O Canto das Iaras Profanas

O Canto das Iaras Profanas

por Pedro Carvalho

O Canto das Iaras Profanas

Por Pedro Carvalho

Capítulo 1 — O Lamento da Jangada Quebrada

O cheiro salgado e úmido do mar de Pernambuco abraçava Lúcia como um velho amigo, mas naquela manhã, a familiaridade trazia um presságio sombrio. As ondas, antes gentis em seu balanço, agora se erguiam com uma fúria incomum, espalhando espuma branca como dentes em uma boca raivosa. O céu, em tons de cinza chumbo, parecia prestes a chorar uma tempestade de proporções bíblicas. Lúcia, com seus trinta e poucos anos, a pele curtida pelo sol e os cabelos negros emaranhados pelo vento, sentia o peso daquele prenúncio em cada fibra do seu ser. A jangada, sua companheira inseparável há mais de uma década, rangia e protestava sob o assalto dos elementos. Não era um ranger comum, era um lamento, um gemido de metal e madeira prestes a sucumbir.

"Aguenta, meu amor! Aguenta mais um pouco!", gritava ela para a embarcação, a voz já rouca pela salinidade e pela tensão. Seus olhos, de um verde profundo como as águas mais calmas do Caribe, varriam o horizonte. Procurava algo, qualquer sinal de terra, qualquer indício de que aquele pesadelo não seria o seu fim. Mas o mar, vasto e implacável, respondia apenas com mais ondas, mais vento, mais fúria.

Seu corpo, esguio mas forte, movia-se com a agilidade de quem viveu a vida em constante movimento. Tinha as mãos calejadas de tanto manusear as redes, as cordas, as velas improvisadas. A camisa de algodão, outrora branca, estava manchada de peixe, sal e algo que parecia ser suor e lágrimas. No braço esquerdo, uma tatuagem desbotada de uma âncora, um presente do seu pai, o velho pescador que lhe ensinara os segredos do mar antes de ser levado por uma correnteza traiçoeira. A saudade, essa velha conhecida, apertava seu peito com a mesma força das ondas que ameaçavam engoli-la.

"Se você me ouve, pai, me dê um sinal!", implorou, a voz embargada pela emoção. Ela sentia a presença dele em cada brisa, em cada raio de sol que teimava em furar as nuvens. Ele era seu norte, sua bússola em meio à vastidão perigosa.

A tempestade intensificou-se. A chuva começou a cair em grossos pingos, grossos como pedras, cegando-a por instantes. O vento uivava como um demônio enlouquecido, arrancando cabelos e bochechas. A jangada deu um solavanco violento, jogando Lúcia contra o mastro. Um grito escapou de seus lábios, não de dor, mas de desespero. Ela viu um pedaço da madeira se soltar, um estalo seco que ecoou em seus ouvidos mais alto que o trovão. A estrutura que a protegia estava cedendo.

"Não! Não agora!", ela se agarrou com todas as forças, os dedos cravando-se na madeira molhada. Ela precisava chegar à ilha. Precisava entregar a mensagem. O destino de muita gente dependia disso. A ilha de Itamaracá, para onde se dirigia com uma carga preciosa de remédios e notícias de Recife, era um refúgio, mas também um campo de batalha. Os boatos sobre a doença que assolava o continente, a "Febre do Mar", chegavam como sussurros assustadores, e Itamaracá, com seus habitantes isolados, era a primeira linha de defesa.

De repente, um clarão ofuscante rasgou o céu escuro, seguido por um trovão ensurdecedor que fez a própria jangada tremer. Lúcia fechou os olhos, o corpo encolhido, esperando o golpe final. Quando os abriu, algo diferente chamou sua atenção. No meio da água agitada, algo brilhava. Uma luz azulada, pulsante, vinda das profundezas. Não era um reflexo, era algo vivo.

A curiosidade, uma força tão poderosa quanto o medo, a impeliu. Ignorando o perigo, ela se arrastou até a borda da jangada, a corda de segurança apertada em sua cintura. A luz intensificou-se, e ela pôde distinguir uma forma. Era uma criatura, diferente de tudo que ela já vira. Tinha escamas que brilhavam como diamantes molhados, olhos grandes e negros que a fitavam com uma inteligência assustadora, e em sua testa, uma fina e translúcida crista que emitia a luz azul. Ela parecia um peixe, mas com a agilidade e a fluidez de uma serpente aquática.

A criatura nadava em círculos em volta da jangada, cada movimento hipnotizante. Lúcia sentiu uma estranha conexão com ela, um chamado silencioso que a puxava para as profundezas. O medo se misturou a uma admiração quase reverencial. Seria aquilo um presságio? Um guardião? Ou a personificação da fúria do mar?

A tempestade parecia diminuir por um instante, como se o próprio oceano prendesse a respiração para observar o encontro. A criatura aproximou-se ainda mais, seus olhos fixos nos de Lúcia. E então, ela ouviu. Não com os ouvidos, mas com a alma. Uma melodia suave, etérea, que parecia flutuar na água e no ar. Era um canto. Um canto que falava de segredos antigos, de reinos submersos, de poderes adormecidos. Era o canto das Iaras Profanas, das sereias de lendas que seu pai lhe contava, mas que ela sempre descartou como contos de pescador.

O canto era belo, mas carregado de uma melancolia profunda, um lamento ancestral que ecoava a própria angústia do mar. Lúcia sentiu as lágrimas escorrerem livremente por seu rosto, misturando-se à chuva salgada. Ela entendia aquele canto. Era a dor da perda, a força da resiliência, a promessa de renovação.

A criatura emitiu um som suave, um trinado que se misturou ao canto. E então, com um movimento rápido e gracioso, mergulhou nas profundezas, levando consigo a luz azul e o enigma. Lúcia ficou sozinha novamente, a jangada ainda à deriva, a tempestade voltando com força total. Mas algo dentro dela havia mudado. Aquele encontro, aquela melodia, haviam acendido uma faísca de esperança em meio ao desespero. Ela sabia que precisava sobreviver. Precisava chegar a Itamaracá. O canto das Iaras Profanas a chamava para um destino que ela ainda não compreendia, mas que sentia com a força de sua alma. A jangada quebrada era apenas o começo de uma jornada muito maior. A jornada para o desconhecido, para o que se escondia sob as águas turbulentas da vida.

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