O Canto das Iaras Profanas

Capítulo 19 — O Rio das Lágrimas e a Canção Esquecida

por Pedro Carvalho

Capítulo 19 — O Rio das Lágrimas e a Canção Esquecida

A libertação da Guardiã dos Cristais deixou um rastro de paz em seu rastro, mas também um vazio que Luna sentiu em sua alma. O eco do grito silencioso, antes uma fonte de tormento, agora se transformara em uma melodia suave de gratidão em sua mente. A Sombra havia recuado, enfraquecida, mas sua malícia ainda pairava como uma nuvem distante. Luna sabia que a batalha estava longe de terminar.

"A Sombra está mais fraca", Luna disse, enquanto saíam do labirinto de cristal, agora banhado por uma luz mais branda. "Mas ela ainda está lá. E ela vai procurar outras fontes de dissonância."

Kael assentiu, a espada embainhada, mas seus olhos ainda atentos. "O que faremos agora? Para onde vamos?"

Luna fechou os olhos, buscando as conexões que a floresta lhe oferecia. A energia da Guardiã dos Cristais, agora livre, parecia ter fortalecido seus dons. Ela sentiu um novo fluxo, um chamado que parecia vir das profundezas da terra, onde as águas mais antigas fluíam.

"Há um lugar", ela murmurou. "Um rio. Um rio que chora a dor da floresta. O Rio das Lágrimas. É para lá que devo ir."

Kael a olhou com preocupação. "Um rio que chora? Isso soa... perigoso."

"As Iaras Profanas se reúnem lá", Luna explicou. "Elas cantam suas melodias de desespero para as águas, e o rio, em sua tristeza, amplifica o sofrimento. É um dos lugares onde a Sombra mais se fortalece. Mas se eu puder encontrar a canção original das Iaras, a canção que existia antes da corrupção, talvez eu possa oferecer uma nova melodia. Uma melodia de cura."

A ideia era arriscada. As Iaras Profanas eram seres de imenso poder, e seus cantos eram capazes de enlouquecer até os mais fortes. Mas Luna sentia que era seu destino. Ela era a Guardiã da Chama da Esperança, e precisava encontrar uma maneira de reacendê-la onde ela havia sido quase extinta.

A jornada para o Rio das Lágrimas foi longa e árdua. A floresta parecia mais sombria, os caminhos mais sinuosos. A cada passo, Luna sentia a melancolia do lugar, como se as árvores estivessem suspirando em lamento.

Quando finalmente chegaram às margens do rio, o espetáculo era desolador. A água, em vez de clara e vibrante, era turva e escura, com um brilho opaco. Havia uma névoa densa que pairava sobre a superfície, carregada com um cheiro úmido de tristeza. E então, eles ouviram.

Um canto.

Era um som que dilacerava a alma. Não era um grito, nem um lamento, mas uma melodia distorcida, cheia de desespero, de inveja, de ódio. Era o canto das Iaras Profanas, e sua força era avassaladora. Luna sentiu seus joelhos fraquejarem, a cabeça girar. Era como se a própria escuridão estivesse tentando penetrar em sua mente.

Kael colocou um braço em volta dela, sua presença um ponto de firmeza em meio à tempestade sonora. "Luna! Você está bem?"

Luna respirou fundo, lutando contra os efeitos do canto. "Eu... eu preciso entrar. Preciso encontrar a canção original."

"É loucura!", Kael exclamou. "Elas vão te destruir!"

"Não se eu puder oferecer algo mais forte", Luna respondeu, seus olhos fixos na água escura. "Yara me deu a chama da esperança. Eu preciso que ela queime mais forte aqui, onde as sombras são mais profundas."

Com uma determinação que beirava a insanidade, Luna se aproximou da margem do rio. As Iaras Profanas, silhuetas etéreas na névoa, voltaram seus olhares para ela. Seus rostos, outrora belos, agora eram distorcidos pela dor e pelo ódio. E seus cantos se intensificaram, mirando Luna com toda a sua força.

"Eu não tenho medo de vocês!", Luna gritou, sua voz tentando se impor sobre a cacofonia. "Eu venho em nome de Yara! Em nome da floresta que vocês tentam destruir!"

Ela fechou os olhos, ignorando os sons hediondos. Concentrou-se na memória do canto das Iaras puras, nas visões do Coração da Nascente. Lembranças de melodias celestiais, de harmonia e de vida. Uma melodia esquecida, quase perdida na vastidão do tempo.

"Eu me lembro...", ela sussurrou. "Eu me lembro de como vocês eram."

E então, ela começou a cantar.

Não era o canto que havia usado no Coração da Nascente. Era uma melodia mais antiga, mais suave, mais pura. Uma melodia que falava da beleza da nascente, da dança da luz na água, do ciclo eterno da vida. Era a canção esquecida das Iaras, ecoando na mente de Luna, trazida de volta à vida por sua fé e por sua conexão com a floresta.

A reação foi imediata. As Iaras Profanas pararam de cantar, seus olhos se arregalaram em surpresa e, por um breve instante, em reconhecimento. A névoa sobre o rio começou a se dissipar, revelando a água turva abaixo.

O canto de Luna era como um bálsamo para a floresta ferida. Lentamente, as águas escuras começaram a clarear, a névoa se dissipando. As Iaras Profanas, confusas, olhavam umas para as outras, suas melodias de desespero interrompidas pela pureza da canção de Luna.

Uma das Iaras, a mais antiga e aparente líder, aproximou-se de Luna. Seu rosto ainda carregava marcas de dor, mas em seus olhos havia um lampejo de algo diferente. Saudade.

"Quem é você?", a Iara Profana perguntou, sua voz rouca, como se tivesse sido usada para gritar por séculos.

"Meu nome é Luna", ela respondeu, sua voz calma e firme. "Eu sou uma amiga da floresta. Eu conheço a dor que vocês sentem. Mas também conheço a beleza que vocês já foram."

A Iara Profana olhou para Luna, para a chama de esperança que ardia em seus olhos. Ela sentiu a força da canção de Luna, a verdade em suas palavras.

"A Sombra nos corrompeu", a Iara disse, sua voz embargada pela emoção. "Ela sussurrou em nossos ouvidos, alimentou nossos medos, transformou nossa dor em ódio. Nós esquecemos quem éramos."

"Mas a memória ainda está lá", Luna disse, dando um passo à frente. "A canção ainda vive em vocês. Deixem que a Sombra não as defina mais. Deixem que a esperança as guie."

Ela estendeu a mão para a Iara Profana. Hesitante, a criatura estendeu a sua. No momento em que seus dedos se tocaram, uma onda de energia pura varreu o rio. A água começou a brilhar com uma luz suave, e o canto das Iaras Profanas, outrora hediondo, começou a mudar. A dissonância deu lugar a uma melodia suave, ainda cheia de tristeza, mas sem o veneno do ódio. Era o som de almas buscando redenção.

Kael observava a cena com admiração. A força de Luna não estava em sua lâmina, mas em seu coração e em sua voz. Ela estava curando não apenas a floresta, mas as próprias criaturas que a atormentavam.

O Rio das Lágrimas começou a fluir com mais clareza, suas águas agora refletindo a luz do céu. As Iaras, ainda em sua forma profana, mas com os corações em processo de cura, cantavam uma nova melodia, uma melodia de esperança e de redenção. A Sombra havia perdido uma de suas fortalezas.

Luna sentiu um fio de conexão com as Iaras, um laço de compreensão mútua. Elas não estavam completamente curadas, o caminho seria longo, mas o primeiro passo havia sido dado. O Rio das Lágrimas não chorava mais de desespero, mas de uma tristeza mansa, de uma esperança recém-descoberta.

"Obrigada, Luna", a Iara Profana disse, seus olhos marejados. "Você nos deu de volta uma parte de nós mesmas."

"Vocês encontraram de volta por conta própria", Luna respondeu com um sorriso gentil. "Eu apenas lembrei vocês de como cantar."

Enquanto o sol começava a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados, o Rio das Lágrimas brilhava com uma luz renovada. As Iaras, em sua forma em transição, cantavam uma melodia que, embora ainda carregada de saudade, agora ressoava com a promessa de um novo amanhecer. Luna sabia que a Sombra ainda esperava nas sombras, mas ela havia reacendido a chama da esperança em um dos lugares mais sombrios, e isso era uma vitória imensurável.

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