O Preço do Nosso Amor Proibido
Capítulo 3 — No Coração da Lapa
por Davi Correia
Capítulo 3 — No Coração da Lapa
As semanas seguintes foram um borrão de compromissos sociais, jantares de negócios e, para o desespero de Matheus, encontros arranjados com jovens damas de famílias distintas. Sua mãe, Helena, e sua tia Carmela, uma senhora de cabelos brancos e opiniões fortes, pareciam ter declarado guerra à sua solidão. Cada evento era uma nova oportunidade para apresentá-lo a "alguém especial", a uma "bela moça" que, segundo elas, seria a parceira perfeita para um futuro Bastos.
Matheus desempenhava seu papel com a perfeição de um ator experiente, mas por dentro, a chama que Diego havia acendido teimava em arder. Ele revia o guardanapo com o nome do bar e o endereço, guardado em um compartimento secreto de sua carteira. A Lapa, um reduto de boemia, de vida pulsante e, para ele, um lugar de esperança e de perigo.
Em uma noite particularmente sufocante, após mais um jantar forçado onde a conversa girou em torno de investimentos e casamentos, Matheus decidiu que não aguentava mais. Ele mentiu para seus pais, dizendo que precisava estudar na biblioteca da universidade, e pegou seu carro. O destino: a Lapa.
O ar da noite no Rio de Janeiro era quente e perfumado. Ao se aproximar da Lapa, o som da cidade mudou. O barulho dos carros de luxo deu lugar ao ritmo contagiante do samba, às risadas soltas, às vozes cantando em bares escondidos. Matheus estacionou o carro em uma rua mais afastada e seguiu a pé, sentindo a energia vibrante do lugar se infiltrar em sua pele.
Ele encontrou o bar com facilidade. Um lugar pequeno, com a fachada desgastada e uma luz amarelada que emanava da porta aberta, convidando os curiosos. O nome do bar, "O Violão Encantado", estava pintado em letras rústicas sobre a entrada. Matheus respirou fundo, sentindo um misto de apreensão e excitação.
Ao entrar, o cheiro de cerveja e de comida caseira o envolveu. O lugar estava cheio, pessoas de todas as idades e estilos, conversando, rindo, e ao fundo, no pequeno palco improvisado, estava ele. Diego.
Ele estava concentrado, dedilhando seu violão com a mesma paixão que Matheus lembrava. Seus cabelos escuros caíam sobre o rosto, e seus olhos, agora fechados, pareciam em profunda conexão com a música. A melodia era diferente daquela que ele ouvira antes. Era mais vibrante, mas ainda carregava a melancolia que tanto tocara Matheus.
Matheus encontrou um lugar em um canto, observando Diego em silêncio. Ele não se sentia deslocado ali. Ao contrário, sentia-se mais em casa do que na sua própria mansão. Havia uma autenticidade, uma verdade naquele lugar que o atraía irresistivelmente.
Quando Diego terminou sua música, um aplauso caloroso irrompeu no bar. Ele abriu os olhos, um sorriso cansado, mas satisfeito, em seu rosto. E então, ele o viu. Matheus.
O sorriso de Diego se alargou, tornando-se genuíno e radiante. Ele acenou com a cabeça, um convite silencioso para que Matheus se aproximasse. Matheus sentiu o coração acelerar. Ele se levantou, atravessando o salão lotado, sentindo os olhares curiosos sobre si.
Chegou ao palco. "Oi", Matheus disse, um pouco sem jeito.
"Você veio!", Diego exclamou, sua voz cheia de surpresa e alegria. "Fico feliz que tenha vindo."
"Eu precisava", Matheus respondeu, olhando nos olhos de Diego. A intensidade ali era ainda maior de perto. "Sua música... ela me toca de uma forma que poucas coisas conseguem."
Diego sorriu, um sorriso que parecia desarmar todas as defesas de Matheus. "Que bom. É para isso que ela serve, eu acho. Para tocar."
Um garçom se aproximou. "O que o senhor vai querer?"
"Uma cerveja", Matheus pediu.
Diego pegou seu violão e desceu do palco. "Vem, vou te apresentar a alguns amigos."
Eles foram para uma mesa nos fundos, onde um grupo de jovens conversava animadamente. Havia artistas, músicos, escritores. Pessoas com paixões que Matheus só ousava sonhar. Ele foi apresentado a cada um deles, e para sua surpresa, foi recebido com calor e curiosidade.
"Matheus Bastos. O herdeiro da mansão?", brincou um dos rapazes, com um sorriso maroto.
Diego o defendeu. "Ele é um amante da boa música e da poesia, como nós. E tem um gosto impecável para escolher cervejas."
Todos riram, e Matheus sentiu a tensão diminuir. Ele passou horas conversando com eles, ouvindo suas histórias, compartilhando suas próprias ideias. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentiu parte de algo, de uma comunidade, de um mundo onde a arte e a paixão eram mais importantes do que o dinheiro e o status.
Ele e Diego conversaram mais profundamente. Matheus contou sobre sua vida, sobre a pressão familiar, sobre a sensação de estar preso em uma vida que não era a sua. Diego ouviu com atenção, seus olhos expressando empatia e compreensão.
"Eu sei como é isso", Diego disse. "A minha família nunca entendeu meu desejo de viver da música. Achavam que eu deveria ter um 'emprego de verdade'. Mas a música é meu emprego. É minha vida."
"E você é brilhante nisso", Matheus disse, com uma convicção que o surpreendeu.
"Obrigado", Diego respondeu, um leve rubor tomando conta de suas bochechas. "Você também tem um talento escondido, eu sinto. Você tem uma alma de artista, Matheus."
Matheus riu, um riso genuíno e aliviado. "Eu? Eu sou um futuro advogado, um bom filho, um futuro herdeiro. Artista não está no meu currículo."
"Talvez devesse estar", Diego sussurrou, seu olhar fixo nos lábios de Matheus.
A eletricidade no ar entre eles era palpável. O barulho da festa ao redor pareceu diminuir, e o mundo se resumiu àquele olhar intenso, àquele desejo silencioso. Matheus sentiu o corpo de Diego se aproximar, o calor que emanava dele. Ele fechou os olhos, esperando por aquele beijo que há tanto tempo ansiava.
Mas então, a porta do bar se abriu com um estrondo, e a luz forte da rua invadiu o ambiente. Era ele. Seu pai. Eduardo Bastos.
Eduardo, com sua expressão severa, varreu o local com o olhar, seus olhos encontrando os de Matheus. O semblante de surpresa deu lugar à desaprovação. Ao seu lado, a figura impecável de Helena, com um sorriso gelado que não escondia o desgosto.
Matheus sentiu o sangue gelar. Ele estava encurralado. A alegria da noite se desfez em um instante, substituída pelo pânico e pela vergonha. Diego, ao seu lado, também parecia chocado, mas havia nele uma dignidade silenciosa, uma recusa em se curvar.
"Matheus!", a voz de Eduardo ecoou pelo bar, fria e cortante. "O que você está fazendo aqui? E com quem?" O tom era de quem descobriu um segredo vergonhoso.
Helena se aproximou, seu olhar de desprezo fixo em Diego. "Realmente, Matheus. Eu esperava mais de você. Essa... gente..." Ela não terminou a frase, mas a implicação era clara.
Diego se levantou, sua postura ereta. "Com licença, senhor, senhora. Meu nome é Diego Santos. Sou músico. E amigo de Matheus."
Eduardo o encarou com desdém. "Amigo? Matheus não tem amigos desse tipo. Você está perdendo seu tempo, rapaz. Ele tem uma vida e um futuro que não incluem esse tipo de companhia."
As palavras de seu pai foram como facadas. Matheus sentiu uma onda de raiva e humilhação. Ele olhou para Diego, vendo a dor nos olhos do rapaz, mas também uma centelha de desafio.
"Pai, a Lapa não é um lugar de 'gente desse tipo'. É um lugar de pessoas reais. E Diego é meu amigo", Matheus disse, sua voz trêmula, mas firme.
"Amigo?", Eduardo repetiu, com um tom de incredulidade. "Você não sabe com quem está falando, rapaz. Matheus é meu filho. E eu decido com quem ele anda."
Helena agarrou o braço de Matheus. "Vamos para casa, Matheus. Agora. Isso é um ultraje. Uma vergonha."
Matheus olhou para Diego, seu coração apertado. Ele queria dizer algo, pedir desculpas, prometer que voltaria. Mas as palavras não saíam. Ele sentiu a força de sua mãe puxando-o para fora do bar, para a luz fria da rua, para o silêncio constrangedor do carro que o esperava.
No último instante, antes de ser arrastado para longe, ele olhou para trás. Diego estava parado no meio do bar, observando-o partir, com uma expressão de tristeza profunda no rosto. A melodia inesperada que havia tocado em sua alma parecia ter sido abruptamente interrompida, deixando um silêncio doloroso em seu lugar. O preço do nosso amor proibido, ele percebeu com uma clareza assustadora, era muito mais alto do que ele imaginara. E ele estava apenas começando a pagá-lo.