O Sussurro do Sertão

Claro, vamos mergulhar no "Sussurro do Sertão"!

por Bruno Martins

Claro, vamos mergulhar no "Sussurro do Sertão"!

Capítulo 1 — O Sol Queimando a Terra Seca

O sol, um disco incandescente cravado num céu de anil sem nuvens, parecia querer evaporar a própria existência do chão. A poeira, fina e onipresente, levantava-se em redemoinhos preguiçosos a cada rajada de vento seco, grudando-se à pele suada de quem ousasse cruzar aquela imensidão árida. Era o sertão, um lugar de beleza brutal e de promessas sussurradas pelo vento, promessas estas que raramente se cumpriam com a gentileza que a esperança desejava.

Isabela sentia o calor penetrar-lhe os ossos, uma sensação familiar e ao mesmo tempo opressora. Há dois meses que o destino, ou talvez a falta dele, a trouxera de volta à terra de seus pais, a fazenda "Estrela Cadente", um pedaço de chão esquecido no mapa, onde o tempo parecia ter parado, preso entre o suor do trabalho árduo e a fé inabalável. Ela, com seus cabelos escuros emoldurando um rosto de traços finos e olhos verdes que um dia brilharam com a promessa de uma vida urbana e agitada, agora se via despojada de tudo aquilo. O divórcio, amargo como a terra sedenta, a deixara sem rumo, sem recursos, com apenas um pequeno colar de âmbar, herança de sua avó, como lembrança de um passado que parecia cada vez mais distante.

"Onde você pensa que vai, moça?" A voz rouca e arrastada de Seu Ramiro, o vaqueiro mais antigo da fazenda, a fez sobressaltar. Ele a observava de cima de seu cavalo baio, o chapéu de couro cobrindo parte de seu rosto enrugado pelo sol e pela vida.

Isabela suspirou, tentando disfarçar o cansaço que a dominava. "Estou só dando uma volta, Seu Ramiro. Respirar um pouco de ar puro."

Ele soltou um riso seco, que parecia o ranger de uma porta velha. "Ar puro? Aqui só tem poeira e solidão, moça. Melhor se acostumar." Ele a encarou, os olhos pequenos e perspicazes por trás das rugas. "Não é da sua conta, mas o patrão… digo, seu pai… anda inquieto. Desde que o dinheiro sumiu, ele não dorme direito."

O corpo de Isabela enrijeceu. O dinheiro. A quantia que seu pai, um homem de fé no futuro e de pouca cautela com as finanças, havia investido em um projeto mirabolante de irrigação que, segundo ele, transformaria aquela terra estéril em um oásis. A promessa de riqueza e prosperidade que viera acompanhada de um endividamento que agora ameaçava engolir a fazenda e tudo o que ela representava.

"Pai está preocupado, eu sei", disse Isabela, a voz um pouco tensa. "Mas ele é forte. E eu estou aqui agora. Vamos dar um jeito."

Seu Ramiro apenas balançou a cabeça lentamente. "Seu pai é um bom homem, moça. Mas às vezes, a fé cega mais do que ilumina. E esse sertão… ele guarda segredos que nem o sol mais forte consegue desvendar." Ele se virou, o cavalo trotando suavemente. "Cuidado onde pisa. Não é só a terra que é dura por aqui."

As palavras de Seu Ramiro ecoaram na mente de Isabela enquanto ela se afastava, o chapéu de palha que ela usava, uma concessão ao calor infernal, oferecendo pouca proteção. Ela sabia que seu pai, o Sr. Joaquim, era um sonhador. Um homem com um coração do tamanho do sertão, mas com uma visão de negócios tão turva quanto a água de um açude em época de seca. A fazenda "Estrela Cadente" era o legado de seus avós, um lugar de lembranças felizes de sua infância, de tardes preguiçosas sob a sombra de uma mangueira frondosa, de cheiro de terra molhada após uma chuva escassa. Agora, tudo parecia ameaçado por uma dívida que ela não entendia completamente, mas sentia o peso em cada fibra de seu ser.

Ela caminhou em direção ao curral, onde o cheiro forte de esterco e couro se misturava ao aroma doce de capim seco. As vacas mugiam baixinho, alheias à tensão que pairava no ar. Seu Joaquim estava lá, como sempre, cuidando de seus animais com uma dedicação quase religiosa. Era um homem de mãos calejadas, o rosto marcado por linhas profundas que contavam histórias de batalhas contra a seca e a burocracia. Ao vê-la, um sorriso cansado iluminou seus olhos azuis, espelhando os dela.

"Minha filha!", ele exclamou, largando a escova que usava para limpar um balde. Ele veio ao seu encontro, o abraço forte e familiar, o cheiro de suor e terra impregnado em sua camisa de algodão. "O sol está forte, vá para a sombra. Não quero você desidratando igual a uma folha seca."

Isabela retribuiu o abraço, sentindo a fragilidade que se escondia sob a força aparente do pai. "Eu estou bem, pai. Só queria ver como o senhor está."

Ele a afastou um pouco, os olhos fixos nos dela. "Eu estou… lutando, minha filha. Mas com você aqui, tudo fica mais fácil. Ver seu rosto me dá força." Ele suspirou, um som que parecia vir do fundo de sua alma. "Aquele projeto… se desse certo…"

"Pai, não se culpe. Foi um investimento, e nem sempre os investimentos dão o retorno esperado." Ela tentava ser prática, mas sabia que era uma tarefa árdua convencer o pai a desistir de seus sonhos, por mais irracionais que fossem.

"Não se trata de retorno, Isabela. Se trata de futuro. O futuro desta terra, o futuro da nossa família. Aquele dinheiro… era o nosso futuro. Agora…" Ele olhou para os arredores, a vastidão árida sob o sol inclemente. "Agora eu não sei mais."

Um silêncio pesado se instalou entre eles, preenchido apenas pelos sons da fazenda e pelo zumbido insistente dos insetos. Isabela sabia que algo mais grave estava acontecendo do que apenas um mau investimento. O tom de voz do pai, a forma como Seu Ramiro a olhou… havia algo de sombrio, algo que não estava sendo dito em voz alta.

"O que mais aconteceu, pai?", ela perguntou, a voz baixa e firme. "Por que o senhor parece tão… diferente?"

Sr. Joaquim hesitou, seus olhos desviando para o horizonte, para o ponto onde o céu e a terra se fundiam em um borrão indistinto. "Nada, minha filha. Apenas a preocupação. É a seca que nos castiga, a vida que é dura neste sertão. Nada mais."

Mas Isabela não acreditou nele. Aquele "nada mais" soava tão falso quanto um coqueiro em meio à neve. Ela sentia um nó se formar em seu estômago. O dinheiro sumido, o pai apreensivo, as palavras enigmáticas de Seu Ramiro… tudo se encaixava como as peças de um quebra-cabeça que ela ainda não conseguia ver por completo.

Ela decidiu que não podia ficar ali parada, apenas observando a fazenda afundar em dificuldades. Ela tinha que entender o que realmente havia acontecido. A vida em São Paulo, com seus escritórios modernos e seu ritmo frenético, parecia um sonho distante agora. A realidade era o calor, a poeira e um mistério que se desenrolava sob o sol inclemente do sertão.

Enquanto o sol começava sua lenta descida, pintando o céu de tons alaranjados e arroxeados, Isabela sentiu uma determinação crescer dentro de si. Ela não era mais a moça da cidade, frágil e desiludida. Ela era a filha do sertão, e se a terra guardava segredos, ela iria desenterrá-los, custasse o que custasse. O sussurro do sertão, que antes lhe parecia um lamento, agora soava como um chamado.

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