Guardiões do Coração da Amazônia

Capítulo 13 — O Sussurro das Raízes e a Dúvida Infectada

por Lucas Pereira

Capítulo 13 — O Sussurro das Raízes e a Dúvida Infectada

O ar da manhã trazia consigo um prenúncio de tempestade, não apenas no céu que se tornava cada vez mais carregado, mas também na tensão que pairava sobre o acampamento improvisado na margem do rio. Os recém-chegados, os homens de túnicas brancas liderados pelo astuto homem de barba, montaram seus acampamentos com uma eficiência fria e calculista. Seus movimentos eram precisos, quase militares, desprovidos da desorganização esperada de quem busca refúgio. Lia, ainda sentindo a fraqueza, mas com a determinação renovada, observava-os de longe, junto a Isak e Iara. Seus olhos, agora mais atentos, captavam cada detalhe, cada gesto sutil.

“Eles se movem como sombras”, murmurou Isak, a voz baixa, mas carregada de preocupação. “Não há desespero em seus gestos, apenas… propósito.”

“A Sombra não age por desespero, mas por um plano mestre”, respondeu Iara, a voz serena, mas com um fio de apreensão. “Ela semeia a discórdia, a desconfiança. E esses homens, com seu ar de superioridade e seus olhos frios, são o terreno fértil perfeito.”

Lia sentiu um leve tremor em suas mãos, um eco do seu dom adormecido. Ela tentou se concentrar, buscando a conexão com as raízes profundas da floresta, com a energia vital que emanava do Coração da Amazônia. O que ela sentiu, no entanto, era um sussurro perturbador, um ruído na harmonia ancestral. Era como se as próprias raízes estivessem sendo tocadas por uma força estranha, uma dúvida sutil que se espalhava como um veneno.

“As raízes… elas estão inquietas”, disse Lia, franzindo a testa. “Sinto algo… errado. Uma vibração estranha, vinda da direção deles.”

Os homens de branco, liderados pelo que se apresentara como Lorde Valerius, haviam se instalado um pouco mais afastados, montando barracas que pareciam feitas de um material resistente e desconhecido. Seus olhares, quando não focados na construção de seu acampamento, eram direcionados para a densa vegetação da floresta, com uma curiosidade que ia além da mera admiração.

Um dos homens, o de olhar furtivo que Lia havia notado antes, estava agora afastado do grupo principal, examinando algumas plantas com uma lupa de metal polido. Ele as tocava com uma delicadeza estudada, como se estivesse catalogando espécimes para um herbanário.

“Ele está coletando amostras”, disse Kael, que se mantinha alerta nas proximidades. “O que ele quer com as plantas?”

“A Amazônia é um tesouro de curas e venenos, Kael”, explicou Iara. “A Sombra, ou aqueles que a servem, podem estar interessados em seus segredos. Talvez busquem uma forma de enfraquecer o Coração, ou de criar uma arma que amplifique o medo.”

Enquanto observavam, Lorde Valerius se aproximou de Isak, um sorriso falso no rosto. “Guerreiro, apreciamos sua cautela. Mas nossa situação é precária. A fome aperta e a sede consome. Permita-nos buscar água e alimento em suas terras. Prometemos não adentrar as áreas sagradas.”

Isak hesitou. A força de sua lança era inquestionável, mas a sutileza da manipulação era um adversário mais perigoso. Ele sabia que a recusa poderia ser interpretada como hostilidade, e que a Sombra se alimentava justamente dessas tensões.

“Podem buscar água no rio”, respondeu Isak, sua voz firme. “Mas o alimento… a floresta é delicada. Precisamos ter certeza de que não haverá desperdício, nem danos.”

“Entendemos”, disse Valerius, um brilho nos olhos que Lia não gostou. “Eles sairão em pequenos grupos, para não causar alarme. Apenas o necessário para sobrevúri.”

Lia sentiu uma pontada aguda de desconfiança. Pequenos grupos. Era a brecha perfeita para espalhar a desinformação, para plantar as sementes da dúvida. Ela olhou para Iara, que assentiu levemente, a expressão grave.

“A Sombra sabe como explorar as fraquezas”, sussurrou Iara. “E a fraqueza humana, a necessidade de sobrevivência, é uma das mais fáceis de manipular.”

Nos dias que se seguiram, os homens de branco começaram a explorar os arredores do acampamento, sempre com a promessa de não adentrar a floresta profunda. No entanto, Lia sentia a sutil perturbação se intensificar. As plantas em seu redor pareciam murchar levemente quando os homens passavam por perto, como se a própria natureza reagisse à sua presença. As criaturas da floresta, antes curiosas e vibrantes, agora se escondiam, silenciosas e receosas.

Um dia, enquanto lia observava um grupo de homens coletando frutas próximo ao rio, ela notou um deles derrubar um pequeno frasco de vidro, que se estilhaçou no chão. De dentro dele, escorreu um líquido viscoso e avermelhado, que rapidamente foi absorvido pela terra. Os outros homens olharam para o frasco caído e para Lia, e um deles, com um gesto rápido, varreu os cacos com os pés, como se quisesse esconder o que havia acontecido.

Lia sentiu seu sangue gelar. Aquele líquido… era semelhante ao que ela havia sentido emanar das raízes, um toque de corrupção.

“Eles estão envenenando a terra!”, exclamou Lia, correndo em direção a Iara. “Eu vi! Eles derrubaram um frasco, e um líquido estranho escorreu para o solo!”

Iara franziu a testa, a preocupação evidente em seu olhar. “Precisamos verificar. Kael, leve-me até o local.”

Isak, que estava treinando os poucos guerreiros restantes, aproximou-se, a preocupação estampada em seu rosto. “O que está acontecendo, Lia?”

“Eles não buscam refúgio, Isak”, disse Lia, a voz embargada pelo medo. “Eles buscam destruir. Estão envenenando a terra, as plantas. A Sombra os enviou, eu sinto!”

Isak olhou para os homens de branco, que agora observavam a cena com uma indiferença calculada. A raiva começou a borbulhar em seu peito.

“Isso não ficará impune”, disse ele, a voz grave.

Iara e Kael retornaram do local indicado por Lia. O rosto de Iara estava pálido.

“É pior do que imaginávamos”, disse ela, a voz trêmula. “O veneno que eles usam é potente. Está corroendo a terra, matando as raízes. É um veneno que enfraquece a própria vitalidade da floresta. E, o pior, ele se espalha. Se não o contivermos, pode atingir o Coração da Amazônia.”

A constatação foi um golpe devastador. A Sombra não estava apenas banida, mas havia encontrado uma forma mais insidiosa de atacar. Não com força bruta, mas com veneno, com a destruição lenta e silenciosa. E o mais cruel era que aqueles que deveriam ser os mais vulneráveis, os refugiados em busca de ajuda, eram os portadores da destruição.

“Eles mentiram para nós”, disse Isak, a voz carregada de fúria. “Usaram a compaixão como arma contra nós.”

Lia sentiu um nó na garganta. A dúvida que ela sentira antes se transformou em certeza. A Sombra, mesmo em seu exílio, continuava a manipular o mundo. E o seu dom adormecido, a sua conexão com a floresta, lhe permitiu sentir o prenúncio dessa destruição.

“Eles usam a sua fraqueza para te atacar, Lia”, disse Iara, colocando a mão em seu ombro. “A Sombra sabe que você se importa. Que você se preocupa com os inocentes. E ela explora isso. Mas agora sabemos a verdade. Precisamos agir.”

A noite caiu sobre o acampamento, carregada de tensão e de um prenúncio sombrio. Os homens de branco, sorrateiros em suas intenções, continuavam a espalhar o veneno pela terra. E os guardiões, confrontados com a verdade cruel, precisavam encontrar uma forma de deter essa praga antes que ela consumisse a própria alma da Amazônia. A dúvida infectada havia se tornado um mal tangível, e a luta pela sobrevivência da floresta ganhava um novo e aterrorizante capítulo.

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