O Preço do Nosso Amor Proibido
Capítulo 2 — A Melodia Inesperada
por Davi Correia
Capítulo 2 — A Melodia Inesperada
A festa de aniversário de Eduardo Bastos era um espetáculo de opulência e poder. Lustres de cristal derramavam luz sobre a multidão de ternos caros e vestidos de grife, o burburinho das conversas preenchia o ar, embalado pela música clássica de uma orquestra renomada. Para Matheus, era mais um ritual social, uma obrigação que ele cumpria com a resignação de um monge em seu mosteiro. Ele se movia entre os convidados como um fantasma, cumprindo os protocolos, trocando sorrisos vazios, enquanto sua mente vagava para longe dali, para as ruas de Lapa, para a melodia do violão.
Foi quando ele o viu novamente. O rapaz dos olhos intensos e do sorriso enigmático. Ele estava encostado em uma das colunas de mármore do salão, conversando com um homem mais velho, de barba grisalha e um ar de intelectual. O rapaz não parecia se encaixar naquele ambiente. Havia nele uma autenticidade, uma aura de quem não se curva às convenções, que contrastava com a pose estudada dos demais convidados.
Matheus sentiu o familiar arrepio percorrer sua espinha. Era uma mistura de apreensão e uma atração inexplicável. Ele tentou desviar o olhar, mas era como se seus olhos fossem atraídos magneticamente. O rapaz, por sua vez, parecia ter sentido seu olhar. Ele se virou, e seus olhos escuros encontraram os de Matheus. Um lampejo de reconhecimento, seguido pelo mesmo sorriso tímido e perturbador.
Por um momento, o tempo pareceu parar. Os sons da festa se esvaíram, e tudo o que existia era aquele olhar compartilhado. Matheus sentiu seu coração acelerar, um ritmo descompassado que não tinha nada a ver com a música clássica que tocava. Ele era um homem de razão, de lógica, criado nos preceitos da ordem e do decoro. Mas diante daquele rapaz, toda a sua armadura parecia desmoronar.
O homem com quem o rapaz conversava se virou, e em seguida, com um gesto convidativo, chamou o rapaz para perto de si. Matheus se sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Ele estava sendo apresentado. Para sua surpresa, o homem se aproximou, estendendo a mão para ele.
"Desculpe incomodar, jovem. Mas vejo que meu amigo aqui está lhe observando com um interesse particular. Sou Dr. Álvaro Mendonça", disse o homem, com uma voz amável e culta.
Matheus, ainda um pouco atordoado, retribuiu o aperto de mão. "Matheus Bastos. Prazer em conhecê-lo."
O rapaz, que se mantinha um pouco atrás de Dr. Mendonça, sorriu e se apresentou. "Diego. Diego Santos." Sua voz era mais grave do que Matheus imaginara, com um leve sotaque que adicionava um charme peculiar.
"Diego é um artista. Músico talentoso", Dr. Mendonça completou, lançando um olhar orgulhoso para o jovem. "Ele tem uma sensibilidade rara para as artes."
Matheus sentiu um nó na garganta. Músico. A melodia que ele ouvira na Lapa. "Sério? Eu... gosto muito de música", ele conseguiu dizer, sentindo que suas palavras soavam ensaiadas e fracas.
Diego deu um passo à frente, seus olhos fixos nos de Matheus. "Que tipo de música você gosta?" A pergunta era direta, sem rodeios, e Matheus sentiu que não podia mentir.
"Eu... gosto de jazz. E de bossa nova. E... poemas musicados", ele admitiu, sentindo um rubor tomar conta de suas bochechas.
Um sorriso genuíno e largo se abriu no rosto de Diego, iluminando seus olhos. "Poemas musicados! Que maravilha! Eu sou um grande fã. Drummmond, Cecília Meireles... E você?"
Matheus ficou surpreso. Ninguém em seu círculo social compartilhava desses gostos. "Drummmond, sim. E Vinicius. De Faria. Amo as letras dele."
"Eu também! São palavras que tocam a alma", Diego exclamou, sua empolgação genuína era contagiante. "Eu adoro musicar poemas. É como dar voz a um sentimento que já está ali, esperando para ser descoberto."
Dr. Mendonça sorriu, observando a conversa com interesse. "Diego tem um talento especial para isso. Ele compõe suas próprias melodias, inspiradas nas palavras. É uma alquimia pura."
Matheus sentiu uma pontada de inveja. Alquimia. Era algo que ele, preso em sua vida de deveres e aparências, jamais experimentaria. "Deve ser incrível. Poder transformar algo tão belo em outra forma de arte."
"É uma forma de expressão", Diego respondeu, seu olhar se tornando mais introspectivo. "Às vezes, a única forma de dizer o que não se pode falar."
A conversa fluiu de forma surpreendente. Eles falaram sobre música, sobre poesia, sobre a beleza do Rio de Janeiro, sobre os artistas que admiravam. Matheus se sentiu relaxado, cativado pela inteligência e pela paixão de Diego. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentiu ele mesmo, sem as amarras das expectativas familiares.
"Eu tenho um pequeno bar na Lapa onde toco às vezes", Diego revelou, como se testando as águas. "Seria um prazer se você quisesse aparecer. A música é diferente de tudo isso aqui." Ele gesticulou sutilmente para o salão luxuoso.
Matheus sentiu um frio na barriga. A Lapa. Um lugar tão distante de seu mundo. Mas a ideia de ver Diego tocar, de ouvir sua música, era irresistível. "Eu... adoraria. Me diga o nome do bar. Eu posso dar um jeito de ir."
Diego anotou o nome e o endereço em um guardanapo e o entregou a Matheus. Seus dedos se roçaram por um instante, e um choque elétrico percorreu o corpo de Matheus. O toque era leve, mas carregado de uma intensidade que o fez prender a respiração.
"Espero que você vá", Diego disse, seus olhos fixos nos de Matheus. Havia um convite implícito naquele olhar, um convite para um mundo de descobertas.
Helena, com seu faro para qualquer coisa fora do lugar, se aproximou, um sorriso forçado no rosto. "Matheus, meu amor. Sua tia Carmela está perguntando por você. Ela quer te apresentar a algumas jovens muito interessantes." A voz dela era melosa, mas a ordem era clara. A distração de Matheus havia sido notada.
Matheus sentiu o peso da armadilha se fechar ao seu redor. Ele olhou para Diego, para o sorriso que se desfez ligeiramente ao ouvir as palavras de sua mãe. Ele sentiu uma raiva repentina, uma frustração crescente.
"Ah, claro. Com licença, Dr. Mendonça. Diego", Matheus disse, sua voz um pouco mais firme do que o normal. Ele deu um último olhar para Diego, tentando transmitir algo, um pedido de desculpas, uma promessa.
Enquanto era arrastado por Helena para o outro lado do salão, Matheus sentiu uma angústia profunda. A festa, que antes era apenas tediosa, agora parecia um campo de batalha. Ele estava em guerra consigo mesmo, com suas obrigações e com os desejos que começavam a florescer em seu peito. A música de Diego, a intensidade em seus olhos, tudo isso era um chamado para uma realidade que ele não podia negar por mais tempo.
Mais tarde, no final da noite, quando a festa começava a se dissipar, Matheus viu Diego e Dr. Mendonça se despedindo. Diego olhou para Matheus com um olhar de expectativa, mas antes que pudesse se aproximar, Eduardo o chamou.
"Matheus! Venha aqui, meu filho. Quero lhe apresentar a família Costa. São grandes investidores do novo projeto imobiliário." A voz de Eduardo era firme, inquestionável.
Matheus sentiu o sangue gelar. Ele sabia que era uma ordem. Ele lançou um último olhar para Diego, que observava a cena com uma expressão indescritível no rosto. Havia decepção, sim, mas também uma compreensão silenciosa.
Enquanto caminhava a contragosto para junto de seu pai, Matheus sentiu um peso em seu peito. A melodia inesperada que Diego havia introduzido em sua vida estava sendo abafada pela cacofonia de suas obrigações. Mas ele sabia, com uma certeza arrepiante, que aquela melodia não seria esquecida. O preço do nosso amor proibido, ele pensou, já estava começando a se manifestar, em pequenos choques elétricos, em olhares roubados, em promessas sussurradas em meio ao barulho da alta sociedade. A semente havia sido plantada, e ela germinava em terreno árido, mas fértil, de um coração solitário.