16 — O Sussurro da Tempestade
O ar na mansão dos Montenegro estava pesado, denso como a fumaça que ainda pairava sobre as ruínas do que um dia foi a biblioteca. A tragédia se instalara como uma visita indesejada e cruel, e seus ecos reverberavam em cada canto dos corredores grandiosos, outrora palcos de risadas e promessas, agora reduzidos a um silêncio sepulcral. A notícia do ataque e da quase morte de Gabriel se espalhara como um incêndio, mas o que realmente assombrava a todos era a identidade do agressor. A sombra, que se movia sorrateira pelas entranhas da propriedade, era a do próprio passado, um fantasma que se recusava a ser esquecido.
Eduardo, com os olhos inchados e a barba por fazer, sentia-se esmagado por um turbilhão de emoções conflitantes. A preocupação com Gabriel era um nó apertado em seu peito, um tormento constante. Cada batida de seu coração parecia um lembrete doloroso da fragilidade da vida, da proximidade do abismo. Mas, por baixo da angústia, fervilhava uma raiva fria e implacável. A raiva de saber que alguém, movido por um ódio doentio, ousara ferir a pessoa que ele amava.
Ele se sentou à beira da cama de Gabriel, a mão pairando sobre a dele, hesitante. A pele do amado estava fria, a respiração fraca, um fio tênue que o prendia à vida. As bandagens em volta de sua cabeça e braço eram um testemunho brutal da violência. Eduardo se ajoelhou, o rosto enterrado nas cobertas macias, e deixou as lágrimas rolarem. Eram lágrimas de medo, de saudade antecipada, mas também de um amor que se tornava cada vez mais resiliente diante das adversidades.
"Gabriel...", sussurrou, a voz embargada. "Por que você faz isso comigo? Por que se expõe a tanto perigo? Eu não aguento mais te ver assim. Eu... eu te amo tanto que dói."
Ele acariciou os cabelos escuros de Gabriel, sentindo o cheiro familiar que o acalmava e o atormentava ao mesmo tempo. Cada toque era uma prece silenciosa, um apelo para que ele se recuperasse, para que voltasse para ele. Ele sabia que a guerra que se travava nos bastidores era mais perigosa do que nunca. A revelação sobre a traição de Leonardo e o envolvimento de seu próprio pai na tentativa de arruinar a família de Gabriel havia deixado marcas profundas. E agora, esse ataque brutal... quem seria o próximo?
Lúcia, com a mesma dignidade que sempre a caracterizou, mas com um semblante marcado pela dor, entrou no quarto. Seus olhos se encontraram com os de Eduardo, um entendimento tácito passando entre eles. A dor era compartilhada, a preocupação mútua.
"Ele está dormindo, Eduardo", disse ela, a voz baixa. "O médico disse que ele precisa de descanso. E de muita força."
Eduardo assentiu, incapaz de falar. Ele sabia que Lúcia também estava sofrendo. Viver sob o mesmo teto que Leonardo, sabendo de seus planos sombrios, e agora ver Gabriel, seu enteado, em perigo... o peso era imenso.
"Eu preciso saber quem fez isso, Lúcia", declarou Eduardo, a voz firme ganhando um tom de determinação. "Não vou descansar até que a verdade venha à tona. E quem quer que tenha feito isso... vai pagar."
Lúcia colocou a mão em seu ombro. "Eu sei que vai, meu filho. Mas agora, o mais importante é Gabriel. Precisamos de você forte. Precisamos de nós todos unidos."
As palavras de Lúcia eram um bálsamo, um lembrete de que eles não estavam sozinhos. Mas a sensação de perigo iminente não o abandonava. Era como se uma tempestade se formasse no horizonte, ameaçando engolir a todos. Ele se levantou, decidido. Precisava agir. Precisava proteger Gabriel. E precisava desmascarar a podridão que se escondia nas sombras.
Ele saiu do quarto, o coração acelerado, a mente fervilhando com planos. A investigação precisava ser discreta, mas implacável. Ele não podia confiar em ninguém. Leonardo estava claramente envolvido na teia de sabotagem, e o pai de Eduardo... essa era uma ferida ainda mais profunda. Aquele homem que ele cresceu admirando, que o ensinara sobre honra e integridade, revelara-se um monstro disfarçado.
Eduardo caminhou pelos corredores, o olhar fixo em cada detalhe, como se pudesse desvendar os segredos que a mansão guardava. As tapeçarias antigas pareciam sussurrar histórias de intrigas e traições. Os retratos dos antepassados o encaravam com olhos vazios, como se fossem cúmplices silenciosos do mal. Ele parou diante de uma janela, olhando para o jardim desolado, as rosas outrora vibrantes agora murchas e sem vida. Era um reflexo do que sentia por dentro.
Ele sabia que precisava ser mais esperto, mais calculista. A raiva era um motor potente, mas também podia cegar. Ele precisava de provas concretas. Ele precisava de um plano que não o colocasse em risco desnecessário, mas que o levasse direto ao coração da verdade.
"Quem mais sabe sobre o ataque?", perguntou a si mesmo, a voz quase inaudível. A polícia foi chamada, claro. Mas ele não confiava que eles pudessem desvendar algo que envolvia tantos segredos de família, tantas pessoas poderosas. Era um jogo sujo, e ele precisava jogar de acordo com suas próprias regras.
Ele se lembrou das palavras de Gabriel, ditas em um momento de desespero e vulnerabilidade: "Eu não quero que você se perca por minha causa, Eduardo. Não quero que você se torne aquilo que você mais odeia." Essas palavras ecoavam em sua mente, um aviso sombrio. Ele não podia se deixar consumir pela vingança. Precisava lutar pela justiça, não pela retribuição cega.
Ele sabia que Leonardo estava se tornando cada vez mais ousado, cada vez mais perigoso. O ataque a Gabriel era uma clara demonstração disso. Era um aviso, uma provocação. Mas Eduardo não era mais o mesmo jovem ingênuo que se deixava manipular. Ele tinha aprendido a lição da forma mais dura.
Ele pegou o celular e discou um número. "Marcos? Sou eu, Eduardo. Preciso da sua ajuda. Algo muito sério aconteceu. Preciso que você venha para cá. E, por favor, seja discreto."
Marcos era seu amigo de infância, um homem de confiança, com contatos e habilidades que poderiam ser cruciais. Ele era o único em quem Eduardo sentia que podia confiar completamente naquele momento.
Enquanto esperava, Eduardo voltou para o quarto de Gabriel. O amado ainda dormia, o rosto sereno apesar das cicatrizes. Eduardo se sentou novamente ao seu lado, pegou sua mão e a levou aos lábios.
"Aguenta firme, meu amor", sussurrou, a voz carregada de uma promessa. "Eu vou proteger você. E vou lutar por nós. Não importa o preço."
A tempestade estava se aproximando, ele sentia. E ele estava pronto para enfrentá-la. A força de seu amor por Gabriel era o escudo que o protegeria, a luz que o guiaria através da escuridão. Ele não permitiria que o ódio e a ganância de outros destruíssem o que eles tinham construído. Ele lutaria até o fim.
---
Capítulo 17 — As Máscaras Caem
A mansão Montenegro, antes palco de um jantar elegante que prometia selar um acordo de negócios, agora respirava a tensão de um tribunal implacável. O silêncio que pairava no salão principal não era de respeito, mas de um medo palpável. Os olhos de Leonardo, antes cheios de uma arrogância calculista, agora carregavam um lampejo de pânico. Ele sabia que o cerco estava se fechando.
Eduardo, com uma postura fria e determinada, encarava Leonardo. A prova que ele buscava estava ali, nas mãos do homem que sempre fora seu rival, seu algoz. As câmeras de segurança, que Marcos, com sua habilidade peculiar, conseguira recuperar dos servidores da empresa de Leonardo, revelavam a verdade sem rodeios. O ataque a Gabriel não fora obra de um assaltante aleatório. As imagens eram inequívocas: um vulto encapuzado, com movimentos precisos e brutais, desferindo os golpes contra Gabriel. E, na mão do agressor, um objeto peculiar. Um anel. Um anel que Eduardo reconheceu imediatamente. O anel que Leonardo lhe dera como "presente" de despedida, um símbolo de uma traição que agora se revelava em sua totalidade.
"Você...", Eduardo começou, a voz tremendo de raiva contida. "Você fez isso. Você mandou machucar o Gabriel."
Leonardo engoliu em seco, tentando manter a compostura. "Eduardo, você está equivocado. Essas imagens podem ser forjadas. Eu jamais faria algo assim."
"Forjadas?", Eduardo riu, um som amargo que ecoou pelo salão. "Acha que eu sou idiota? Marcos recuperou essas imagens de um dos seus servidores. E esse anel", ele ergueu o objeto, o metal frio refletindo a luz, "era seu. Você me deu de presente. Lembra? Para selar a nossa... 'amizade'."
A menção do anel pareceu atingir Leonardo em cheio. Seus olhos se desviaram por um instante, um sinal de culpa inegável. Lúcia, que observava a cena com uma mistura de horror e resignação, deu um passo à frente.
"Leonardo", ela disse, a voz baixa, mas firme. "Por que você faria isso? Gabriel é seu irmão. Não importa o que tenha acontecido entre você e Eduardo, ele não merece isso."
"Irmão?", Leonardo cuspiu as palavras com escárnio. "Ele nunca foi meu irmão! Ele sempre foi o queridinho, o que teve tudo sem esforço. E você, Lúcia, sempre o protegeu, sempre o colocou acima de mim!"
O ódio em sua voz era palpável, a amargura de uma vida inteira de ressentimento transbordando. Eduardo sentiu um calafrio. Era mais do que apenas inveja. Era um ódio profundo, enraizado.
"Então é por isso? Por inveja? Você tentou arruinar a vida dele, a vida de todos nós, e agora você tenta matá-lo?", Eduardo gritou, a voz explodindo em fúria.
Leonardo deu um passo para trás, encurralado. "Eu não tentei matá-lo! Eu só queria dar uma lição! Ele precisava aprender a não se meter onde não é chamado!"
"Uma lição?", Eduardo avançou em direção a ele, os punhos cerrados. "Achar que você tem o direito de decidir quem vive ou morre é um privilégio que você não tem!"
Foi nesse momento que o pai de Eduardo, Sr. Almeida, entrou no salão. Ele observava a cena com uma expressão indecifrável, mas seus olhos se fixaram em Leonardo.
"O que está acontecendo aqui?", ele perguntou, a voz grave.
"Pai", Eduardo se virou para ele, a raiva ainda presente, mas agora misturada com decepção. "Você não sabe? Leonardo, o seu... parceiro de negócios, é o responsável pelo ataque a Gabriel."
O Sr. Almeida olhou de Eduardo para Leonardo, e então para o anel na mão de Eduardo. Um silêncio tenso pairou no ar.
"Leonardo?", ele perguntou, a voz mais baixa, quase um sussurro.
Leonardo, vendo a oportunidade de desviar a culpa, sorriu de forma sinistra. "Na verdade, Sr. Almeida, não fui eu sozinho. Eduardo também sabia de tudo. Ele estava envolvido nos planos contra a família de Gabriel desde o início. Ele só fingiu que o amava para se aproximar dele e usá-lo."
As palavras de Leonardo atingiram Eduardo como um soco no estômago. Ele não podia acreditar no que estava ouvindo. Mentiras. Mais mentiras.
"Isso é mentira!", Eduardo disparou, o rosto pálido. "Eu nunca faria isso! Eu amo o Gabriel!"
"Ah, é?", Leonardo provocou, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "Então por que você me ajudou a investigar a família dele? Por que você me deu aquelas informações sobre os negócios deles?"
Eduardo se lembrou das mensagens, dos encontros secretos. Ele havia caído em uma armadilha. O Sr. Almeida, percebendo a gravidade da situação, suspirou profundamente.
"Chega!", ele disse, a voz firme. "Leonardo, você vai explicar isso. Agora."
Leonardo, sentindo que estava perdendo o controle, decidiu jogar sua última carta. "Sr. Almeida, com todo o respeito, acho que você não entende o quão perigoso Gabriel pode ser. E Eduardo, ele está sendo manipulado. Eu estou apenas tentando proteger você e a sua reputação. Eduardo, sua participação nisso pode arruinar tudo."
O Sr. Almeida olhou para seu filho, a decepção estampada em seu rosto. "Filho, o que ele está dizendo é verdade?"
Eduardo sentiu o chão se abrir sob seus pés. Ele não conseguia acreditar que seu próprio pai estava duvidando dele, cedendo às manipulações de Leonardo.
"Pai, não é o que parece. Eu fui um idiota. Eu fui enganado. Mas eu nunca quis machucar o Gabriel. E eu nunca quis te desapontar." As lágrimas começaram a brotar em seus olhos.
Leonardo riu. "Enganado? Ou talvez você só tenha descoberto que o amor por Gabriel não compensava o poder e o dinheiro que você poderia ter?"
"Cala a boca, Leonardo!", Eduardo rosnou.
Lúcia interveio, a voz carregada de uma autoridade que todos respeitavam. "Leonardo, suas acusações são infundadas. E a sua participação no ataque a Gabriel é inegável. Marcos tem as provas. E quanto a Eduardo... ele pode ter cometido erros, mas o amor dele por Gabriel é verdadeiro. Eu vi isso com meus próprios olhos."
O Sr. Almeida olhou para seu filho, e em seus olhos, Eduardo viu um vislumbre de perdão. Ele sabia que seu pai, apesar de ter sido manipulado por Leonardo, ainda o amava.
"Eduardo", ele disse, a voz mais suave. "Eu não sei o que dizer. Estou confuso. Mas se o que Lúcia diz é verdade, e se você realmente se arrepende... então precisamos resolver isso. Juntos."
Leonardo, vendo que seu plano de dividir pai e filho estava falhando, tentou mais uma vez. "Sr. Almeida, você não pode acreditar neles! Eles estão se unindo contra mim! Eu sou o único que está dizendo a verdade!"
Nesse momento, a porta do salão se abriu e Gabriel, fraco, mas decidido, apareceu na soleira. Ele estava com um curativo na cabeça e o braço enfaixado, mas seus olhos brilhavam com uma determinação feroz.
"Não se atreva a mentir mais, Leonardo", disse Gabriel, a voz rouca, mas firme. "Eu sei de tudo. Eu sei dos seus planos. E eu sei que Eduardo nunca me trairia."
Leonardo encarou Gabriel, o pânico agora visível em seus olhos. Ele sabia que estava acabado. As máscaras haviam caído.
"Você... você está doente! Como ousa vir aqui?", gaguejou Leonardo.
"Eu vim ver a verdade vir à tona", Gabriel respondeu, um sorriso fraco, mas vitorioso, em seus lábios. "E ela está aqui. Você, Leonardo, é o único que tem algo a esconder."
O Sr. Almeida olhou para Gabriel, depois para Eduardo, e por fim para Leonardo. A verdade estava clara.
"Leonardo", ele disse, a voz carregada de decepção. "Você cruzou a linha. Você não é mais bem-vindo nesta casa. E quanto a essa parceria... ela acabou. E você vai ter que responder por seus atos."
Leonardo, derrotado, mas ainda com um resquício de sua arrogância, bufou. "Vocês vão se arrepender disso. Todos vocês." Ele se virou e saiu do salão, a raiva queimando em seus olhos.
A tensão no salão diminuiu, mas a dor ainda estava presente. Eduardo correu para Gabriel, abraçando-o com cuidado.
"Gabriel! Você não devia estar aqui! Você está fraco!"
Gabriel retribuiu o abraço, sentindo o calor familiar de Eduardo. "Eu precisava vir. Precisava ver você. Precisava que você soubesse que eu acredito em você."
Lúcia se aproximou, observando os dois com um sorriso terno. "O amor verdadeiro sempre encontra um caminho."
O Sr. Almeida, ainda processando tudo, colocou a mão no ombro de Eduardo. "Filho, eu sinto muito. Eu fui tolo. Mas estou orgulhoso de você. Por não ter desistido. Por ter lutado pela verdade."
Eduardo olhou para o pai, um nó se desfazendo em sua garganta. "Eu te perdoo, pai. E eu entendo. Mas o mais importante agora é o Gabriel."
Gabriel sorriu para Eduardo, um sorriso genuíno e cheio de amor. "Nós vamos ficar bem, Eduardo. Juntos."
A tempestade de mentiras e traições parecia ter passado. Mas a calmaria era apenas o prenúncio de uma nova jornada, uma jornada de cura, de redenção, e de um amor que provara ser mais forte do que qualquer adversidade.