A Alma Gêmea Que Te Encontrei
A Alma Gêmea Que Te Encontrei
por Enzo Cavalcante
A Alma Gêmea Que Te Encontrei
Romance: A Alma Gêmea Que Te Encontrei Gênero: BL Romance Autor: Enzo Cavalcante
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Capítulo 21 — O Sussurro do Destino na Chuva Carioca
O céu de hoje parecia um espelho do turbilhão que assolava o coração de Lucas. As nuvens pesadas, carregadas de uma chuva iminente, espelhavam a melancolia que se instalara em sua alma desde o último encontro com Gabriel. O apartamento, antes um refúgio de alegria e cumplicidade, agora parecia vasto e silencioso demais. O aroma suave de café, que outrora preenchia o ar com promessas de manhãs felizes, agora pairava como uma lembrança agridoce.
Ele caminhava de um lado para outro na sala, os passos ecoando no assoalho de madeira polida. Cada objeto parecia gritar o nome de Gabriel. A manta que usavam para se aconchegar no sofá, as taças de vinho que brindaram tantas vezes, até mesmo a estante de livros que dividiam, com as capas gastas de suas histórias favoritas. Tudo emoldurava a ausência. A ausência de um sorriso, de um toque, de um olhar que o desarmava.
Lucas parou diante da janela, observando as primeiras gotas grossas de chuva começarem a riscar o vidro. O barulho, que antes o acalmava, agora parecia um lamento constante, um ritmo para a sua angústia. Ele sabia que a distância física era a menor das barreiras. O verdadeiro abismo era o silêncio que se instalara entre eles, um silêncio carregado de palavras não ditas, de medos disfarçados, de um amor que parecia assustado demais para se entregar por completo.
Gabriel. A simples menção do nome em seus pensamentos trazia uma onda de calor e um aperto no peito. Ele se lembrava da primeira vez que seus olhares se cruzaram na livraria, um instante fugaz que parecia ter parado o tempo. Aquele rapaz de olhos intensos e sorriso gentil, que o fez sentir como se o mundo inteiro tivesse se voltado para ele. E agora, essa mesma pessoa o deixara em um limbo de incertezas.
O telefone em sua mão pareceu pulsar com vida própria. Lucas o pegou, o dedo tremendo sobre o ícone de mensagens. Havia uma notificação de Gabriel, enviada há horas. Ele hesitou. O que ele diria? O que Gabriel diria? A ansiedade era quase palpável, um nó na garganta que o impedia de respirar.
Finalmente, reunindo uma coragem que parecia escorrer junto com a chuva pela janela, ele abriu a conversa. As palavras de Gabriel eram curtas, diretas, e ainda assim, carregadas de uma ternura velada.
"Oi, Lucas. Tudo bem por aí? A chuva forte me pegou de surpresa. Espero que você esteja seguro e aquecido."
Seguro e aquecido. A ironia era cruel. Ele se sentia exposto, vulnerável, e o calor parecia ter se refugiado em algum lugar distante.
Lucas digitou e apagou a resposta dezenas de vezes. Queria gritar, perguntar o porquê do silêncio, do distanciamento. Queria dizer o quanto sentia falta, o quanto cada dia sem ele era um peso insuportável. Mas o medo o paralisava. Medo de assustá-lo, medo de ser rejeitado, medo de que tudo aquilo que construíram fosse apenas uma ilusão passageira.
Finalmente, optou por uma resposta mais cautelosa.
"Oi, Gabriel. Tudo bem por aqui também. Sim, a chuva está forte. Estou em casa. E você? Está seguro?"
A resposta veio quase instantaneamente.
"Estou sim. Cheguei agora em casa. O trânsito estava caótico. Meus pensamentos estavam com você, na verdade. Fiquei preocupado com essa chuva toda."
Seus pensamentos estavam com ele. A frase reverberou na mente de Lucas, um raio de esperança em meio à tempestade. Seria possível? Seria Gabriel sentindo o mesmo que ele?
Ele sentiu um fio de coragem brotar. Era agora ou nunca.
"Fico feliz em saber que você está bem. Sabe, Gabriel... essa chuva me lembrou daquela tarde que passamos na Praia de Ipanema. Lembra? Quando o temporal desabou do nada e corremos para o quiosque. Ficamos ali, molhados, rindo. Foi um dos dias mais felizes da minha vida."
Lucas apertou o telefone com força, o coração batendo descompassado. Cada palavra era um risco, um mergulho no desconhecido. Ele esperou, a respiração suspensa, o silêncio da tela preenchido apenas pelo som da chuva.
Minutos que pareciam horas se arrastaram. Lucas já se preparava para o pior, para mais um silêncio, para a confirmação de que seus sentimentos eram unilaterais. A decepção já começava a tomar forma em seu peito.
Então, a bolha de mensagem de Gabriel surgiu.
"Lembro perfeitamente, Lucas. Lembro do seu sorriso molhado, do jeito que seus olhos brilhavam mesmo com a chuva caindo. Lembro de sentir que ali, naquele momento, tudo estava exatamente como deveria ser. E sim, eu também fui um dos dias mais felizes da minha vida."
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Lucas, não de tristeza, mas de um alívio avassalador. A tempestade lá fora parecia diminuir de intensidade, o céu começando a clarear em algum lugar distante. A alma gêmea que ele temia ter perdido, que ele temia que fosse apenas um sonho, estava ali, respondendo, compartilhando a mesma memória, o mesmo sentimento.
Lucas sorriu, um sorriso genuíno que há muito não aparecia em seus lábios. A chuva, antes um prenúncio de desgraça, agora parecia limpar o ar, lavar as incertezas, e preparar o caminho para algo novo, algo que ele ansiava há tanto tempo. Ele sabia, com uma certeza que o inundava por completo, que o destino, assim como a chuva, às vezes precisava cair forte para que o sol pudesse brilhar com mais intensidade. E ele estava pronto para esse sol.
"Gabriel," ele murmurou, a voz embargada pela emoção, enquanto começava a digitar a próxima mensagem. "Eu acho que precisamos conversar. De verdade."
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