O Canto das Iaras Profanas
Capítulo 3 — O Sussurro das Profundezas
por Pedro Carvalho
Capítulo 3 — O Sussurro das Profundezas
Lúcia, com o pergaminho da cura em mãos e a imagem da criatura luminosa gravada em sua mente, sabia que a resposta para a Febre do Mar estava além da terra firme. A "lágrima de Iara", o ingrediente crucial para a receita, era um mito para a maioria, mas para ela, se tornara uma realidade palpável. A ilha de Itamaracá, com seus habitantes definhando e o cheiro adocicado e fúnebre no ar, era um lembrete constante da urgência.
"Preciso voltar ao mar", anunciou ela a Jonas, que cuidava de Ana com uma devoção silenciosa. A febre da mulher era intermitente, mas a fraqueza era profunda.
Jonas ergueu os olhos, a preocupação tingindo seu rosto já marcado pela dor. "Voltar ao mar? Depois do que aconteceu? Você está louca, moça?"
"Não há tempo para hesitação, Jonas. Se não encontrarmos a lágrima, todos aqui morrerão. E a doença pode se espalhar. Lembro-me de ter visto algo... uma luz, no meio da tempestade. Algo que parecia me guiar." Lúcia sentiu uma onda de certeza. Aquele encontro não fora um delírio induzido pelo medo.
"Um mito, Lúcia. Apenas um conto para assustar crianças." Jonas balançou a cabeça, resignado. "Nós, pescadores, sabemos que o mar é implacável. Ele não nos dá nada sem tirar em dobro."
"Mas ele também nos mostra coisas", rebateu Lúcia, os olhos verdes faiscando com determinação. "Aquela luz... era real. Eu sinto isso. E o canto. Você sentiu o canto?"
Jonas hesitou. Ele se lembrava, sim, de uma melodia estranha que pareceu atravessar a tempestade, uma música que trouxe uma estranha calma em meio ao caos. Mas ele a atribuíra aos vapores do medo e à sua própria dor. "Talvez tenha sido o vento nas rochas..."
"Não foi o vento", Lúcia insistiu. "Foi algo mais. Algo antigo. E é para lá que preciso ir."
Ela convenceu Jonas a ajudá-la a reparar uma pequena canoa que estava abandonada na praia, junto com os destroços de sua jangada. Com as ferramentas dele e sua própria habilidade, conseguiram torná-la navegável. A canoa, pequena e frágil, era um convite ao perigo, mas Lúcia sentia que era a única chance.
Ao amanhecer, com o sol tímido lutando para perfurar a névoa, Lúcia remou para longe da ilha. O mar estava mais calmo agora, a água de um azul profundo, mas a correnteza era forte. Ela não tinha uma direção exata, apenas a sensação instintiva de que precisava seguir um caminho. A criatura luminosa aparecera quando ela estava em seu ponto mais vulnerável, e Lúcia acreditava que ela, ou algo similar, apareceria novamente.
Horas se passaram. O sol subiu no céu, e a canoa deslizava sobre as ondas. Lúcia sentiu a fome e a sede começarem a apertar, mas o pensamento em Ana e nos outros habitantes de Itamaracá a impedia de desistir. De repente, ela sentiu uma mudança na água. Uma corrente mais forte a puxava para baixo e para a direita. Era a mesma sensação que sentira na tempestade.
"É aqui", murmurou ela, o coração acelerado.
Ela parou de remar e esperou. A água parecia vibrar com uma energia sutil. E então, ela a viu. Não tão intensa quanto antes, mas inconfundível. Uma luz azulada pulsando nas profundezas. Era a criatura.
Com a respiração suspensa, Lúcia observou. A criatura nadava em círculos, parecendo chamá-la. Ela sentiu o chamado novamente, a melodia suave e etérea começando a ecoar em sua mente. Era a hora. Ela precisava mergulhar.
Sem hesitar, Lúcia tirou a camisa, deixando apenas a calça e um top. Fez uma oração silenciosa para seu pai e para a força do mar, e se lançou nas águas frias. A correnteza a puxou para baixo, para a fonte da luz. A visibilidade era limitada, mas a luz azul servia como um farol, guiando-a.
Quanto mais fundo ela ia, mais a pressão aumentava, e o ar em seus pulmões começava a queimar. A criatura nadava à sua frente, seus movimentos graciosos e fluidos, como uma dança subaquática. Ela sentiu a água se tornar mais densa, mais viva. E então, ela viu.
Era um recife de corais de beleza estonteante, com cores que Lúcia nunca vira em nenhuma praia. Corais em tons de roxo, esmeralda, ouro e prata, irradiando uma luz própria. No centro do recife, em uma cavidade protegida, repousavam várias conchas peroladas, maiores e mais brilhantes do que qualquer concha que ela já tivesse visto. E sobre elas, pairava a criatura luminosa, como uma guardiã.
Lúcia aproximou-se, a admiração tomando conta dela. A criatura a observava com seus grandes olhos negros, sem medo, sem hostilidade. Era como se soubesse de sua missão. Lúcia estendeu a mão trêmula em direção às conchas. A criatura, com um movimento suave, afastou-se de uma delas.
A concha era fria ao toque, mas irradiava um calor sutil. Dentro dela, não havia um tesouro de pérolas, mas sim uma substância translúcida e viscosa, com um brilho azulado. Era como uma lágrima solidificada. A "lágrima de Iara".
Com extremo cuidado, Lúcia recolheu a substância, colocando-a em um pequeno frasco de vidro que trouxera. A criatura a observava, seus olhos parecendo transmitir uma antiga sabedoria. Lúcia sentiu a necessidade de agradecer, de expressar sua gratidão por aquela dádiva.
"Obrigada", sussurrou, a voz embargada pela emoção. "Obrigada por me guiar. Obrigada por esta cura."
A criatura emitiu um trinado suave, um som que ressoou em seus ossos, e então, com um movimento rápido, desapareceu nas profundezas, levando consigo a luz azul. Lúcia sabia que aquele era o fim do encontro, mas o começo de uma nova esperança.
Com a preciosa carga em mãos, Lúcia nadou de volta para a superfície, lutando contra a correnteza que agora parecia tentar impedi-la de sair daquele santuário subaquático. Ao chegar à canoa, o sol já começava a se pôr, pintando o céu com tons alaranjados e rosados. Ela se sentiu exausta, mas o frasco em suas mãos irradiava uma energia que a sustentava.
Remou de volta para Itamaracá, a vila agora mergulhada em um silêncio ainda mais profundo com a chegada da noite. Jonas a esperava na praia, o rosto iluminado por uma esperança cautelosa.
"Você conseguiu!", exclamou ele, ao ver o frasco. "Eu não acreditei que você voltaria."
"Eu voltei", disse Lúcia, um sorriso fraco em seus lábios. "E trouxe a cura."
Na casa de Jonas, Ana ainda lutava pela vida. Lúcia, com mãos firmes, preparou a receita com a lágrima de Iara e as ervas medicinais. O cheiro era forte, penetrante, mas não mais fúnebre. Era um aroma de vida, de renovação. Administrou a poção a Ana, e esperou, com o coração na mão.
As horas seguintes foram de vigília tensa. Lúcia e Jonas observaram Ana, cada respiração, cada movimento. Lentamente, o rubor começou a voltar às suas bochechas. A febre cedeu. Sua respiração tornou-se mais regular. Ao amanhecer, Ana abriu os olhos, mais lúcida do que em dias.
"Eu... eu sinto que melhorei", disse ela, a voz ainda fraca, mas firme.
Um suspiro de alívio escapou de Lúcia e Jonas. A lágrima de Iara funcionara. O canto que a guiara não era apenas um lamento, mas um chamado para a salvação. A ilha de Itamaracá, outrora à beira da extinção, agora tinha uma chance. E Lúcia, a pescadora de Recife, havia se tornado a portadora da esperança, a mensageira das profundezas, a que desvendara o segredo do canto das Iaras Profanas.