O Canto das Iaras Profanas

Capítulo 4 — O Preço da Cura

por Pedro Carvalho

Capítulo 4 — O Preço da Cura

A melhora de Ana foi um milagre visível, um raio de sol rompendo a densa névoa que pairava sobre Itamaracá. A notícia se espalhou pela vila como um incêndio, reavivando a pouca esperança que restava. Lúcia, com a poção restante, começou a tratar os outros doentes, um a um, com a dedicação incansável de quem carrega o peso da vida e da morte em suas mãos.

O processo era exaustivo. A combinação da lágrima de Iara com as ervas, o ritual de purificação com água salgada, a vigilância constante. Mas a cada paciente que mostrava sinais de melhora, a determinação de Lúcia se fortalecia. Ela via os rostos pálidos ganharem cor, as tosse seca se acalmarem, o brilho doentio nos olhos dar lugar a um olhar mais lúcido.

Jonas, ao lado dela, era um pilar de força. Ele organizava a vila, garantindo que os remédios fossem administrados corretamente, que os doentes tivessem água e comida. A gratidão em seus olhos era palpável, um bálsamo para a alma cansada de Lúcia.

"Você salvou todos nós, Lúcia", disse ele uma noite, enquanto observavam Ana dormir profundamente, a respiração tranquila. "Ninguém mais acreditava. Pensávamos que era o fim."

Lúcia sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno. "Não fui eu, Jonas. Foi o mar. E o que ele me mostrou." A imagem da criatura luminosa e a melodia etérea ainda a acompanhavam, um lembrete constante da força misteriosa que a guiara.

Mas a cura tinha um preço. A lágrima de Iara era uma substância preciosa e limitada. Lúcia sabia que o suprimento que trouxera não seria suficiente para todos os doentes, e muito menos para prevenir futuros surtos da Febre do Mar. A ilha dependia de suas próprias fontes, e a "lágrima" era algo que só se encontrava nas profundezas, guardada por criaturas místicas.

"Precisamos encontrar mais", disse Lúcia a Jonas, no dia seguinte, ao verificar o frasco quase vazio. "Precisamos entender como produzir mais. Ou onde encontrar mais."

"É perigoso, Lúcia", alertou Jonas. "Você quase morreu da última vez. E quem sabe o que mais o mar esconde."

"Eu sei", respondeu ela, o olhar fixo no horizonte azul. "Mas a vida de todos aqui está em nossas mãos. Não podemos parar agora."

Naquela tarde, enquanto Lúcia preparava mais uma dose da poção, um pescador, um dos poucos que ainda tinham forças para sair ao mar, retornou com más notícias. Ele viera de uma vila vizinha, na costa continental, e o cenário era ainda mais sombrio. A Febre do Mar havia se espalhado, devastando comunidades inteiras. O medo de que a doença chegasse a Recife, a cidade grande, era palpável.

A urgência apertou o peito de Lúcia. Ela não era apenas a salvadora de Itamaracá, mas uma possível portadora da cura para um mal que ameaçava a todos. Ela precisava de mais. Precisava de um meio de replicar a lágrima de Iara, ou de encontrar a fonte.

Naquela noite, Lúcia não conseguiu dormir. A melodia das Iaras Profanas ecoava em sua mente com mais força, mas agora, misturada a um tom de urgência, de aviso. Ela sentiu que o mar a chamava novamente, mas não para uma busca individual. Era um chamado para uma responsabilidade maior.

Ela decidiu que precisava voltar para Recife. Levar notícias da cura e pedir ajuda. Mas antes, precisava tentar uma última vez encontrar uma fonte maior da lágrima de Iara. Ela se lembrou da descrição do local nas lendas de Recife, um lugar conhecido como o "Santuário Submerso", um lugar de águas cristalinas e correntes antigas, onde se dizia que as Iaras Profanas deixavam seus tesouros.

Com a ajuda de Jonas e de outros pescadores que se recuperavam, Lúcia preparou uma pequena embarcação, mais robusta que a canoa, e abasteceu-a com suprimentos e o restante das ervas medicinais. A despedida foi emocionante. As pessoas da vila, recuperadas e cheias de gratidão, a abraçavam, chamando-a de sua salvadora.

"Você é a nossa esperança, Lúcia", disse Ana, a voz mais forte agora. "Volte logo."

Lúcia prometeu que voltaria. Ela partiu ao amanhecer, remando em direção ao mar aberto, guiada pela lembrança do canto e pela necessidade de encontrar o Santuário Submerso. A jornada foi árdua. A correnteza parecia testá-la, as ondas ameaçavam virar a pequena embarcação. Mas a determinação de Lúcia era inabalável.

Após dois dias de viagem, guiada por seu instinto e por antigas cartas náuticas de seu pai, Lúcia avistou um ponto no oceano onde a água parecia mais clara, quase translúcida. Era um local diferente, com um brilho incomum. Ela sabia que estava perto.

Com a canoa ancorada em um ponto seguro, Lúcia se preparou para mergulhar. A água era fria, mas incrivelmente límpida. Ela desceu, seguindo a linha da luz que emanava das profundezas. A criatura luminosa apareceu novamente, nadando ao seu lado, guiando-a por entre formações rochosas e corais exóticos.

Chegou a uma vasta caverna subaquática, iluminada por uma luz azulada e suave. No centro da caverna, havia um leito de areia branca, onde repousavam dezenas de conchas peroladas, idênticas às que ela encontrara antes. E sobre elas, a criatura, que parecia ser a guardiã daquele lugar.

Lúcia sentiu uma profunda paz naquele santuário. Era um lugar de poder, de cura, de mistério. Ela pegou quantas "lágrimas de Iara" pôde carregar, enchendo vários frascos. A criatura a observava, e Lúcia sentiu que, naquele momento, ela estava estabelecendo uma conexão mais profunda com as Iaras Profanas, com a essência do mar.

Enquanto se preparava para retornar, sentiu um tremor no fundo do mar. A água começou a se agitar, e a luz azulada diminuiu. A criatura emitiu um som de alerta, um trinado agudo que Lúcia nunca ouvira antes. Algo estava acontecendo.

Um vulto escuro e enorme surgiu nas profundezas, uma sombra que engoliu a luz. Não era a criatura luminosa, era algo diferente, algo que emanava uma aura de perigo e destruição. Lúcia sentiu um medo primordial percorrer seu corpo. Aquele era o verdadeiro terror do mar, a força que as lendas evitavam mencionar.

A criatura luminosa tentou defender o santuário, atacando a sombra com rajadas de luz azul, mas era em vão. A escuridão era avassaladora. Lúcia sabia que precisava fugir. Agarrou os frascos com a lágrima de Iara e nadou o mais rápido que pôde, a criatura a guiando em direção à saída da caverna.

Ao emergir na superfície, Lúcia viu que o mar estava escuro e agitado, apesar de não haver tempestade. Uma maré estranha puxava sua embarcação. A sombra que ela vira nas profundezas parecia se aproximar, uma ameaça invisível, mas palpável.

Ela remou com todas as suas forças em direção a Recife, a carga preciosa em suas mãos e a imagem da sombra a assombrando. A cura para a Febre do Mar estava em suas mãos, mas agora, ela sabia que havia um mal ainda maior à espreita nas profundezas, um mal que as Iaras Profanas lutavam para conter. E, de alguma forma, seu destino estava intrinsecamente ligado a essa batalha ancestral entre a luz e a escuridão, entre a cura e a destruição. O preço da cura era mais alto do que ela imaginava.

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