Lendas da Terra Encantada de Ayara

Capítulo 18 — A Fúria Silenciosa do Deserto de Cinzas

por Pedro Carvalho

Capítulo 18 — A Fúria Silenciosa do Deserto de Cinzas

O desaparecimento de Elara e do Véu de Seda deixou Kael em um estado de choque paralisante. A Cidadela da Aurora, antes um refúgio, agora parecia um túmulo frio e vazio. A luz branca que envolveu Elara ao usar o Véu foi a última vez que ele a viu, um brilho efêmero que consumiu seu ser em troca da libertação momentânea dos guardas corrompidos. A Anciã Elara confirmou o que ele já temia: o Véu de Seda exigia um sacrifício puro e desinteressado para liberar todo o seu poder. E Elara, com seu amor por Ayara e por aqueles que amava, havia dado tudo.

Os Anciãos, embora entristecidos pela perda, reconheceram a magnitude do ato de Elara. Ela havia ganhado tempo, um recurso precioso, e espalhado uma onda de esperança renovada que, por ora, dissipou a influência sombria na Cidadela. Mas a praga ainda assolava o reino, e Morwen, ciente do que havia acontecido, certamente não descansaria.

“Ela não poderia ter ido para longe,” disse Kael, a voz rouca pela dor e pela raiva contida. Seus olhos, geralmente controlados, agora ardiam com uma determinação sombria. “Morwen está manipulando tudo isso. Ela é a fonte, e eu a encontrarei.”

Os Anciãos o alertaram sobre a perigosidade de se embrenhar sozinho em território inimigo, especialmente sem a orientação e a magia de Elara. Mas Kael estava irredutível. Ele sentia a necessidade visceral de vingar Elara e de acabar com o reinado de terror de Morwen.

“O último resquício da magia de Elara, um eco do Véu de Seda, parece ter se dirigido para o sul,” disse a Anciã Elara, consultando um oráculo antigo. “Para o Deserto de Cinzas. Um lugar que se diz ser o coração de onde Morwen extrai seu poder sombrio.”

O Deserto de Cinzas. Um nome que evocava imagens de desolação e morte. Um lugar onde a vida se recusava a florescer, onde a própria terra parecia chorar as tragédias que ali haviam ocorrido. Kael não hesitou. Se era lá que ele encontraria Morwen, era para lá que ele iria.

Ele preparou seu cavalo, um corcel negro e robusto chamado Tempestade, e juntou o essencial para uma jornada solitária. Ao cruzar os portões da Cidadela, sentiu os olhares apreensivos dos habitantes, mas também a esperança em seus olhos. Eles depositavam em Kael a mesma fé que um dia depositaram em Elara.

A paisagem mudou drasticamente à medida que Kael se afastava da Cidadela. As verdes colinas de Ayara deram lugar a planícies áridas e, finalmente, ao vasto e desolador Deserto de Cinzas. O sol, antes um símbolo de vida, agora parecia um olho flamejante que o observava sem piedade. O ar era seco e sufocante, impregnado com o cheiro acre de enxofre e de cinzas frias. O solo sob as patas de Tempestade era uma mistura de areia negra e pedras quebradiças, pontilhada por esqueletos de árvores retorcidas que pareciam garras estendidas em direção ao céu.

Kael montou por dias, guiado apenas pela intuição e pelo fraco rastro de energia que a Anciã Elara havia mencionado. A solidão era um fardo pesado, amplificando a dor pela perda de Elara. Ele revivia os momentos que passaram juntos, desde o primeiro encontro nas ruínas antigas até os últimos instantes na Cidadela. A imagem de seu sorriso radiante e seu sacrifício ecoava em sua mente, alimentando sua determinação.

“Eu vou acabar com isso, Elara,” murmurou ele, a voz um rosnado baixo. “Eu vou te vingar.”

Ele encontrou os primeiros sinais da corrupção de Morwen no próprio deserto. Criaturas retorcidas, antes habitantes pacíficos da região, agora vagavam com olhos vermelhos e selvagens, instigadas pela escuridão. Kael lutou contra elas com uma ferocidade implacável, sua espada um borrão de aço que cortava a noite. Cada criatura que caía parecia um eco da dor que Morwen havia infligido a Ayara.

Finalmente, após uma semana de viagem exaustiva, Kael avistou ao longe uma estrutura sombria que se erguia contra o horizonte empoeirado. Um castelo negro, com torres pontiagudas que pareciam perfurar o céu. Era a fortaleza de Morwen, um lugar de poder e desespero, o coração do Deserto de Cinzas.

Ao se aproximar, Kael sentiu a energia sinistra emanando do castelo. Era uma força palpável, que tentava sufocar sua vontade, semear o medo em seu coração. Mas Kael não cedeu. O amor por Elara e o desejo de justiça o protegiam, formando um escudo contra a influência sombria.

Ele desmontou de Tempestade, deixando o cavalo em um local seguro, e avançou a pé em direção ao castelo. Os portões, feitos de ferro negro e adornados com símbolos macabros, estavam abertos, convidando-o para a armadilha. Kael sabia que era uma cilada, mas não havia como voltar atrás.

O interior do castelo era tão desolador quanto o exterior. Corredores escuros, salões grandiosos, mas sombrios, repletos de artefatos que emanavam uma energia maligna. Estátuas grotescas pareciam observá-lo de seus nichos, e o silêncio era quebrado apenas pelo gotejar de uma água desconhecida e pelos sussurros fantasmagóricos que pareciam vir das próprias paredes.

Kael avançou com cautela, sua espada em punho. Ele sabia que Morwen o estaria esperando, que este era um jogo que ela havia planejado meticulosamente. E então, ele a viu.

Em um salão vasto, iluminado por tochas que ardiam com uma chama verde e doentia, estava Morwen. Ela era alta e esguia, envolta em vestes escuras que pareciam feitas de sombras. Seu rosto, embora marcado pela idade e pela amargura, possuía uma beleza sombria e hipnotizante. Seus olhos, de um azul gélido, perfuravam Kael com uma intensidade aterradora.

“Então, o pequeno guerreiro veio em busca de vingança,” disse Morwen, sua voz suave e sedutora, mas carregada de um poder avassalador. “Veio pelo amor que você sente pela sua amada que se foi?”

“Você tirou tudo de mim, Morwen!” rugiu Kael, a voz ecoando pelo salão. “Você corrompeu Ayara, espalhou o desespero e agora… você a levou!”

Morwen riu, um som seco e sem alegria. “Eu não a levei. Ela se sacrificou. Um ato de amor tolo que apenas fortaleceu meu poder. O Véu de Seda é meu agora. Sua energia, sua essência… tudo se tornou parte de mim.”

Kael sentiu um arrepio de horror. A energia do sacrifício de Elara, a luz que deveria ter salvado Ayara, agora estava nas mãos de Morwen, sendo usada para alimentá-la.

“Você é uma aberração, Morwen,” disse Kael, apertando o punho de sua espada. “Você se alimenta da dor alheia.”

“E você se alimenta do ódio,” retrucou Morwen, um sorriso cruel brincando em seus lábios. “O ódio que você sente por mim. É um sentimento tão puro, tão forte. Ele me fortalece.”

A batalha começou. Kael atacou com toda a sua fúria, seus golpes rápidos e precisos. Morwen, por outro lado, parecia dançar entre seus ataques, esquivando-se com uma agilidade sobrenatural. Ela conjurava magias sombrias, raios de energia negra que Kael desviava com sua espada. A cada toque da espada de Kael em um dos feitiços de Morwen, uma explosão de cinzas frias se espalhava pelo salão.

“Você luta com a fúria de um leão ferido,” disse Morwen, seus olhos brilhando com satisfação. “Mas a fúria cega. Ela o impede de ver a verdade.”

“A única verdade é que você é uma monstra!” gritou Kael, desferindo um golpe poderoso que forçou Morwen a recuar.

“Eu não sou uma monstra, guerreiro,” disse Morwen, seus olhos fixos nos de Kael. “Eu sou uma vítima. Uma vítima da perda, da traição. E Ayara, em sua arrogância, se esqueceu disso. Ela me abandonou à minha própria dor. E agora, ela pagará.”

Morwen ergueu as mãos, e a própria estrutura do castelo começou a tremer. As paredes se racharam, e um redemoinho de cinzas e sombras surgiu no centro do salão. Kael sentiu a energia do Véu de Seda, agora corrompida, pulsando em Morwen, misturada com a escuridão que ela invocava.

“Você pensa que me derrotará?” Morwen riu. “Você está apenas alimentando o poder que a destruirá, e a tudo que ela amava.”

Kael percebeu que não podia vencer Morwen apenas com força bruta. A magia dela era alimentada pelas emoções negativas, e seu próprio ódio era uma arma para ela. Ele precisava de algo mais. Ele precisava de esperança. A esperança que Elara havia sacrificado tudo para trazer de volta.

Em meio ao caos da batalha, Kael fechou os olhos por um instante. Ele se concentrou na imagem de Elara, em seu sorriso, em seu sacrifício. Ele não sentiu mais ódio. Sentiu tristeza, sim, mas também um amor profundo e uma gratidão avassaladora. Ele se lembrou das palavras da Anciã Elara sobre o Véu de Seda: um ato de amor puro.

Quando Kael abriu os olhos, uma leve aura azulada o envolvia. Não era uma aura de raiva, mas de serenidade e determinação. Morwen sentiu a mudança, e sua expressão vacilou.

“O quê… o que é isso?” ela sibilou.

“É a memória de Elara,” disse Kael, sua voz calma, mas firme. “É a esperança que você tentou roubar. E ela é mais forte do que sua escuridão.”

Com essa nova força, Kael avançou, não com a fúria de antes, mas com a precisão e a resolução de quem luta por algo maior que si mesmo. Ele desviou dos ataques de Morwen, não com força bruta, mas com agilidade e foco. Ele estava lutando não para vingar, mas para proteger.

A batalha se intensificou, o castelo tremendo com a força das magias. Kael sabia que não poderia destruir Morwen diretamente, pois ela estava ligada à própria energia sombria do deserto. Mas talvez ele pudesse isolá-la, enfraquecê-la.

Ele percebeu que a fonte do poder de Morwen não era apenas sua própria magia, mas também a energia corrompida do Véu de Seda. Se ele pudesse alcançar o Véu, talvez pudesse reverter seu efeito, ou pelo menos isolar sua influência.

Em um movimento ousado, Kael correu em direção a Morwen, ignorando seus ataques. Ele viu o Véu de Seda, agora escuro e sinistro, envolto em torno do braço de Morwen, pulsando com uma energia maligna. Com um último esforço, Kael agarrou o Véu.

Um grito de dor e fúria escapou de Morwen quando Kael puxou o Véu de seu braço. A energia corrompida se chocou contra ele, mas a aura de esperança ao seu redor o protegeu. Ele sentiu o Véu queimar em suas mãos, tentando corrompê-lo, mas Kael se concentrou na memória de Elara, em seu sacrifício puro.

“Eu não vou deixar você usar isso para destruir Ayara!” Kael gritou, e com toda a sua força, ele arremessou o Véu de Seda de volta para o redemoinho de sombras e cinzas que Morwen havia conjurado.

O Véu, agora livre da influência de Morwen, começou a brilhar com uma luz branca pura, lutando contra a escuridão. O redemoinho começou a diminuir, a energia sombria se dissipando. Morwen gritou de dor e desespero quando seu poder começou a se esvair.

“Não! Meu poder!” ela urrou, tentando desesperadamente recapturar o Véu.

Mas era tarde demais. O Véu de Seda, imbuído com a energia do sacrifício de Elara e agora purificado pela resistência de Kael, consumiu a escuridão em torno de si. Morwen, privada de sua fonte de poder, soltou um grito final e agonizante enquanto a luz branca a envolvia, desaparecendo em meio às cinzas que agora pareciam mais fracas.

O castelo negro, antes imponente, começou a desmoronar. Kael, exausto, mas vitorioso, saiu correndo do edifício em ruínas, enquanto o sol, pela primeira vez em muito tempo, parecia brilhar com mais intensidade sobre o Deserto de Cinzas. A força de Morwen havia sido quebrada. A semente da esperança, plantada por Elara, havia germinado, mesmo nas terras mais desoladas. Mas Kael sabia que a luta não havia terminado. A sombra de Morwen poderia ter sido dissipada, mas as cicatrizes em Ayara ainda eram profundas. E a busca por uma cura para a praga que assolava seu povo continuava. Ele sentiu um vazio profundo pela perda de Elara, mas agora, pelo menos, ele podia lutar por um futuro onde seu sacrifício não fosse em vão.

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