Lendas da Terra Encantada de Ayara

Capítulo 17 — O Sussurro do Véu de Seda

por Pedro Carvalho

Capítulo 17 — O Sussurro do Véu de Seda

O ar na Cidadela da Aurora tornou-se denso, carregado de uma tensão palpável após o ataque do Mago Sombrio. A bravura de Elara em conter a maldição ancestral no grimório salvou a todos de uma propagação imediata, mas a ameaça, agora clara e presente, pairava como uma nuvem de tempestade prestes a desabar. Os Anciãos, antes confiantes na invencibilidade de suas muralhas, agora compartilhavam a apreensão que se espalhava pelos rostos dos cidadãos.

Elara e Kael, apesar do esgotamento físico e mental, não podiam descansar. A descoberta do grimório e a revelação de Morwen como a mente por trás da praga eram um passo crucial, mas a solução ainda parecia distante. A maldição era antiga, poderosa, e sua natureza ilusória tornava-a difícil de combater.

“Precisamos entender a origem dessa maldição,” disse Elara, sua voz embargada pela fadiga, enquanto examinava o grimório selado com encantamentos de proteção que ela mesma havia conjurado. “Por que Morwen a despertou agora? E como ela a amplifica?”

Kael, que montava guarda do lado de fora da sala onde Elara trabalhava, observava o movimento cauteloso dos guardas da Cidadela. Seus olhos não perdiam nenhum detalhe, nenhum movimento suspeito. “Morwen é paciente, Elara. Ela espera o momento certo para golpear. E parece que ela acredita que este é o momento em que Ayara está mais vulnerável.”

“Vulnerável pela perda de esperança,” Elara completou, pensativa. “É um ciclo vicioso. A praga rouba a esperança, e a falta de esperança alimenta a praga.”

Naquele mesmo dia, um mensageiro chegou à Cidadela, vindo de uma das vilas mais afastadas. Trazia notícias sombrias. A praga, embora contida na Cidadela, havia se espalhado pelas aldeias vizinhas com uma velocidade aterradora. O desespero tomava conta dos doentes e dos saudáveis, e o número de mortos aumentava a cada hora. O desespero não era apenas uma doença; era um contágio.

O coração de Elara apertou. Ela sentiu a urgência de agir, de encontrar uma cura, uma forma de dissipar essa escuridão antes que engolisse Ayara por completo. Os Anciãos convocaram uma reunião de emergência. A atmosfera era de preocupação, mas também de determinação.

“Nossa Cidadela, que sempre foi um bastião de luz, agora sente o toque gelado da sombra,” disse o Ancião Lyra, sua voz soando mais frágil do que de costume. “Precisamos de um plano, um contra-ataque que vá além da mera defesa.”

Foi então que uma das Anciãs mais velhas, uma mulher de semblante sereno e sabedoria ancestral chamada Elara, mencionou um artefato esquecido, guardado nas profundezas da Cidadela, conhecido como o Véu de Seda.

“Dizem as lendas que o Véu de Seda foi tecido com os primeiros raios de sol de Ayara,” explicou Elara, com os olhos brilhando com a lembrança de antigas histórias. “E que ele possui o poder de filtrar a escuridão, de restaurar a luz e a esperança em qualquer lugar que toque. Mas seu poder só se manifesta quando envolto em um ato de sacrifício e amor puro.”

Um sacrifício e amor puro. Elara sentiu um arrepio ao ouvir essas palavras. Seria ela capaz de realizar tal ato? A lembrança de seu mestre, de sua luta contra Morwen, de sua dedicação inabalável a Ayara, acendeu uma chama de determinação em seu peito.

“Onde está este Véu de Seda?” perguntou Elara, sua voz firme e clara, cortando o silêncio apreensivo.

A Anciã Elara apontou para uma passagem secreta, escondida atrás de uma tapeçaria antiga que retratava a criação de Ayara. “Ele está guardado no santuário mais profundo da Cidadela, em uma câmara selada por gerações. Apenas aqueles com um coração puro e a intenção de proteger Ayara podem acessá-lo.”

Elara, acompanhada por Kael, desceu pelas passagens frias e úmidas, um silêncio sepulcral quebrando apenas pelo som de seus próprios passos. A cada corredor que percorriam, a atmosfera se tornava mais pesada, as energias sombrias pareciam se agitar, como se sentissem a aproximação de algo que as ameaçava.

Finalmente, eles chegaram a uma porta maciça, adornada com entalhes intrincados de luz solar e flores celestiais. Elara estendeu a mão para a porta, sentindo a energia de proteção emanando dela. Ela fechou os olhos, concentrando-se em seu amor por Ayara, em sua determinação em salvar seu povo. A porta se abriu com um rangido suave, revelando uma câmara circular iluminada por uma luz etérea.

No centro da câmara, sobre um pedestal de cristal, repousava o Véu de Seda. Era um tecido translúcido, de um branco perolado, que parecia absorver e reemitir a luz ambiente de forma mágica. Ele pulsava com uma energia suave e calorosa, um contraste gritante com a escuridão que Elara sentia do lado de fora.

“É lindo,” sussurrou Kael, admirado.

Elara aproximou-se com reverência. Ao estender a mão para tocar o Véu, ela sentiu uma onda de energia pura atravessá-la, acalmando suas dores e fortalecendo sua vontade. Mas junto com a energia, veio uma visão, um eco do passado. Ela viu Morwen, mais jovem, consumida pela amargura e pelo desejo de poder, tecendo a maldição em um ritual sombrio, alimentada por sua própria dor e perda. Ela viu a origem da maldade, o motivo de sua raiva.

“Morwen… ela sofreu muito,” murmurou Elara, a visão a perturbando profundamente. “Ela perdeu alguém que amava, e essa dor a corrompeu.”

“O amor pode ser uma força poderosa, Elara, tanto para construir quanto para destruir,” disse Kael, sua voz grave ecoando na câmara. “Mas a dor não justifica a crueldade.”

Elara assentiu, a compreensão crescendo dentro dela. Para usar o Véu, ela precisava canalizar não apenas seu amor por Ayara, mas também um sacrifício. Algo que significasse tudo para ela. A lembrança de seu mestre, que havia dado sua vida para protegê-la e para tentar conter Morwen, veio à tona. Ela compreendeu.

Com lágrimas nos olhos, mas com uma determinação férrea, Elara pegou o Véu de Seda. Ele era leve, quase etéreo em suas mãos. A energia que emanava dele era reconfortante, um bálsamo para a alma.

“Precisamos levá-lo para as vilas o mais rápido possível,” disse Elara, sua voz carregada de urgência. “Antes que a escuridão consuma tudo.”

Enquanto se preparavam para partir, uma sombra mais densa do que as outras rastejou pela entrada da câmara. Era um dos guardas da Cidadela, seus olhos opacos e sem vida, controlados pela magia de Morwen.

“Vocês não vão sair daqui,” rosnou o guarda, sua voz distorcida.

Kael agiu instantaneamente, sua espada desferindo um golpe rápido e preciso, desarmando o guarda. Mas antes que ele pudesse retaliar, outros guardas, também corrompidos, surgiram, bloqueando a saída. A traição se manifestava nas entranhas da Cidadela, um reflexo da própria praga que se espalhava.

“Eles estão sob o controle de Morwen,” alertou Elara, sentindo a influência sombria em cada um deles.

A luta foi breve, mas intensa. Kael lutava com a habilidade de um guerreiro experiente, enquanto Elara usava sua magia para atordoar e desorientar os atacantes, protegendo o Véu de Seda com seu próprio corpo. Ela sentia a energia do Véu pulsando contra si, como um chamado, uma promessa de cura.

Em um momento de desespero, quando um dos guardas estava prestes a atacar Kael pelas costas, Elara agiu por instinto. Ela ergueu o Véu de Seda, canalizando toda a sua energia, seu amor por Kael, seu desejo de protegê-lo, e o lançou em direção ao guarda.

Um clarão de luz branca pura irrompeu do Véu, envolvendo o guarda. Ele gritou, não de dor, mas de liberação, enquanto a influência sombria se dissipava de seus olhos. Ele caiu de joelhos, confuso, mas livre.

Os outros guardas, vendo isso, hesitaram. A luz do Véu parecia repeli-los, enfraquecer seu controle. Elara percebeu. A maldição de Morwen era poderosa, mas o amor e o sacrifício eram ainda mais.

“O sacrifício… é o que ativa o Véu,” disse Elara, com a voz trêmula, mas cheia de esperança. Ela olhou para Kael, um entendimento silencioso passando entre eles. Ela sabia o que precisava ser feito.

Com um último olhar para Kael, um olhar que continha todo o amor, a gratidão e a promessa de um futuro que talvez nunca viesse, Elara abraçou o Véu de Seda. Ela o envolveu em si mesma, sentindo a luz pura invadir cada célula de seu corpo. A escuridão ao redor deles retrocedeu, a influência de Morwen se enfraquecendo.

“Elara!” Kael gritou, percebendo a intenção dela.

Mas era tarde demais. Elara sorriu para ele, um sorriso triste e radiante. “Pela Ayara,” sussurrou ela, e então, em um turbilhão de luz branca, ela e o Véu de Seda desapareceram, deixando para trás apenas o eco de seu sacrifício e uma promessa de esperança que começava a renascer nas profundezas da Cidadela. O Véu de Seda havia sido ativado, mas a um custo que pesava terrivelmente sobre o coração de Kael.

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