O Canto das Iaras Profanas

Capítulo 17 — O Coração da Nascente e os Sussurros Ancestrais

por Pedro Carvalho

Capítulo 17 — O Coração da Nascente e os Sussurros Ancestrais

A floresta, após a perda de Yara, parecia ter mudado de cor. As tonalidades vibrantes de verde e marrom se tornaram mais sombrias, como se a própria terra estivesse vestida em luto. No entanto, para Luna, a paisagem ganhava uma nova dimensão. Guiada pelos sussurros tênues que agora ecoavam em sua alma, ela sentia as veias de energia da floresta, como um mapa místico traçado em sua mente. Cada árvore antiga, cada rocha musgosa, parecia vibrar com um conhecimento ancestral.

Kael a acompanhava de perto, seu olhar atento varrendo os arredores, pronto para qualquer ameaça. A determinação em seus olhos era palpável, mas Luna também percebia a preocupação velada. Ele sabia o quão importante era aquele lugar para ela, e o peso do que aquilo representava.

"Estamos perto", Luna murmurou, a voz baixa, quase um sussurro contra o vento que agora soprava mais forte, carregando consigo o aroma úmido de terra e folhas em decomposição. "Eu sinto a água. Uma água pura, antiga. Ela está chamando."

Ela parou por um momento, fechando os olhos e respirando fundo. As imagens que surgiam em sua mente eram fragmentadas: um vórtice de luz líquida, rostos sombreados emergindo da água, um canto hipnótico que prometia tanto salvação quanto perdição. Era o Coração da Nascente, um lugar sagrado onde a própria essência da vida da floresta se manifestava.

"Yara me falou sobre este lugar", Luna continuou, abrindo os olhos. "Ela disse que aqui as almas da floresta se reúnem. Que é onde as verdades mais profundas são reveladas. Mas também é um lugar de grande poder, e de grande perigo."

Kael assentiu. "Yara sempre foi cautelosa. Se ela a enviou aqui, é porque confia em sua capacidade de discernir o certo do errado. O que devemos procurar?"

Luna pensou por um momento, o fragmento da flor de lótus pulsando suavemente em sua mão. "Eu preciso entender. Entender por que a escuridão está se espalhando, por que o véu entre os mundos está se rompendo. Yara me deu a chama da esperança, mas a lenha para alimentá-la está aqui, neste lugar."

Eles continuaram a avançar, a vegetação se tornando mais densa, as árvores mais imponentes, suas copas se entrelaçando para formar um dossel quase impenetrável. O som da água se intensificou, transformando-se em um murmúrio constante, como um coração batendo em ritmo lento e profundo.

Finalmente, eles emergiram em uma clareira. O ar estava mais frio ali, e a luz do sol parecia se filtrar de forma estranha, como se estivesse atravessando uma lente prismática. No centro da clareira, havia uma piscina natural de águas cristalinas, tão límpidas que pareciam refletir o céu em um azul profundo e infinito. A água emanava uma luz suave e pulsante, e ao redor dela, as raízes de árvores antigas se entrelaçavam em formas esculturais, formando um altar natural.

"O Coração da Nascente", Kael sussurrou, impressionado.

Luna se aproximou da piscina, sentindo uma energia poderosa emanar dela. Era uma sensação estranha, um misto de reverência e apreensão. A água parecia chamá-la, convidando-a a mergulhar em suas profundezas.

"Eu sinto as almas", Luna disse, sua voz trêmula de emoção. "Elas estão aqui. Sussurrando."

Ela se ajoelhou na margem da piscina, estendendo a mão para tocar a água. No momento em que seus dedos tocaram a superfície, a luz da piscina intensificou-se, e imagens começaram a se formar nas águas como miragens em movimento. Eram visões fragmentadas do passado, de tempos imemoriais, quando a floresta era um paraíso intocado, guardado por seres de luz.

Ela viu as Iaras, criaturas de beleza etérea e poder inigualável, cantando melodias que mantinham o equilíbrio do mundo natural. Viu a primeira Sombra, uma entidade ancestral de pura escuridão, nascida do medo e da inveja, que cobiçou a luz e a vida da floresta.

"A Sombra...", Kael murmurou, sua mão instintivamente buscando o cabo de sua espada.

"Não", Luna disse, a voz firme, embora seus olhos estivessem fixos nas visões. "Não é uma Sombra como pensávamos. É algo mais antigo. Algo que se alimenta da dissonância, do desequilíbrio."

As visões mudaram. Ela viu as Iaras lutando contra essa Sombra, seus cantos de luz contra a escuridão. Mas a Sombra era astuta, manipuladora. Ela começou a distorcer os cantos das Iaras, transformando suas melodias puras em canções de desespero, de sedução profana. Ela as corrompeu, transformando-as em Iaras Profanas, seus corações cheios de amargura e desejo de vingança contra o mundo que as havia traído.

"As Iaras Profanas...", Luna sussurrou, a compreensão gelando seu sangue. Elas não eram apenas criaturas malignas; eram as Iaras originais, corrompidas pela Sombra. Seu canto, que antes trazia vida, agora era um veneno que trazia caos e desespero.

Uma figura emergiu das profundezas da água, uma forma esguia e sombria, com olhos que brilhavam com uma malícia antiga. Era a Sombra, em sua forma mais pura. Sua voz, um sussurro gélido, ressoou na mente de Luna.

“Você busca entender, mortal? Você busca a verdade? A verdade é que o equilíbrio é uma ilusão. A vida se alimenta da morte, a luz da escuridão. E a Sombra sempre prevalecerá.”

Luna sentiu um arrepio percorrer seu corpo. A Sombra tentava corroer sua esperança, plantar a semente da dúvida em seu coração. Mas ela se lembrou das palavras de Yara, do fragmento da flor em sua mão.

"Não é verdade!", Luna gritou, sua voz ecoando pela clareira. "A vida e a morte se equilibram, mas a luz sempre pode dissipar a escuridão. Você se alimenta do medo, mas o amor e a esperança são mais fortes do que qualquer Sombra."

A Sombra riu, um som que lembrava o ranger de galhos secos. “O amor? A esperança? São fragilidades. Fragilidades que serão esmagadas pela maré da desolação que eu trago.”

As águas da nascente começaram a borbulhar, agitando-se com uma força crescente. Rostos sombreados, as Iaras Profanas, começaram a emergir, seus olhos vermelhos e cheios de ódio fixos em Luna. Seus cantos, outrora celestiais, agora eram guturais e perturbadores, cheios de promessas de dor.

"Elas estão vindo!", Kael gritou, desembainhando sua espada, a lâmina reluzindo à luz da nascente.

Luna sentiu o poder da Sombra se intensificar, tentando sufocá-la. Mas ela fechou os olhos novamente, concentrando-se na energia que emanava do fragmento da flor, na força de Yara que agora corria em suas veias. Ela sentiu a conexão com a floresta, com os espíritos antigos que ali residiam.

"Yara!", ela chamou em pensamento. "Eu preciso de sua força. Preciso de sua sabedoria."

Uma voz suave, mas poderosa, ecoou em sua mente. Era Yara. “A verdade está em você, minha filha. Não na Sombra, mas na resistência. A Sombra se alimenta da desarmonia. Você deve encontrar a harmonia. Cante, Luna. Cante a melodia da esperança. Cante a melodia do coração que ainda pulsa.”

Luna abriu os olhos. A dor em seu peito não havia desaparecido, mas agora estava misturada a uma nova coragem. Ela sabia o que precisava fazer. Era perigoso, mas era a única chance. Ela ergueu o fragmento da flor, e com uma voz que começou hesitante, mas logo ganhou força e clareza, começou a cantar.

Não era um canto de batalha, nem um canto de desespero. Era uma melodia suave, cheia de saudade pela beleza perdida, mas também de uma esperança resiliente. Era um canto que falava da força da vida, da resiliência da natureza, do amor que persistia mesmo em meio à escuridão.

À medida que Luna cantava, a luz da nascente se intensificou. As águas calmas começaram a brilhar com uma luz dourada, dissipando as sombras que tentavam se aproximar. As faces das Iaras Profanas se contorceram em dor, seus cantos perturbados pela pureza da melodia de Luna. A Sombra rugiu em fúria, mas parecia recuar, incapaz de suportar a força da harmonia.

Kael lutava bravamente contra as criaturas que tentavam avançar, sua espada cortando o ar com precisão mortal. Mas a verdadeira batalha estava sendo travada na alma de Luna, na força de seu canto. Ela sentiu a energia da floresta fluir através dela, impulsionando sua voz, fortalecendo sua determinação.

O Coração da Nascente, banhado pela luz do canto de Luna, pulsava com uma força renovada. A Sombra recuou, seus rosnados de fúria se tornando cada vez mais distantes. As Iaras Profanas, momentaneamente afastadas pela pureza da melodia, ainda pairavam nas sombras, suas intenções sombrias.

Luna continuou a cantar, sentindo a energia fluir de seu coração para a floresta, tecendo uma rede de luz e esperança. A batalha pelo Coração da Nascente estava longe de terminar, mas naquele momento, a chama da esperança, reacendida pela melodia de uma alma resiliente, brilhava mais forte do que nunca.

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