A Melodia Que Nos Une

A Melodia Que Nos Une

por Davi Correia

A Melodia Que Nos Une

Por Davi Correia

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Capítulo 6 — A Tempestade Que Purifica

O céu de Salvador, que tantas vezes se tingia de um azul vibrante e promissor, hoje parecia chorar. Nuvens pesadas, de um cinza sombrio, acumulavam-se no horizonte, espelhando a turbulência que se instalara na alma de Léo. A notícia da exposição de Rafael em São Paulo, e a consequente viagem dele, atingiu Léo como um raio inesperado em dia de sol. Não era ciúme, não, Léo se esforçava para acreditar nisso, era a perda. A perda da proximidade, da troca diária, daquele olhar cúmplice que se tornara o seu norte.

Ele estava no estúdio, cercado pelos cheiros familiares de tinta a óleo, terebintina e a doce fragrância do café que preparara mais cedo, na tentativa vã de afastar a melancolia. Os pincéis repousavam, inertes, sobre a paleta. A tela em branco, que antes era um convite à criação, agora parecia zombar de sua indecisão. Ele a olhou, a tela, e a única imagem que se formava em sua mente era a de Rafael, sorrindo, com aquele brilho nos olhos que Léo tanto amava. O violão, que tantas vezes embalou seus momentos de inspiração e intimidade com Rafael, jazia no canto, silencioso. Sua música, antes um bálsamo, agora parecia um eco distante, um lembrete cruel do que estava prestes a se ausentar.

Seu celular vibrou sobre a bancada. O nome de Rafael iluminou a tela. Um arrepio percorreu Léo. Ele hesitou. Cada toque do aparelho era um martelo batendo em seu peito. Será que Rafael ligava para se despedir? Para dizer que sentia falta antes mesmo de ir? Ou seria apenas uma ligação prática, sobre horários e voos? A incerteza era um veneno lento. Ele finalmente atendeu, a voz embargada por uma emoção que tentava, desesperadamente, mascarar.

"Alô?"

"Léo! Que bom que atendeu. Estou ligando porque… bem, porque preciso falar com você antes de ir." A voz de Rafael soava tensa, um tom diferente do habitual.

Léo apertou o aparelho contra a orelha, o coração disparado. "Falar? Sobre o quê, Rafa?"

"Sobre tudo, Léo. Sobre nós." Houve uma pausa. "Sobre o que estamos construindo. Sobre o que essa exposição pode significar para mim, e o que ela significa… para nós."

A respiração de Léo ficou suspensa. "Eu não entendi, Rafa."

"Eu também não entendi direito até agora, Léo. Estava arrumando minhas coisas, vendo as tintas, os pincéis… e tudo me lembrava de você. De como você me inspira. De como você transformou meu mundo em um arco-íris depois de tanta monotonia." Rafael suspirou. "E aí, me dei conta do quanto essa viagem vai ser difícil. Não pela distância em si, mas porque… porque você não estará aqui. E eu preciso que você esteja aqui, Léo. Preciso sentir que o nosso futuro não está em risco só porque eu preciso correr atrás de um sonho individual."

As palavras de Rafael eram um bálsamo, mas também um chamado à ação. Léo sentiu uma onda de alívio misturada a uma determinação crescente. A tempestade estava chegando, mas talvez, só talvez, ela pudesse limpar o ar, fortalecer as raízes.

"Eu sinto o mesmo, Rafa. A ideia de você longe… me assusta." A confissão escapou, pura e sem filtros. "Mas eu entendo a importância dessa exposição para você. E eu te apoio. Sempre. Só… não queria que isso criasse um abismo entre nós."

"Abismo? Nunca, Léo!" A voz de Rafael se aqueceu. "É exatamente isso que eu não quero. Eu quero que você seja parte disso. Que você me acompanhe, de alguma forma. Eu estava pensando… eu sei que é de última hora, mas… você não quer vir comigo?"

O convite pegou Léo de surpresa. Vir com Rafael? Para São Paulo? Era uma oportunidade única, para Rafael, mas também para eles. Para Léo, sair de Salvador, de seu estúdio, de sua zona de conforto… era um salto no escuro. Mas era um salto ao lado de Rafael.

"Vir com você?" Léo gaguejou, a mente girando em mil direções. "Rafa, eu… eu tenho o estúdio, minhas encomendas…"

"Pense nisso, Léo. Pense em nós. Em como podemos fortalecer essa conexão que temos. Podemos explorar a cena artística de São Paulo juntos, você pode conhecer novas galerias, novas inspirações. E eu… eu quero ter você ao meu lado, apoiando, celebrando. Não quero enfrentar tudo isso sozinho." Rafael parecia implorar. "Você não precisa ficar o tempo todo, claro. Podemos organizar. Mas me diga que você considera."

Léo olhou para a tela em branco, depois para o violão no canto, e em seguida para a janela, onde as primeiras gotas de chuva começavam a cair, marcando o ritmo lento e constante da tempestade que se anunciava. A chuva parecia limpar a poeira, lavar as preocupações superficiais. E o convite de Rafael… era uma oportunidade de se lavar também, de se reinventar, de se jogar de cabeça na melodia que os unia.

"Rafa…" Ele respirou fundo, sentindo a adrenalina subir. "Eu… eu preciso pensar. Mas… mas a ideia me atrai. Me atrai muito."

"Isso já é um começo!", exclamou Rafael, com um tom de esperança renovada. "Me diga quando puder. E Léo… obrigado. Por ser você."

A ligação terminou, deixando Léo em um silêncio carregado de possibilidades. A chuva agora caía com mais intensidade, batendo nas vidraças do estúdio como se quisesse entrar, forçar uma decisão. Léo caminhou até a janela, observando as gotas escorrendo pelo vidro, distorcendo a paisagem lá fora. As cores se misturavam, criavam novas formas, como em uma pintura abstrata. Era exatamente isso que Rafael trazia para sua vida: cor, forma, movimento.

Ele pegou o celular novamente, abrindo a galeria de fotos. A primeira imagem que apareceu era dele e Rafael, sorrindo, em uma das praias de Salvador, o sol poente pintando o céu de tons alaranjados e rosados. A imagem o fez sorrir. Sim, ele precisava pensar, organizar, mas a resposta já estava se formando em sua alma, tão clara quanto a melodia que agora ecoava em sua mente. A tempestade não era o fim, era o começo de algo novo.

Ele ligou para sua agente, Marina, a voz firme e decidida. "Marina, preciso de uma conversa urgente. Sobre uma viagem. Uma viagem longa. Talvez… para São Paulo."

A voz de Marina soou surpresa. "São Paulo? Léo, o que está acontecendo?"

"Algo bom, Marina. Algo muito bom. E eu preciso que você me ajude a organizar tudo. A minha ausência, as encomendas… e a minha presença lá."

Enquanto falava, Léo sentiu uma paz se instalar em seu peito. A tempestade lá fora rugia, mas dentro dele, uma nova melodia começava a tomar forma, vibrante e cheia de promessas. A melodia que o unia a Rafael.

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